Tudo muda quando o corpo muda. Até o pensamento sobre a vida e o mundo. A disposição não é tudo, mas é muita coisa.
Está meio acordado quando toca o despertador. Não sabe se a bexiga ameaça, deixando-o numa espécie de vigília, se dormita entre voltas na cama. Quando o despertador toca, tem a sensação de que já não dorme, mas ainda continuaria a dormir, pelo que não consegue avaliar – e hoje tudo se avalia, com ou sem sensores a vigiar pelo punho. Na verdade, parece que depende do humor: pressentindo-se pessimista, cavalga na má qualidade do sono, assumindo que já estava acordado, como quem contabiliza mais um prego no caixão; pressentindo-se otimista, agarra-se àquele acordar como prova de que o corpo fez a pausa que tinha a fazer.
O passo seguinte é arrastar-se para a tortura matinal – aquela que afirma compensar quando termina. Os outros horários não servem porque há sempre um mundo a acabar no expediente dos que só veem produção em reuniões e ansiedades das nove às vinte e uma. Treinar é de manhã para que não nos interrompam. Treinar é de manhã para que não pareça que treinamos, como se roubasse tempo a outras coisas. Tem de ser um sacrifício porque isso da vida fácil é preguiça. Há que escolher o caminho mais longo. Ou talvez não. As pessoas já não são todas assim. Mas, quando se vai contrariado, há que culpar as circunstâncias – as reais, as que os nossos medos imaginam ou uma mistura de tudo um pouco.
Cumpre. Sabe bem. Já lhe passou a neura. É um horário mais confortável, apesar do desconforto de acordar à força quando as forças mais faltam. Tudo muda quando o corpo muda. Até o pensamento sobre a vida e o mundo. A disposição não é tudo, mas é muita coisa – eis a reflexão banal que o ocupa após cada treino, já não tortura, mas conquista de que se orgulha.
Come: hidratos e proteína. Os alimentos agora são isso: o que oferecem e não só o que parecem. Quem lhe dera que as pessoas se apresentassem com aquelas letras pequeninas: mentiras – qualquer coisa por cento –; críticas e implicações – qualquer coisa por cento –; narcisismo – qualquer coisa por cento. Assim saberíamos se eram verdadeiramente leves, só com a substância nas quantidades que interessam, aquelas carnes magras de personalidade em quem poderíamos confiar. Os alimentos começam a parecer mais fiáveis, já que nem a nossa tabela somos capazes de escrever com a precisão dos honestos. Deambula-se entre a venda da banha da cobra, a falsa modéstia e a autoflagelação. Alguns sabem medir-se; ele continua a tentar.
O banho não é ecológico. O lixo separa-se, as lâmpadas são eficientes, os eletrodomésticos são “A” mais qualquer coisa. Mas o banho é também um ambiente; prolonga-se para pensar, repensar, organizar e, finalmente, sair acordado.
Trabalho. O mundo a acabar. Já não alinha. Às vezes, entusiasma-se, se houver mesmo algo a descobrir. Mas o mundo não pode acabar. Imagina que será assim para os cirurgiões – se estiverem tão tensos como o doente ou as famílias, o mais certo é que os mundos que lhes passam pelas mãos acabem mesmo. Por isso, parecem mecânicos, com manifestações de empatia a espaços para que ninguém pense que não levam aquilo a sério. Levam muito a sério, mas podem mandar o emoji à miúda que conheceram há anos e está fechada num escritório, ou falar com ela e com os filhos comuns no WhatsApp da família – já sabem como se organiza o jantar e quem vai buscar o mais novo cujos treinos acabam a horas indecentes.
Ele não é o cirurgião. É outra coisa. Mas gosta da imagem. Dá-lhe penacho.
Pois, o trabalho. Vai resolvendo fins do mundo à vez. É atropelado por mundos que se acham à beira e arrefece os que se ameaçam autodestruir.
A caminho de casa. No dia seguinte há outro treino. É assim que organiza a semana. Precisa de hidratos e de proteína. Devia incluir uns verdes, mas parece-lhe trabalho a mais. Já não são horas para fazer jantar. Passa no supermercado e desenrasca algo que seria impossível se vivesse aquela família do cirurgião. Até no imaginário tem manias: sonha um viver família porque lhe parece melhor do que viver na família.
Chega a casa, muda de roupa, lava as mãos, liga as notícias e agarra-se ao agridoce do conjunto: sardinhas com banana.
Com o “Doutor Pascoal” a ciência era só um sintoma do homem honesto. Conhecia-me de ginjeira, sabia perfeitamente que eu era muito menos do que parecia, que tinha as minhas ambições e peneiras. Pascoal era o oposto: discreto e silencioso; sólido. Ele era a enciclopédia e eu uma espécie de resultado de pesquisa de IA.
Aos poucos, já começava a "sonhar para a frente e a sorrir para trás", recuperando a mensagem adormecida de uma curvada idosa e a sabedoria dos levadeiros que preferiam encaminhar a água para fazer vida a desperdiçar vida à espera da água.
Apetecia-me frango assado. Quando chegasse a casa ainda ia às compras. Talvez conseguisse rever umas coisas à noite, para compensar a desgraça da manhã.
O telemóvel. Falam mal do telemóvel. Dizem que nos isola. O meu não. Faz-me companhia. Elas gostam de mensagens. Algumas adoram áudios. Olho para o ícone na esperança sei lá do quê.
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