Sábado – Pense por si

Gonçalo M. Tavares
Gonçalo M. Tavares Escritor
27 de outubro de 2026 às 23:00

O Não é a primeira forma de levantamento

A quietude é muito poderosa precisamente porque, não agindo, não partindo vidros nem cabeças, ficando simplesmente quieta, como é da sua natureza, ocupa um espaço como forma de exercer política com os pés estáveis e com isso manifesta um protesto difícil de desmontar.

Algo justo e potente está a acontecer com os protestos em Lisboa, Porto e outras cidades do país, isso até ao momento em que escrevo, 23 de Outubro. A justiça do protesto é evidente; já a potência vem disto: de uma quietude justa. É assim mesmo, há infinitas formas de protestar mas ocupar um espaço público e não privado é logo um bom princípio. Um espaço público pertence a todos, até aos que por ali querem continuar a ficar mais tempo. O espaço é público durante quanto tempo?, eis uma pergunta possível. Ou, outra pergunta, um cidadão, ou um grupo, pode ocupar quanto tempo máximo um certo espaço público? Há limites para a ocupação de um banco de jardim ou de uma praça? Os cidadãos devem ocupar por turnos certos espaços para não os monopolizarem? Perguntas possíveis, mas há muitas outras. Um sem-abrigo que ocupa um espaço público, muitas vezes contra a sua vontade, também deveria ser expulso pela polícia por monopolizar um cantinho público? Parece-me evidente: cada sem-abrigo está a manifestar-se politicamente quando dorme no espaço público. E só ignoramos estes protestos porque estamos já bem cegos ao que é evidente.

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