O discurso de Marcelo
José Pacheco Pereira Professor
29 de abril

O discurso de Marcelo

Na história da violência política do século XX não há mãos limpas. Usar a história para este apelo às armas e à mobilização é sempre retorquível, mas cria uma terra queimada que é, aliás, o seu objectivo.

O discurso do Presidente no 25 de Abril foi saudado por quase todos, e bem. Tenho criticado o Presidente muitas vezes, mas este seu discurso correspondeu a uma necessidade política actual: combater o crescente sectarismo e tribalização que caracteriza cada vez mais a vida política das democracias ocidentais e, em particular, a portuguesa. 

O uso da "História" para a política
Marcelo Rebelo de Sousa fê-lo num dos aspectos que está a ser cada vez mais frequente na luta política, que é a utilização instrumental da História para arregimentar a tribo e pedir ajustes de contas. Este processo verificou-se com a guerra colonial, Marcelino da Mata, o Holomodor e, agora, com as FP-25. A ignorância da história levou a outras propostas muito absurdas, como seja defender uns bolcheviques dos outros bolcheviques, como se a liberdade estivesse de um lado e a opressão do outro. Felizmente, para evitar o ridículo dos autores foi travada a tempo.

Esta tendência em curso destina-se a criminalizar o adversário, à falta de outros argumentos na política quotidiana. A direita radical atira de um lado os crimes do estalinismo, reais e condenáveis, mas não percebe que a resposta tribal simétrica seria responder-lhes com os crimes do colonialismo, reais e condenáveis, ou alguns assassinatos políticos como os de Humberto Delgado ou do Padre Max, já para não falar dos crimes do fascismo e do nazismo. Na história da violência política do século XX não há mãos limpas. Usar a história para este apelo às armas e à mobilização é sempre retorquível, mas cria uma terra queimada que é, alias, o seu objectivo. 

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