No final, a Meta Platforms ganha sempre, não porque manipula directamente cada decisão mas por estruturar um ambiente impossível para essas decisões.
Há dias, a deputada finlandesa do Parlamento Europeu, Maria Ohisalo, partilhou um vídeo que seguia uma das trends do momento, “mãe, como eras tu nos anos 90”. Um formato aparentemente inofensivo, quase nostálgico, que serve dois propósitos essenciais no ecossistema digital contemporâneo, captar atenção e entreter. Mas, desta vez, o vídeo não era apenas mais um conteúdo viral e, ao driblar o algoritmo, assumiu-se como um aviso.
A mensagem era simples: a Meta, empresa que detém Facebook, Instagram e WhatsApp, está a utilizar fotografias, vídeos e legendas partilhados em contas públicas para treinar os seus modelos de inteligência artificial. Até aqui, nada de novo, porque sempre soubemos que aquilo que publicamos, comentamos ou partilhamos alimenta o funcionamento das plataformas, tal como sempre soubemos que os sistemas aprendem connosco. O detalhe está na natureza desses dados. Já não se trata apenas de preferências, gostos ou padrões de consumo, trata-se de tempo, de continuidade, de evolução. As trends que incentivam a revisitar o passado, como o “TBT”, os aniversários ou os vídeos que comparam 2016 com 2026, estão a fornecer algo muito mais valioso, uma narrativa longitudinal da nossa vida, um arquivo organizado da forma como envelhecemos, mudamos e nos transformamos.
Ao cruzar imagens ao longo do tempo com metadados como idade, datas e contextos de publicação, estas plataformas conseguem ensinar aos sistemas de inteligência artificial como um rosto evolui, como a pele muda, como os traços se alteram e como o tempo se inscreve no corpo. Este tipo de informação é central para o desenvolvimento de tecnologias de reconhecimento facial e outros sistemas baseados em dados biométricos.
Estamos perante uma mudança subtilmente estrutural, na qual deixamos de ser apenas produtores de conteúdo para nos tornarmos matéria-prima de sistemas que aprendem sobre nós ao longo do tempo. A questão é apenas tecnológica, política, social e cognitiva. Maria Ohisalo relembra que, no contexto da União Europeia, os utilizadores podem opor-se à utilização dos seus dados para treinar modelos de inteligência artificial. Para isso, basta aceder às definições de privacidade e recusar essa autorização. O mecanismo existe e o direito também. O problema, no entanto, raramente está na ausência de opção mas na distância entre ter a opção e a conseguir utilizar. A multiplicidade de menos e opções transforma o exercício de um direito numa tarefa exigente, quase técnica.
A maioria dos utilizadores não tem disso consciência. Dos que têm, muitos não têm tempo. Dos que têm tempo, faltam competências para navegar sistemas cada vez mais complexos. E, mesmo entre os que sabem e conseguem, há um elemento decisivo, a inércia, ou seja, a tendência para deixar andar. Este é o verdadeiro paradoxo da vida digital contemporânea: somos simultaneamente os mais informados e os mais passivos. Sabemos mais do que nunca sobre como as plataformas funcionam mas agimos cada vez menos, não por ignorância, mas por saturação.
É aqui que a lógica das plataformas se torna evidente, pois não é preciso impedir o utilizador de agir, basta tornar a ação suficientemente difícil, demorada ou irrelevante no fluxo do quotidiano. No final, a Meta Platforms ganha sempre, não porque manipula directamente cada decisão mas por estruturar um ambiente impossível para essas decisões.
Voltamos, assim, a um tema recorrente, a insustentabilidade da vida digital, não no sentido ambiental mas na forma como organizamos a nossa atenção, o nosso tempo e a nossa capacidade de decisão. Cada nova funcionalidade, cada nova trend, cada novo formato viral acrescenta uma camada de complexidade a um sistema que já ultrapassa a capacidade média de gestão individual. A questão já não é se usamos as plataformas, é se conseguimos, ainda, usá-las de forma consciente.
Estará o modelo de subscrição musical digital ameaçado? Ainda não mas, se pensarmos que veio substituir décadas de relação individual com a música, e que são os mais jovens a procurar alternativas para abandonar esta lógica, talvez estejamos perante uma inflexão cultural.
Muito se fala de uma geração à qual atribuem mais defeitos do que qualidades. Talvez seja, contudo, seja esta a geração que vai mudar tudo. E, por tudo, entenda-se, t u d o.
Pela primeira vez, discute-se de forma consequente a arquitectura destas plataformas: não apenas o conteúdo, mas os mecanismos que o tornam irresistível.
As escolhas já ultrapassam, em muito, separar ou reciclar o lixo, fazer compostagem em casa ou desligar as luzes. São medidas importantes mas, mais importante, é a literacia que nos falta para compreender os modos de funcionamento e agenciamento dos interesses subjacentes às empresas que dominam o que comemos ou bebemos.
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