Hiperespecialização: Sim ou Não?
Tiago Pereira Membro da Direcção e Coordenador do Gabinete de Crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses
04 de outubro de 2021

Hiperespecialização: Sim ou Não?

A complexidade e urgência que vivemos pedem uma experiência que resulte de diversidade e não de uniformidade, de flexibilidade e não de rigidez, de versatilidade e não de constância.

Vivemos tempos em que à complexidade crescente acrescentamos urgência. Como escreve Gonçalo M. Tavares, tempos em que "a vida, exigente, quer a resposta certa ao mesmo tempo da pergunta difícil formulada." Tempos de maior conhecimento e maior expectativa. De mais escolha, mais exigência. De novos desafios, exclusões e, até, de novas "pobrezas". 

Adam Smith, não raras vezes apontado como "pai da economia moderna" e responsável pela célebre frase "mão invisível do mercado", foi um dos primeiros autores a debruçar-se e a defender os benefícios da divisão do trabalho, nomeadamente da sua segmentação e da especialização de trabalhadoras e trabalhadores nas áreas, tarefas ou actividades dela resultantes. Adam Smith defendia que a divisão proporcionava o "aumento da capacidade produtiva" e o "maior progresso da ciência", resultados do treino e especialização de trabalhadoras e trabalhadores, da poupança de tempo resultante da não necessidade de mudança de tarefas e da possibilidade de automação progressiva de partes do trabalho. Defendeu-o no livro "A riqueza das nações", publicado há 245 anos numa Londres e num Mundo tão diferente do actual. Pergunto-me se e como o escreveria hoje? Pergunto-me, particularmente, como reflectiria hoje sobre os benefícios da especialização no contexto do trabalho e da ciência? 

Nestes mais de dois séculos avançamos da especialização para algo muito próximo da hiperespecialização. E, se esta hiperespecialização pode ser importante e relevante em ambientes de aprendizagem ditos "acolhedores" - caracterizados por feedbacks próximos e imediatos e por uma estabilização das regras e do contexto, onde a prática e o treino intenso tendem a produzir melhores resultados – parece não produzir semelhantes resultados em ambientes de aprendizagem descritos como "inóspitos". Nestes contextos, onde o feedback é mais irregular e os contextos e até as "regras" são mais voláteis e ambíguas, a hiperespecialização decorrente de um treino intenso e persistente tende a não produzir os mesmos resultados. Ou seja, a hiperespecialização parece resultar menos, por exemplo, em trabalhos mais individuais de criação na área da programação ou cultura ou na educação de crianças (ambientes mais inóspitos) face à prática de um desporto individual em que não existe interacção directa com as adversárias e/ou adversários como o golfe ou quando se é parte de uma linha de montagem numa indústria (ambientes mais acolhedores). 

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