Sábado – Pense por si

Alexandre Monteiro
Alexandre Monteiro Profiler
25 de outubro de 2026 às 08:00

Decifrar o fim das relações amorosas

O primeiro sinal raramente é uma discussão, é uma ausência, menos abraços, beijos mais curtos, conversas lado a lado em vez de frente a frente, olhares que já não se demoram. Cada um destes gestos é uma fonte de ocitocina. Quando desaparecem, o apego deixa de ser alimentado e a ligação começa a viver das reservas.

As relações amorosas são neuroquímica e não acabam no dia em que acabam, acabam muito antes, em silêncio, dentro de dois cérebros que deixaram de produzir a mesma química um pelo outro. O dia da conversa final, da mala à porta, da mensagem que ninguém quer receber, é apenas o momento em que o corpo assina o que o cérebro já tinha decidido. 

Passei décadas a estudar o que move pessoas e uma das coisas que aprendi é que o amor, visto de perto, é um jogo químico com regras surpreendentemente previsíveis e quem conhece as regras consegue ler o fim antes de ele chegar, não para o evitar a todo o custo, mas para deixar de ser apanhado de surpresa. 

O início é um cérebro sob o efeito de uma droga 

Nos primeiros meses de uma paixão, o cérebro funciona em regime de exceção, a dopamina, o neurotransmissor da recompensa e da motivação, dispara cada vez que vemos, ouvimos ou simplesmente pensamos na outra pessoa, a noradrenalina acelera o coração, tira o sono e tira o apetite, é a química da caça, não a do conforto porque ao mesmo tempo, a serotonina desce.  

No final dos anos noventa, uma equipa da Universidade de Pisa liderada pela psiquiatra Donatella Marazziti comparou pessoas apaixonadas há poucos meses com doentes com uma perturbação de obsessões e compulsões e a densidade do transportador da serotonina no sangue era igualmente baixa nos dois grupos que faz com que pensemos na pessoa amada de forma intrusiva, repetitiva, quase involuntária, a paixão parece uma obsessão e a responsabilidade é química.  

E há mais, os neurocientistas Andreas Bartels e Semir Zeki, em Londres, mostraram que o amor romântico desativa regiões do cérebro ligadas ao medo e ao juízo crítico sobre os outros, o ditado “amor é cego” tem base científico, o cérebro fica neurologicamente cego. A primeira chave de leitura nesta fase, é que ninguém está a ver a outra pessoa como ela é, mas sim a sentir a dopamina. 

Do fogo à âncora 

Esta química não foi feita para durar, Marazziti voltou a medir alguns dos mesmos apaixonados entre doze e dezoito meses depois, e os valores tinham regressado ao normal, a droga passa e passa sempre. 

O que decide o futuro de uma relação é aquilo que a substitui e aqui entram duas hormonas, a ocitocina e a vasopressina, são as moléculas do apego, da confiança, da sensação de casa, são libertadas com o toque, o abraço demorado, o olhar sustentado, a intimidade física e a rotina partilhada. 

Esta química é decisiva, se bloquearmos os recetores de ocitocina e de vasopressina, deixamos de criar laço com o parceira e diminui a fidelidade, é literalmente uma questão química.  

Uma relação sobrevive à descida da dopamina quando existe, por baixo, um sistema de apego a funcionar e acaba quando a dopamina desce e não há nada para a substituir ou há outra coisa que começa a corroer tudo, o stress. 

A meio da vida, quando a química muda as regras 

A estatística portuguesa do INE em 2023, refere que a idade média ao divórcio em Portugal foi de 47 anos nas mulheres e 49,3 nos homens, o que coincide de forma curiosa com a janela típica da perimenopausa, baixar da testosterona e com o ponto mais baixo da felicidade a meio da vida.  

