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Numa campanha eleitoral cheia de mentiras, a desinformação fez parelha com a desatenção.
Churchill disse que a mentira dá a volta ao mundo antes que a verdade consiga calçar as botas. Na verdade, não disse nada. Churchill (como, entre nós, Fernando Pessoa) carrega aos ombros grossos tomos de frases que nunca disse, mas lhe atribuem. Até no mais conhecido aforismo sobre a verdade e a mentira há aldrabice. Comigo foi ao almoço, num dos restaurantes de Oeiras que está na rota promocional do gastrónomo Isaltino Morais: um amigo, sabendo-me apoiante assumido de António José Seguro, provocou-me com o último escândalo do candidato, que não declarou as suas empresas à Entidade para a Transparência. Já tinha visto a mesma alegação nas redes sociais, mas não lhe dei muita importância porque não tinha de almoçar com ela.
Entre amigos que se respeitam e confiam um do outro, demorou menos de cinco minutos a desarmadilhar a história. António José Seguro declarou, sim, as suas empresas no registo de transparência a que está obrigado como candidato. O que não era escrutinável, como a SÁBADO apontou, era o património de cada uma dessas empresas. Por uma razão simples: o formulário usado pela Entidade para a Transparência tem um campo para que os políticos declarem as empresas que possuam, mas não tem um campo que obrigue (ou sequer permita) especificar o património dessas empresas. Seguro fez essas revelações adicionais de moto próprio, no site da sua candidatura. Era este o “escândalo”: não dava para declarar num lado, declarou no outro.
A tração que esta última historieta gerou nos meios anti Chega, de resto, ilustra não só a “viralidade” da desinformação, como a superficialidade das mensagens que a acompanham. “Meu candidato bom. Teu candidato mau”. A mentira é descartável: usa-se no imediato, para animar as nossas tropas, e segue caminho sem olhar para trás. Acabamos a inventar tretas para discutir tretas, é este o nível. É justo notar que o campo de Ventura tem sido muito mais ativo e empenhado na promoção de mentiras e fabricações (o que, aliás, nem começou nesta eleição presidencial), pelo que se justifica a crítica de Seguro, em entrevista ao NOW.
A desinformação corrói o tecido público, muito para lá do seu impacto eleitoral imediato, porque perdemos a verdade dos factos como património comum. Há uma componente nisto que é de adesão voluntária: cai quem quer. O comediante norte-americano Stephen Colbert cunhou um termo para o fenómeno, já lá vão mais de 20 anos – “truthiness”, que proponho traduzir como “verdadice”: a crença num facto que sabemos ser falso, porque o “sentimos” como verdadeiro. A Maçonaria não apoia Seguro, mas estes esquerdalhos estão todos mancomunados. A bombeira não desprezou Ventura, mas bombeiros são gente boa e por isso só pode odiá-lo. Não é verdade, é “verdadice”.
Neste ambiente, o cidadão médio, honesto e sem tribo, está sujeito a uma barragem constante de ruído. Os registos de transparência de António José Seguro explicam-se facilmente ao almoço, mas é preciso estar informado com algum detalhe. Separar o trigo do joio custa hoje mais tempo e dá mais trabalho. Somos vulneráveis à mistela de desinformação e desatenção, que facilmente nos leva a conclusões erradas com base em dados falsos ou incompletos. O resultado é que cada um de nós tem tendência a só estar informado sobre os assuntos que domina, ou que já segue com interesse. Em tudo o resto, para não nos deixarmos levar precisamos de um grau de cautelas e ceticismo tão grande que se torna extenuante. Mesmo para quem queira estar honestamente informado, a “verdadice” instintiva torna-se um atalho atraente.
Mas vale a pena fazer o esforço. Nestes dias (literalmente) tempestuosos, se há coisa que percebemos é que quem trabalha para narrativas convenientes e propaganda pessoal tem pouco a oferecer às pessoas concretas quando precisamos de liderança, capacidade e frieza. Se queremos mesmo que as nossas vidas melhorem, temos de nos dar ao trabalho de calçar as botas à verdade.
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