À extrema-direita não pode ser permitido que finja ser (a única) defensora da ordem pública e das forças de segurança. Afinal, a ordem pública e as forças de segurança também se defendem com a coesão social e os direitos humanos.
Há 10 anos, nos Estados Unidos, as mortes de Michael Brown e Eric Garner às mãos da polícia deram origem ao movimento Black Lives Matter. 3 anos antes, havia sido em Inglaterra com Mark Duggan. O ano passado, foi em França com o jovem Nahel. Esta passada semana chegou a vez de Portugal assistir, à nossa escala, à revolta de comunidades racializadas, na sequência da morte de Odair Moniz.
Os contornos do caso são, no mínimo, bizarros - a suspeita de um carro roubado que afinal era seu, a alegada ameaça com arma branca que afinal não existia, a falta de auxílio ao cidadão baleado e até o arrombamento da casa dos seus familiares, tão desmentido pela polícia quanto documentado pela imprensa e pelos cidadãos. Se não bastasse a morte, os sucessivos erros de comunicação serviram para alimentar a fúria que assolou os bairros da região de Lisboa nos últimos dias.
André Ventura, por sua vez, não aprende. Depois de condenado por chamar à família Coxi de bandidos, foi nestes mesmos termos que a extrema-direita reagiu à morte de Odair, exacerbando a divisão e incitando à violência, o que já motivou milhares a apoiar a apresentação de queixa-crime.
Nada justifica a violência dos tumultos, que importa condenar. Temos de reconhecer não só o terror que geraram como também os danos corporais e materiais que causaram em várias vítimas. À extrema-direita não pode ser permitido que finja ser (a única) defensora da ordem pública e das forças de segurança. Afinal, a ordem pública e as forças de segurança também se defendem com a coesão social e os direitos humanos.
Há mais de 100 anos que o movimento negro luta por igualdade e direitos no nosso país. Infelizmente, essa luta continua mais atual que nunca. Casos como o de Odair não são novidade. Em 2021, oito agentes foram condenados por sequestro e agressão justamente na esquadra da Cova da Moura. Os seus processos disciplinares foram, no entanto, arquivados. Também na Amadora, se conhece o caso de Cláudia Simões, brutalmente imobilizada por não apresentar o passe gratuito da filha. Mas o fenómeno não se circunscreve só à Grande Lisboa, com acusações de tortura em Quarteira, sequestro e agressão em Odemira ou ainda investigação sobre uso excessivo de força em Abrantes.
Isto são mais do que casos isolados. Em 2022, o consórcio de jornalistas de investigação revelou mais de três mil publicações nas redes sociais de quase 600 membros das forças de segurança com mensagens de ódio. Até hoje, a investigação criminal prossegue sem arguidos. A Comissão para a Igualdade e contra a Discriminação Racial, cujos novos órgãos eleitos há 4 meses continuam sem tomar posse, registou em 5 anos 2238 queixas, dando lugar a 282 processos de contraordenação. Grande parte destas queixas, porém, não são da sua competência e, remetidas a outros serviços públicos, pouco se sabe sobre o seu desfecho. No caso das forças de segurança, o projeto Combat da Universidade de Coimbra relata como, entre 2006 e 2016, foram apenas instaurados 48 processos, dos quais 75% acabaram arquivados (15% por prescrição) e apenas 1 resultou numa condenação, entretanto anulada em Tribunal.
A inconsequência é o grande mistério de tudo isto. Não é por acaso que o Comité Anti-Tortura do Conselho da Europa conclui que Portugal tem um "problema de maus-tratos persistente" na PSP e GNR, sobretudo dirigida a estrangeiros e afrodescendentes. As suas recomendações para melhorar a capacidade da IGAI investigar continuam por implementar. Eu próprio levei este tema ao Parlamento em 2022. O país depositava então esperança nos polícias passarem a ter "bodycams", para se poder conhecer o que aconteceu em cada incidente. 2 anos depois, nem as vemos. Já os programas que promovem a integração social, como o policiamento comunitário, o programa Escolhas ou o programa Bairros Saudáveis, entretanto descontinuado, continuam gravemente subfinanciados.
Está na hora de agirmos a sério sobre este problema, antes que ele volte a matar e a rebentar com a paz nas nossas cidades. Afinal, podemos ter uma certeza. Deixar tudo na mesma não será apenas um convite para a história repetir-se. Será, também, combustível para a extrema-direita continuar a incendiar a sociedade e alimentar o racismo. É caso para dizer: chega!
Ao fracasso da extrema-esquerda militar juntou-se a derrota de muita direita que queria ilegalizar o PCP. Afinal, nessa altura, os extremismos à esquerda e à direita não eram iguais. Ainda hoje não são, por muito que alguns o proclamem.
Há momentos que quebram um governo. Por vezes logo. Noutras, há um clique que não permite as coisas voltarem a ser como dantes. Por vezes são casos. Noutras, são políticas. O pacote laboral poderá ser justamente esse momento para a AD.
Não há nada inevitável na vida política. Na forma e no conteúdo, os erros que conduziram à queda de popularidade do PS eram há muito previsíveis e, em grande parte, evitáveis.
Álvaro Almeida, diretor executivo do SNS, terá dito, numa reunião com administradores hospitalares, que mesmo atrasando consultas e cirurgias, a ordem era para cortar.
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Numa altura em que o mundo está cada vez mais competitivo, com produtos e serviços semelhantes, as características destes mesmos produtos ou serviços deixam de ter uma maior relevância na escolha do cliente. O que mais influencia a decisão do cliente é a pessoa que o vende.