Saúde Mental | Erradicação da Pobreza: 7 dias de distância
Tiago Pereira Membro da Direcção e Coordenador do Gabinete de Crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses
19 de outubro

Saúde Mental | Erradicação da Pobreza: 7 dias de distância

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, cada um e uma de nós não conseguirá por si mudar o Mundo. Mas poderá, intervindo nos determinantes e promovendo saúde mental, contribuir para a mudança de uma ou de um conjunto de pessoas.

Desde 1994, 7 dias separam as comemorações do Dia Mundial da Saúde Mental (10.10) do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza (17.10). 7 dias, uma semana, com um simbolismo próprio, este ano reforçado pelo facto de o tema das comemorações do Dia Mundial da Saúde Mental ser a "Saúde Mental num Mundo desigual", a propósito de um Mundo onde "as pessoas mais ricas continuam a enriquecer" coexistindo com "um número de pessoas ainda muito alto que vivem em situação de pobreza". Por vezes, extrema, acrescento. Como acrescento que poderia o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza ter sido também ele dedicado à "Pobreza num Mundo desigual" a propósito de um Mundo onde as pessoas não pobres têm mais oportunidade e acesso a respostas e serviços na área da Saúde Mental coexistindo com um número ainda muito alto de pessoas pobres e excluídas sem oportunidade e acesso a respostas e serviços na área da Saúde Mental.

Uma semana e um ciclo muito próprio. Ciclo sobre o qual já reflecti nesta rubrica, porquanto a pobreza e a exclusão, também dela resultante, têm uma forte e cíclica associação com dificuldades e problemas de saúde mental ou psicológica, como são a depressão, a ansiedade e o stresse. Ciclo sobre o qual é urgente agirmos, porque todas e todos, num determinado momento da nossa vida, vivenciaremos ou poderemos vivenciar dificuldades ou problemas de saúde psicológica ou por eles sermos impactados. Porque todas e todos, num determinado momento da nossa vida, ficaremos ou poderemos ficar expostos a alguma precariedade, vulnerabilidade ou exclusão ou por elas ser impactados. Porque este ciclo significa, sobretudo, o sofrimento de muitas pessoas e comunidades, perda de anos de vida com qualidade e perdas económicas significativas em Portugal, na União Europeia (4% a 5% do PIB Europeu, segundo dados recentes) e no Mundo.

Daqui resultam três inevitabilidades. A de que não poderá existir um avanço significativo ao nível da saúde mental da população portuguesa se não existir também a diminuição significativa dos níveis a pobreza e de exclusão, seu importante determinante. A de que não haverá uma diminuição significativa no nível de pobreza e exclusão sem um investimento de recuperação das pessoas com doença mental e da promoção de saúde mental, enquanto factor determinante de resiliência e de possibilidade de adaptação da pessoa aos acontecimentos de vida e de projecção de e no futuro. Finalmente, a de que investir na saúde mental resultará também na diminuição de factores de vulnerabilidade que conduzem e/ou reforçam situações de pobreza e exclusão e que investir na diminuição dos níveis de pobreza e exclusão resultará no aumento da potencial da saúde mental, pela redução da escassez, promoção de competências transversais de vida e pela maior possibilidade de florescimento e de bem-estar.

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