Uma comédia de enganos
Nuno Rogeiro
12 de janeiro

Uma comédia de enganos

O debate Costa-Martins assemelhou-se a uma audiência em tribunal para sustentar um divórcio litigioso.

É simples. António Costa diz que foi traído pelo Bloco de Esquerda em 2019 e 2021. Catarina Martins afirma-se enganada pelo PS em 2019. Costa entende que Martins se juntou «à direita e à extrema direita», redescobrindo as raízes do seu «fel» e das suas «bravatas ideológicas». Martins diz que Costa é o desviado, porque preferiu o capitalismo, a Troika e as privatizações ao governo popular.

Os dois clamam adultério político, mas os dois abrem uma porta: o regresso a 2015, mas só se o ex-cônjuge mudar. Nenhum deles vê culpas próprias na separação. Nenhum afirma que vai ser diferente, para salvaguardar o laço do passado.

Como na canção do Ivan Lins, é sempre um momento doloroso a descoberta de que o amor humano também pode acabar. Mas Martins e Costa não pareciam traumatizados: possuem apenas novos planos de vida.

Catarina Martins quer mais Estado socialista e menos convergência com a UE institucional. António Costa quer orçamentos equilibrados e dinheiro suficiente para manter público o que é público.

Catarina Martins afirma-se a barreira ao Anticristo privado. António Costa diz que, por pensamentos e palavras, erros e omissões, Martins já abriu a porta ao Mal. E por isso pede uma maioria. Leia-se, outro cônjuge.

Para além do folclore oficial (números ditos e desditos sem verificação dos factos, e mistura de maçãs e laranjas, alhos e bugalhos) ficou aqui o princípio da incerteza: pode ser que haja maquineta 2, mas só com arranjos de oficina e actos de contrição.

Ora como nenhum afirmou ir mudar, ou ir conceder, este divórcio só será contrariado, não por um tribunal ou por inspiração divina, mas por uma comissão de arbitragem. Provavelmente com outro nubente no lugar de Costa.

Claro que as contas podem sair furadas: nem maioria para o PS, nem terceiro lugar para o Bloco. E então tudo será diferente: depois de nós, o Dilúvio.

No fim, uma boa carta na manga do líder do PS: as contas sobre o que custaria trazer meia dúzia de empresas públicas para a esfera do estado. E custariam, segundo António Costa, mais 14.5% na dívida e duas vezes os fundos europeus da dita bazuca.

Visivelmente incomodada, Catarina Martins não perdeu ainda assim a calma, nem o tom ligeiramente cantante do seu discurso. E objetou que não foi esse pecadilho que criou o divórcio. Antes o trabalho e a saúde.

Mas entretanto caiu o pano. Sobre Caim e Abel. Ou Abel e o Monstro.

Para continuar a ler
Já tem conta? Faça login
Para activar o código da revista, clique aqui
Opinião Ver mais