Conheça em primeira mão os destaques da revista que irá sair em banca.
(Enviada semanalmente)
Com o “Doutor Pascoal” a ciência era só um sintoma do homem honesto. Conhecia-me de ginjeira, sabia perfeitamente que eu era muito menos do que parecia, que tinha as minhas ambições e peneiras. Pascoal era o oposto: discreto e silencioso; sólido. Ele era a enciclopédia e eu uma espécie de resultado de pesquisa de IA.
Brincava com uma bola na rua junto à admirável quinta do Seminário Diocesano de Leiria, esse sítio estranho, vedado e imponente. A bola pulou para dentro e a solução passava por saltar o muro e resgatar. Foi a primeira vez que o vi: alto, de batina preta, sobrancelhas grossas e cara fechada (muito mais tarde soube que sabia sorrir). Não me lembro do que disse ou o que aconteceu. Nem sei como recuperámos a bola.
Mais um ou dois anos e, já crescido – com doze anos, portanto! –, passo o portão daquela quinta, ficando para sempre com o título de (ex-)seminarista. Entre os padres superiores lá estava a figura imponente de Augusto Ascenso Pascoal, ou “Doutor Pascoal”, como muitos diziam.
Já perto dos meus 50, este agora agnóstico foi à Casa do Clero, em Fátima, visitar antigos mestres. O reitor do meu tempo – cónego Américo Ferreira – dispara um “Ó Duro, tenho-te visto na televisão, rapaz”. O padre Pascoal estava nas imediações. Tremi por dentro. Senti-me aquele menino que todos os dias crescia com humildade e admiração, que jamais conseguiria parecer mais do que é, que na verdade era muito pouco, porque o saber era infinito. Revi a minha vida moderna, a advocacia dos “closings”, os “detalhes” que se impuseram aos “pormenores”, algum “ter que” que, no contexto e função, seria “ter de”; enfim, um sem número de erros de concordância, de sintaxe, de pobres estrangeirismos, ou de quem maltrata a etimologia, como se “entusiasmo” se pudesse banalizar em algo menos do que “encher-se de Deus”. Não, a vida não me deixa ser rigoroso a todo o tempo; mesmo que deixasse, eu nunca seria capaz. Consulto o prontuário, o Portal da Língua Portuguesa e o Ciberdúvidas mais do que uma vez por semana, ainda hoje; falharei todos os dias, às vezes, também no básico. E respiro fundo porque poucos querem saber, uma vez que eu também já não sei. Aquele “ó Duro” era um afeto. De ambos. Mas senti-me pequenino. Não porque me diminuíssem, mas porque com eles sempre soube que o único rumo é crescer.
Líamos os Lusíadas em voz alta no nono ano. Pascoal circulava pela sala. “Não fizeste a pausa na vírgula”. Saímos todos em defesa do leitor: não havia vírgula. Pascoal insistiu. Mostrámos. Foi buscar outra edição; a nossa estava errada. Os padres lá nos esclareceram que ele tinha decorado a maioria dos cantos dos Lusíadas na adolescência. Tal como conhecia as diferentes listas dos papas; ou as diversas dinastias da Europa, cruzando as famílias e o seu impacto nos países. Antes de adormecer, decorava qualquer coisa a bem do exercício da memória.
Numa aula, foi-me pedida pronúncia sobre a proto-história da língua portuguesa. Sempre fui articulado e disse umas coisas com bom ar. De seguida, cada um tinha de comentar a minha prestação. Só um levantou dúvidas – hoje professor universitário, a terminar um segundo doutoramento e a quem ligo a fazer perguntas sobre filosofia ou retórica quando deteto uma falha a que não sei dar nome. Quanto a mim, Pascoal sentenciou: “não é nada disso”. Desde então, nunca me bastou convencer os outros se eu me souber com pés de barro.
Se hoje digo que não falo sem estar preparado, que tenho de dormir sobre o assunto, que pode não ser assim tão simples, já sabem porquê. Se, apesar de gostar (porque sou humano), desvalorizo qualquer elogio, não é modéstia, não é falsa modéstia: é realismo. Também não é trauma: sou muito feliz por saber que o caminho é infinito; não fico afogueado nem acomodado.
O diretor espiritual do seminário era outro, mas acabei por pedir que me deixassem escolher o “Doutor Pascoal”. Nele a ciência era só um sintoma do homem honesto. Conhecia-me de ginjeira, sabia perfeitamente que eu era muito menos do que parecia, que tinha as minhas ambições e peneiras. Pascoal era o oposto: discreto e silencioso; sólido; em contínua acumulação de saber. Ele era a enciclopédia e eu uma espécie de resultado de pesquisa de IA, com o discurso arrumadinho e aparentemente consistente, cheio de falhas e com fontes mal trabalhadas.
Mais de 15 anos sem grandes contactos, respondendo a interpelação de alguém a meu respeito, terá observado: “se ele já disse, não há nada a fazer”. Conhecia-me de ginjeira.
Ao adulto não corrigiu uma palavra, não questionou a escolha de carreira, não perguntou o que aconteceu à minha fé. Casou-me, mas não perguntou por que me divorciei. Deixou-me ser. Deu-me a oportunidade de admirar, deu-me o desejo de me exigir.
Aos quatro anos fiquei sem pai. Aos quase 52 despeço-me de quem mais respeitei desde que me conheço: Augusto Ascenso Pascoal.
Com o “Doutor Pascoal” a ciência era só um sintoma do homem honesto. Conhecia-me de ginjeira, sabia perfeitamente que eu era muito menos do que parecia, que tinha as minhas ambições e peneiras. Pascoal era o oposto: discreto e silencioso; sólido. Ele era a enciclopédia e eu uma espécie de resultado de pesquisa de IA.
Aos poucos, já começava a "sonhar para a frente e a sorrir para trás", recuperando a mensagem adormecida de uma curvada idosa e a sabedoria dos levadeiros que preferiam encaminhar a água para fazer vida a desperdiçar vida à espera da água.
Apetecia-me frango assado. Quando chegasse a casa ainda ia às compras. Talvez conseguisse rever umas coisas à noite, para compensar a desgraça da manhã.
O telemóvel. Falam mal do telemóvel. Dizem que nos isola. O meu não. Faz-me companhia. Elas gostam de mensagens. Algumas adoram áudios. Olho para o ícone na esperança sei lá do quê.
O restaurante ficava perto da Igreja de São Roque, com a promessa de descida ao Cais do Sodré para lavar as vistas com nacionais e estrangeiras, já que era importante que eu não me esquecesse de que "há mais mundo".
Para poder adicionar esta notícia aos seus favoritos deverá efectuar login.
Caso não esteja registado no site da Sábado, efectue o seu registo gratuito.
Para poder votar newste inquérito deverá efectuar login.
Caso não esteja registado no site da Sábado, efectue o seu registo gratuito.