Poucos temas têm sido tão maltratados por este jogo de espelhos como a questão da identidade de género.
Há expressões que sobrevivem aos séculos porque dizem muito com pouco. “Ver-se grego” é uma delas. Curiosamente, num tempo em que se tenta polir a linguagem até à exaustão, como sugere o recente “guia para a utilização de linguagem inclusiva”, da universidade Nova de Lisboa, até estas expressões correm o risco de ser banidas, como se carregassem em si um peso discriminatório que, honestamente, não têm.
Não é por ignorância histórica: sabemos bem que “grego” é uma designação latina, que " grego" na existe na língua grega, e que os próprios se chamavam helenos, e não é por "atentar", alegadamente, contra um determinado grupo, que a expressão incomoda. É antes reflexo de um certo zelo contemporâneo, que, na tentativa de não ferir suscetibilidades, acaba por cair num tipo de “wokismo” excessivo e, paradoxalmente, contraproducente. Porque a reação não tarda: do outro lado, emerge um contra-wokismo igualmente simplista, que reduz temas complexos a caricaturas.
E poucos temas têm sido tão maltratados por este jogo de espelhos como a questão da identidade de género.
Convém começar pelo essencial: a transexualidade e a não conformidade de género não são invenções modernas, nem produtos de uma sociedade “decadente”, como alguns insistem. Também não são uma conquista recente de agendas ideológicas. São, isso sim, uma constante histórica.
Desde o imperador romano Heliogábalo, que preferia ser tratado como mulher, aos sacerdotes Galli que adotavam expressões femininas no culto de Cibele; dos hijras do sul da Ásia, com mais de dois mil anos de história, às figuras “Two-Spirit” das culturas indígenas americanas; de casos europeus como o Chevalier d’Éon ou Eleanor Rykener, até às primeiras cirurgias de afirmação de género no século XX, a diversidade de identidade de género atravessa civilizações, religiões e sistemas políticos.
Ou seja: não estamos perante uma moda. Estamos perante uma expressão da própria condição humana — social, empática, complexa.
Mas, paradoxalmente, a sensação de não conformidade de género, que o tempo acaba por comprovar não ser real, material, pode realmente advir de determinados modismos, como veremos adiante.
O que varia ao longo da história não é a existência destas realidades, mas a forma como são enquadradas: ora reprimidas, ora toleradas, ora até integradas. E aqui importa desmontar dois mitos contemporâneos. Não vivemos hoje o período mais permissivo da história, como dizem os mais conservadores, nem o mais repressivo, como defendem os mais militantes. Vivemos, isso sim, um tempo de falta de ponderação.
O debate em torno das alterações à Lei da Autodeterminação da Identidade de Género é exemplo disso. De um lado, discursos que insinuam que qualquer prudência equivale a violência, como quando se invoca, de forma intelectualmente desonesta, o assassinato de Gisberta para silenciar posições divergentes. Nesse domínio , a sugestão de Isabel Moreira de que aqueles que aprovaram a alteração da lei de 2018, e por essa razão , são cúmplices retractivos da morte de Gisberta, é de um capciosismo intelectual raramente visto, e que merecia outra censura pública. Do outro, um discurso trocista, que reduz vidas humanas a cromossomas, piadas sobre “XX e XY” ou comentários de mau gosto sobre corpos e parte da fisionomia humana.
Ambos os lados falham o essencial: o respeito.
É legítimo defender direitos das pessoas trans. É igualmente legítimo discutir limites, nomeadamente quando estão em causa menores. Aliás, se a sociedade entende, e bem, que jovens não têm maturidade para votar, conduzir ou casar, é razoável questionar até que ponto devem poder tomar decisões irreversíveis sem qualquer mediação.
Não estamos no domínio de negar direitos, mas de reconhecer a complexidade.
A experiência quotidiana também levanta interrogações. Quando se observa, em contexto escolar, um número crescente de jovens, sobretudo raparigas, a experimentar identidades de género de forma transitória, é difícil não questionar o papel das influências sociais e culturais. Não para negar a existência de casos genuínos, mas para evitar que uma realidade profundamente séria seja tratada como tendência passageira. Como pai, testemunhei muitas situações semelhantes nas turmas dos meus filhos, em número suficiente para dinamitar qualquer rácio de consciência trans. A não conformidade de gênero é, naturalmente, minoritária, num grupo de alunos, sendo um desafio estatístico que metade das meninas de uma turma se assumam de género distinto ao do nascimento. Fatalmente se apercebem, maioritariamente, que essa sensação de não conformidade com o seu sexo é fruto do tal modismo circunstancial, fomentado muito mais por conteúdos que recebem online do que pelo plano de estudos de disciplinas que me parecem bastante pertinentes na dotação de ferramentas que ajudem a criança e o jovem a perceber a realidade e o contexto que os circundam.
O mesmo princípio de equilíbrio aplica-se a outras áreas. No desporto, por exemplo, a questão da equidade não pode ser ignorada: diferenças biológicas são reais e relevantes. Já em contextos como concursos de beleza, onde não existe essa vantagem estrutural, a participação de mulheres trans não levanta o mesmo tipo de problema, podendo até ser motivo de reconhecimento.
No fundo, o problema não está na diversidade. Está na incapacidade de a discutir com nuance.
A lei de 2024 que criminaliza as terapias de conversão é um bom exemplo dessa ambivalência: protege, e bem, contra tentativas de repressão da identidade, mas também deve servir de alerta contra pressões no sentido oposto, sobretudo sobre jovens ainda em formação.
Talvez o maior erro do nosso tempo seja este: falar demasiado em nome das pessoas e ouvi-las de menos. Numa democracia, o cidadão não precisa de ser protegido de si próprio. Precisa, sobretudo, de ser deixado em paz.
E talvez seja por isso que, perante esta mistura de ideologia, história, ciência, emoção e política, continuemos, inevitavelmente, a ver-nos gregos.
Fala-se do filho do Xá. Fala-se de líderes no exílio. Fala-se de figuras que, do exterior, prometem um novo Irão. Mas raramente se equaciona um nome que está, e sempre esteve, dentro da própria história política da República Islâmica: Mohammad-Reza Khatami.
Ana Abrunhosa foi com a lição bem estudada. Surgiu com o colete da proteção civil, sublinhando visualmente o contexto que justificava a oportunidade: as cheias que devastaram a zona centro do país. Foi uma escolha cénica eficaz.
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