Há uma fase da vida em que todos estes sinais ganham volume, o meio da vida. Nos Estados Unidos, a taxa de divórcio depois dos cinquenta anos duplicou entre 1990 e 2010, segundo investigadores da Universidade Estadual de Bowling Green, há razões sociais para isso, como vivermos mais tempo e as mulheres terem hoje autonomia financeira. Mas esta fase tem também uma química própria, que pesa muito dentro de casa, nas mulheres, a perimenopausa começa muitas vezes nos quarenta e pode durar vários anos, o estrogénio não desce de forma suave, oscila, e com ele oscilam a serotonina, a dopamina e a forma como o cérebro responde à ocitocina, a hormona do apego e o resultado é irritabilidade, ansiedade, menos desejo e muito menos paciência para aquilo que antes se tolerava em silêncio. Com a menopausa, por volta dos cinquenta anos, muitas mulheres descrevem uma clareza nova e deixam de pôr as necessidades dos outros sempre à frente das suas. Nos homens, a testosterona desce mais devagar, cerca de um por cento por ano a partir dos quarenta, e pode trazer cansaço, irritação e menos desejo e para os dois há a crise do meio da vida, que não é um mito, ao analisar dados de 132 países, o economista David Blanchflower encontrou o ponto mais baixo da felicidade no fim dos quarenta anos, precisamente quando os filhos saem de casa, os pais envelhecem e a carreira deixa de prometer surpresas. Uma relação que acabou e um corpo que mudou as regras do jogo. A primeira pede uma saída digna, a segunda pede conversa, acompanhamento médico e, muitas vezes, uma nova forma de alimentar o apego. 

Os cinco sinais químicos do fim 

A química não se vê, mas os seus efeitos estão à vista de quem sabe para onde olhar. 

1. O toque desaparece primeiro 

O primeiro sinal raramente é uma discussão, é uma ausência, menos abraços, beijos mais curtos, conversas lado a lado em vez de frente a frente, olhares que já não se demoram. Cada um destes gestos é uma fonte de ocitocina. Quando desaparecem, o apego deixa de ser alimentado e a ligação começa a viver das reservas. Repare no corpo antes de reparar nas palavras, a distância física quase sempre antecede a distância emocional. 

2. O cortisol passa a morar lá em casa 

O cortisol é a hormona do stress, em doses curtas é útil, mas em doses crónicas, corrói. Em 2005, uma equipa da Universidade Estadual do Ohio levou 42 casais para uma unidade de investigação, provocou pequenas bolhas na pele de cada pessoa e pediu aos casais que discutissem um tema em que não estavam de acordo e os casais mais hostis cicatrizaram mais lentamente em relação aos menos hostis e apresentavam mais marcadores inflamatórios no sangue, a relação estava, literalmente, a impedir o corpo de sarar. 

Quando uma relação entra nesta fase, o cérebro começa a associar a presença do outro a ameaça e não a recompensa, o mesmo rosto que antes libertava dopamina passa a disparar o alarme e os sinais estão à vista, os ombros que ficam tensos quando o outro chega, respostas cada vez mais curtas, um alívio discreto quando a pessoa sai de casa. 

3. A inundação e o muro 

John Gottman, que estudou milhares de casais durante décadas no seu laboratório em Seattle, descreveu um estado a que chamou inundação, acontece quando, numa discussão, o coração passa das cem batidas por minuto e o corpo entra em modo de luta ou fuga, neste estado, a parte racional do cérebro perde o comando e deixamos de ouvir e deixamos de conseguir explicar o que sentimos. 

A resposta típica é o muro, o silêncio, o olhar vazio, a saída da conversa. Nos estudos de Gottman, entre 80% e 85% de quem erguia este muro eram os homens, que em média ficavam mais ativados fisiologicamente e demoravam mais tempo a acalmar. Visto de fora, parece indiferente, mas por dentro, é um sistema nervoso em alarme máximo. Muitas relações acabam porque um dos lados interpreta como desprezo aquilo que é, na verdade, inundação.  

4. O desprezo, o sinal mais perigoso de todos 

Gottman identificou quatro comportamentos que anunciam o fim, a que chamou os quatro cavaleiros: a crítica, a atitude defensiva, o muro e o desprezo. De todos, o desprezo revelou ser o melhor preditor de divórcio. 

O desprezo tem uma assinatura facial clara, e é uma das primeiras microexpressões que ensino a ler, o canto da boca que sobe apenas de um lado. Às vezes dura uma fração de segundo, é o corpo a dizer "estou acima de ti" antes de a boca ter coragem para o admitir. Quando esta expressão começa a aparecer com regularidade numa relação, a química do apego já está a perder a guerra. 

