O preso do passado
Nuno Rogeiro
01 de março

O preso do passado

Os semidebates acerca do nosso passado individual e coletivo, as fúrias sobre o cancelamento e a continuação da História, são fruto do conhecimento ou da ignorância? Ou de outras coisas?

Discussões – entre o sério e o tolo – têm protagonizado a nossa vida confinada.
Uma delas prende-se (e liberta-se) com a chamada "revisão e cancelamento" da História.
Houve uma altura em que os problemas pátrios se resolveram pela força.
Hoje só há vagos vestígios disso. Notam-se nalguns debates televisivos, radiofónicos, virtuais ou de viva voz, nos hemiciclos, anfiteatros e tabernas. O que se passa ali seria resolvido, tempos atrás, por um duelo, uma conquista, um golpe de Estado, uma revolução ou uma guerra civil.
Mas a passagem da era do sangue para a idade das palavras parece marcar, salvo melhor opinião, uma melhoria. Mesmo que seja só o "progresso" de canibais que passam a usar faca e garfo.
A civilidade e a paz dos costumes dão mais tempo para pensar. Mas também causam fastio, melancolia, tempo livre, e até sonhos húmidos por campanhas gloriosas.
Sobre isto se constroem as tiradas acerca da "necessidade" de reinventar o passado, de apear estátuas, de demolir monumentos, de cobrir a cabeça de cinzas e de pedir perdão.
Claro que se trata de um círculo vicioso e perigoso para todos: onde é que começam as culpas, e onde é que se devem iniciar as desculpas?
Cada comunidade tem os seus demónios a expulsar, sejam reais ou imaginários, cavalgando há muito tempo em lendas, ou ainda a viver na porta ao lado.
Em primeiro lugar deve perguntar-se: que "valores" presidem ao revisionismo?
A "liberdade"? A "democracia"? A "igualdade"? A "fraternidade"? A resistência ao "totalitarismo", ou só aos erros de gramática e ao mau cinema?
Para evitar que cada um destrua a estátua que o vizinho considera heroica, e proteja o seu fontanário, que os filhos odeiam como sinistro, os regimes políticos e as instituições consolidadas (o tempo é também elemento do estado) procuraram sempre reforçar os elementos de continuidade e amnistia, depois dos interregnos de barbárie e vingança.
No fundo, tratava-se de reconhecer a realidade: falamos todos (mais ou menos) a mesma língua, mas não (des)acreditamos todos nas mesmas coisas.
Veja-se a reconciliação nas estátuas de Lisboa, só como exemplo.
A Primeira República não arrasou muitos monumentos da monarquia, como o D. José da Praça do Comércio, o Camões e o escol científico e cultural de três séculos, junto às igrejas da Baixa, inaugurado por D. Luís. Nem acrescentou nomes dos partidos governantes "Às Virtudes dos Maiores" que encimam o Arco da Rua Augusta.
O Estado Novo erigiu um monumento ao maçon Sebastião de Carvalho e Melo, em 1934. O mesmo regime entregou a Barata Feyo, António Duarte e Luís de Almeida, entre 1947 e 1952, as estátuas de Alexandre Herculano, Almeida Garrett, Antero de Quental, Camilo e Oliveira Martins (a que podemos juntar o João de Deus original, de 1933), autores que impossivelmente serão alinhados na aliança entre Trono, Capital e Altar. E não cedeu a nenhum miguelismo residual, mantendo a estátua do Duque de Saldanha (de Tomás Costa, 1909).
O que seria se os iberistas quisessem remover o Álvaro Pais de Martins Correia, erguido em 1981, se se destruísse o Afonso Henriques de Soares dos Reis (1947), acusando-o de matricídio político, ou se tivéssemos os mais puritanos a empacotar o nu feminino do castelo de S. Jorge, permitido pelo salazarismo em 1948?
O que seria se, do Padrão dos Descobrimentos, se apagassem figuras à la carte? Ficava Luís Vaz, o nosso bardo? Fernão de Magalhães e Fernão Mendes Pinto, maiores do que a vida e celebrados como heróis e anti-heróis universais? Pedro Nunes, o matemático de que o País precisou?
E haveria sempre quem, depois de ler Ashwin Desai e Goolam Vahed, desejasse tirar o Gandhi do Restelo, por segregação antinegra, ou, ignorando a luta antiesclavagista do prelado, rebocasse o António Vieira de Marco Fidalgo (2017), pintando-o de vermelho.
Uma História à medida de cada um é ao mesmo tempo real e impossível.

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