Sábado – Pense por si

Tiago Freitas
Tiago Freitas Analista em Assuntos Europeus
18 de abril de 2026 às 08:00

Reputação, ou votar com os pés

A reputação não se decreta. Não se impõe com tarifas, nem se conquista com slogans. Constrói-se com previsibilidade, respeito e coerência. E quando se perde, o mundo responde com menos viagens, menos confiança, menos proximidade.

Num tempo em que a força bélica, económica ou simplesmente verbal, voltou a ser usada como arma política, há um ativo silencioso que ganha centralidade: a reputação. Não se mede em votos imediatos, nem em manchetes estridentes, mas revela-se, com uma precisão quase cruel, nos comportamentos coletivos. E hoje, mais do que nunca, o mundo está a “votar com os pés”. Só vai onde lhe apetece, onde sente empatia.

Durante anos vivemos sob o que muitos apelidaram de “opressão woke”. Seguiu-se uma reação que começou por ser higiénica, mas que rapidamente resvalou para um contra-wokismo excessivo, por vezes boçal. O resultado? Um barómetro reputacional completamente desalinhado, onde o que é “bom” ou “aceitável” varia consoante o campo ideológico. Ainda assim, há sinais que atravessam essas trincheiras.

Os Estados Unidos são hoje um caso de estudo.

Sob a liderança de Donald Trump, o país apresenta um paradoxo revelador: menos turistas, mas mais receitas. Em 2025, o número de visitantes estrangeiros caiu entre 2,6% e 6%, com quebras acentuadas vindas do Canadá, Europa e Ásia. Ainda assim, o gasto total aumentou, impulsionado pela inflação e pelo encarecimento dos serviços. Ou seja, quem vai, paga mais, mas cada vez menos querem ir.

Isto não se explica apenas por vistos mais caros ou burocracia acrescida. Explica-se, sobretudo, por um sentimento difuso de afastamento. A errância política, o desprezo por aliados históricos, a hostilidade verbal e a volatilidade estratégica criaram um ruído reputacional que afasta. Não se cinge a política externa. É uma perceção global.

Curiosamente, os mais afetados pelas políticas anti-imigração continuam a querer entrar. Já os aliados tradicionais, esses começam a virar costas. Porque a reputação não se impõe, constrói-se. E pode perder-se rapidamente. É o princípio da árvore que demora décadas a crescer, mas que basta uma fagulha, e poucos minutos, para ser incinerada.

Do ponto de vista económico, o cenário é igualmente preocupante. A inflação, apesar de controlada face aos picos pós-pandemia, continua a corroer o poder de compra. O custo de vida aumentou, penalizando precisamente o eleitorado que sustenta o movimento MAGA. E esse eleitorado, ao contrário do que muitos pensam, é profundamente pragmático: vota com o bolso.

Se a tendência se mantiver, as eleições intercalares poderão transformar-se num referendo económico…e reputacional.

Mas há outro campo onde essa erosão se torna visível: o religioso.

O confronto entre o Papa Leão XIV e Donald Trump ultrapassa a mera divergência política. Ao atacar o Papa, e até ao querer confundir-se com um Messias, Trump não atinge apenas os católicos. Num país onde o cristianismo evangélico é fragmentado e sem uma figura unificadora, Sem o seu “ Arcebispo de Cantuária, o Papa continua a ser, ainda que indiretamente, uma referência moral.

E isso tem consequências.

Ao posicionar-se como voz da paz, do diálogo e da moderação, Leão XIV, até aqui discreto, encontrou, paradoxalmente, no conflito com Trump a sua afirmação. Até mesmo a sua vocação para o pontificado, sob o primado da Aliança das Civilizações. Trump, involuntariamente, deu-lhe palco. E num mundo saturado de ruído, quem fala com serenidade destaca-se.

Não é fácil suceder a Francisco, um Papa que redefiniu a comunicação da Igreja logo na primeira semana. Mas Leão XIV tem uma vantagem estratégica: é americano, conhece o terreno e possui legitimidade para confrontar o poder político dos EUA sem ser descartado como um observador externo.

No fundo, estamos perante dois modelos de liderança: um baseado na força e na disrupção; outro no reconhecimento moral e na consistência.

E é aqui que regressamos ao ponto inicial: a reputação.

Ela não se decreta. Não se impõe com tarifas, nem se conquista com slogans. Constrói-se com previsibilidade, respeito e coerência. E quando se perde, o mundo responde, não com indignação ruidosa, mas com decisões silenciosas: menos viagens, menos confiança, menos proximidade.

Num tempo de extremos, talvez o maior desafio seja precisamente esse: perceber que o poder mais duradouro continua a ser aquele que não se vê, mas que todos sentem. O dos verdadeiros líderes.

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