5. A novidade passa a vir de fora 

Quando o sistema de apego já não segura, a dopamina procura outra fonte, um passatempo novo que ocupa todas as noites, o telemóvel que nunca sai da mão, um colega de quem se fala demasiado, um entusiasmo súbito que não inclui a parceira. Nem sempre é traição, muitas vezes é apenas o cérebro a ir buscar recompensa onde ela ainda existe, mas é um sinal claro de que em casa, a fonte secou. 

O dia em que acaba, a Abstinência 

E depois chega o fim, para quem decide sair, é muitas vezes um alívio, porque o processo químico foi sendo feito ao longo de meses, para quem é deixado, é outra história. 

Em 2010, a antropóloga Helen Fisher e a sua equipa colocaram num aparelho de ressonância magnética funcional 15 pessoas que tinham sido rejeitadas recentemente, mas continuavam intensamente apaixonadas. Enquanto olhavam para uma fotografia de quem as tinha deixado, ficavam ativas as mesmas regiões envolvidas no desejo intenso e na dependência, a área tegmental ventral, o núcleo accumbens e o córtex orbitofrontal, peças do sistema de recompensa da dopamina que também responde à cocaína. A conclusão dos investigadores foi direta, a rejeição amorosa funciona como uma forma específica de dependência. 

Fisher deu nome a um fenómeno que todos conhecemos, a atração pela frustração. Quando somos rejeitados, o desejo não desce, sobe, queremos ainda mais aquilo que perdemos e por este motivo as pessoas voltam às fotografias, relemos mensagens antigas, visitamos o perfil da outra pessoa às duas da manhã, não é fraqueza de carácter, é um cérebro em abstinência à procura da dose e é doloroso. Em 2011, o psicólogo Ethan Kross, da Universidade do Michigan, mostrou a 40 pessoas que tinham passado por uma separação indesejada nos seis meses anteriores uma fotografia de quem as tinha deixado. As regiões que se ativaram coincidiam em parte com as que respondiam a um estímulo de calor doloroso aplicado no braço, anos antes, Naomi Eisenberger, na Universidade da Califórnia em Los Angeles, já tinha mostrado que ser excluído de um simples jogo de computador ativa o córtex cingulado anterior, uma das áreas centrais no processamento da dor. O desgosto de amor não é uma metáfora, é dor, processada pelos mesmos circuitos. 

Como sair do jogo com o cérebro intacto 

Se o fim de uma relação funciona como uma abstinência, a recuperação segue as regras de uma desintoxicação e há três de apoio sólido na investigação. 

Corte as doses. Cada fotografia, cada mensagem relida, cada visita ao perfil da outra pessoa é uma pequena dose de dopamina que mantém o circuito vivo. A regra do contacto zero, tantas vezes repetida, não é dramatismo, é neurologia básica, um circuito que deixa de ser estimulado enfraquece. 

Reescreva a história. Em 2018, Sandra Langeslag e a sua equipa, na Universidade do Missouri em St. Louis, compararam várias estratégias em pessoas recentemente separadas. Pensar de forma deliberada nos defeitos e nos aspetos negativos da pessoa que as deixou foi a única que reduziu de facto o sentimento amoroso. O preço foi uma descida de humor imediata. A clareza custa, mas funciona e as expectativas contam mais do que julgamos, num estudo de 2017, a equipa de Kross mostrou que um simples spray nasal sem qualquer substância ativa, apresentado como capaz de aliviar a dor emocional, reduziu de facto a dor sentida ao ver a fotografia de quem as tinha deixado. A história que contamos ao cérebro muda aquilo que ele sente. Mas atenção se fizer durante a relação o reforço constante dos defeitos e dos aspetos negativos da pessoa para chamar atenção vai ter reduzir o sentimento amoroso.  

Trate o corpo, sono, exercício, luz natural, abraços de amigos e de família, não são conselhos de revista, são formas de devolver ao cérebro, por outras vias, a química que ele deixou de receber da pessoa que perdeu. 

Há quem leia e conclua que o amor é só químico e que, por isso, não vale a pena, é a conclusão errada!  Saber que a paixão é dopamina, não a torna menos bonita, tal como saber que o pôr do sol é física, não o torna menos impressionante. As relações não acabam no dia em que acabam, acabam no dia em que deixamos de as decifrar.  

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