O ano da morte do aperto de mão
Pedro Marta Santos
04 de abril

O ano da morte do aperto de mão

O vírus não se limitou a roubar-nos o afecto reconfortante do abraço ou a ternura excitante do beijo. Apagou o compromisso de sermos humanos. Segundo alguns evolucionistas, o impulso do passou-bem poderá existir há sete milhões de anos - até os chimpanzés o praticam.

PROIBIDO DESDE MARÇO de 2020, estará o aperto de mão em vias de ser extinto? O passou-bem não é apenas um gesto de cortesia e um sinal de respeito. É o exemplo máximo da sociabilidade da espécie, o remate da palavra dada, a marca da nossa honra. Durante séculos, compromissos pessoais, pactos comerciais, tratados diplomáticos e declarações de paz foram selados com apertos de mão. Imaginem os Acordos de Helsínquia rematados por um chocalhar de tornozelos. Ou Roosevelt, Estaline e Churchill a encostarem cotovelos no desenlace da Conferência de Ialta. O vírus não se limitou a roubar-nos o afecto reconfortante do abraço ou a ternura excitante do beijo. Apagou o compromisso de sermos humanos. Segundo alguns evolucionistas, o impulso do passou-bem poderá existir há sete milhões de anos - até os chimpanzés o praticam. Estará inscrito no nosso ADN. Convida à intimidade, permitindo-nos testar o olfacto no interlocutor (na Mongólia ou na Gronelândia, ainda hoje é comum cheirar-se quem se cumprimenta). Tocar num desconhecido é suspender a desconfiança do outro, extinguindo o medo da diferença. O aperto de mão não é uma formalidade. É um mecanismo de sobrevivência comunitária. Há registos de um aperto de mão firme e assertivo em altos-relevos assírios do século IX a.C. Platão, Sófocles, Plínio, o Velho, faziam finca-pé em assinalar os seus encontros com um valente bacalhau. Mas o bacalhau desapareceu da Terra Nova em que hoje vivemos. Num livro lançado há uma semana em Inglaterra, The Handshake: a Gripping History, a paleontóloga britânica de origem iemenita Ella Al-Shamahi reflecte sobre este costume universal - mesmo na Rússia, no Japão, na Índia, os beijos na face, as vénias ou o namaste são substituídos pelo passou-bem em momentos decisivos. Se a tribo aborígene australiana dos Warlpiri aprecia o encosto de pénis como forma de cumprimento (os indígenas Masai são mais contidos; limitam-se a um toque breve com as palmas das mãos), 3/4 da humanidade não prescinde do bacalhau com todos. Há 13 meses, a única coisa que um aperto de mão nos infectaria era de uma vontade intensa de falar pelos cotovelos. Em Abril de 2021, continuamos em silêncio e de mãos vazias.

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