Saudades do futuro
Pedro Marta Santos
14 de março

Saudades do futuro

Quando for grande e livre, quero comer pão de centeio ainda quente com manteiga açoriana, carregada de sal refrescado pelos atuns enormes que sulcam o oceano. Deixar cair a cabeça na relva. Beijar amigos e desconhecidas. Lançar máscaras aos céus como balões de São João

Sonho todos os dias com lugares que a minha cabeça conhece, mas o meu corpo já não recorda. Tenho saudades do que ainda não senti. Experimento a nostalgia das encostas da Sardenha, onde nunca estive. Da Capadócia, que jamais visitei. Das pradarias do Montana, que desconheço. Do frio escaldante da Terra do Fogo, ao largo da qual não naveguei. O ar puro parece agora um território desconhecido, uma miragem gasosa cuja distância e raridade a tornam inacessível, asfixiando-me passo a passo. Pôr os pés na areia, sentir essa carícia húmida e porosa nos dedos, é aventura de alienígena, a recompensa de uma viagem intergaláctica. Quando for grande e livre, quero comer pão de centeio ainda quente com manteiga açoriana, carregada de sal refrescado pelos atuns enormes que sulcam o oceano. Deixar cair a cabeça na relva. Beijar amigos e desconhecidas. Lançar máscaras aos céus como balões de São João. Suster o fôlego nos lagos das cascatas do Gerês, sob sol tão escaldante que a água gelada pareça uma missa sem Deus ou padre. Rezar na floresta, abrigado pelas copas dos pinheiros que cheiram a Verão, e fazer um piquenique com 20 amigos até às quatro da manhã, ao som dos Psychedelic Furs. Ler Wordsworth em voz alta, mas sozinho, com vergonha de que entendam que não percebo metade das palavras. Jogar ao lencinho com os meus maiores inimigos. Agarrar num bebé e atirá-lo ao ar, sem medo de que possa sofrer quando o apanho e aproximo o meu rosto ao rosto dele. Estender o braço nos ombros de velhos cúmplices que não visito há 11 meses. Imperiais de frescura ofensiva em esplanadas a rebentar de gente (o desejo de esplanadas cheias é a medida exacta do meu desespero). O Tóquio ou o Jamaica com 100 vamps e marmanjos da outra margem, aos pulos - "Baby don’t worry/About a thing". Seis num carro até Tavira para mergulhos. Um dia ainda morro de saudades do que vou fazer. 

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