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Enviada de segunda a domingo às 10h30
Por pouco que pareça, as nossas opções não são só manter tudo ou partir tudo.
A eleição presidencial tem sido discutida ao sabor dos
solavancos das sondagens. É uma pena, desde logo porque, por muito que as
notícias se animem com a contabilidade de quem passou de terceiro para
primeiro, a verdade é que o único ponto consistente nas pesquisas de opinião é
o empate técnico entre os principais candidatos. Ora, por definição, ninguém
está à frente num empate. Por isso mesmo, faríamos melhor em promover uma avaliação
mais substancial das candidaturas. O nosso arranjo constitucional e a experiência
vivida mostram-nos que a Presidência é definida, em grande parte, pelo
Presidente – pelo seu carácter, pelas suas prioridades, pela sua visão do
cargo. Essa discussão tem mais valor.
Em vez disso, a cobertura mediática e o debate público têm
tratado as presidenciais como mais uma volta das legislativas. Em parte
percebe-se: a maioria dos candidatos – Ventura, Cotrim Figueiredo, Catarina
Martins, António Filipe e Jorge Pinto – são candidatos partidários escolhidos
pelo partido para fazerem a prova de vida do partido. Marques Mendes não
esperou pela chancela do PSD, mas também não precisou: o alinhamento, natural,
estava preparado há muito. As candidaturas partidárias são pouco úteis em eleições
presidenciais, e nunca animaram os eleitores, mas são particularmente
deslocadas este ano, em que Ventura (o sistemático candidato antissistema) e
Gouveia e Melo (o candidato extrassistema do sistema) parecem sugerir que a
verdadeira escolha não é entre partidos ou blocos políticos, mas entre manter
tudo resignadamente na mesma ou deitar tudo com estrondo para o lixo.
Nesta equação, Marques Mendes seria o candidato da velha
política (incluindo a velha política de negócios que lhe vem desgastando a
campanha), André Ventura o eterno carrasco da III República e Gouveia e Melo a
folha em branco, que só é apelativa por não conhecermos o que pensa e o que
quer – e quanto mais conhecemos, dele e da claque de chicos-espertos que o
promoveu e apoia, menos apelativo ele se torna. É uma falsa polarização, que
não concebe inteligência, vontade reformista e capacidade de mobilização. Como
se o país e a democracia fossem para pegar ou largar, sem esperança de que o
nosso futuro, como qualquer desígnio coletivo, não possa ser melhorado,
reformado, de modo continuado, progressivo, progressista e (desculpem o
trocadilho) Seguro.
Um país não é tudo ou nada. Portugal vive numa tensão
crescente entre o repúdio do status quo e o medo da mudança. Não
gostamos do que há, mas temos medo do que venha. Esta tensão quase geológica
traduz-se num imobilismo que fica cada vez mais sufocante, até que explode num
terramoto de convulsão que muda tudo num segundo, de forma súbita e
desordenada. É uma marca identitária: foi assim com a Revolução liberal, fez
agora 205 anos. Foi assim com a implantação da República, em 1910, e com a sua
derrocada, fará este ano 100 anos. E foi assim com o 25 de Abril, que fez cair
um regime podre que se mantinha já sem ninguém que o defendesse. Em Portugal,
os poderes instalados, da política de negócios, da pequena traficância, do
favor e do caciquismo, cairiam com um sopro. O nosso problema histórico tem
sido arranjar pulmões.
António José Seguro é um pulmão. Político experiente, passou
pelo Governo, pela Assembleia da República e pelo Parlamento Europeu. Foi líder
do seu partido a seguir à catástrofe Sócrates e até 2014, quando António Costa
lhe puxou o tapete, com o apoio maioritário de um PS que teimava não só em
proteger, mas em celebrar o seu cadastrado que atirou o país para a Troika.
Esse PS, já agora, continua a existir, se não for mesmo maioritário, como se
constata na frieza que capatazes socratistas como Augusto Santos Silva reservam
a António José Seguro – de resto, o melhor atestado de idoneidade que o
candidato podia pedir.
António José Seguro conhece as instituições, os seus poderes
e equilíbrios. Conhece os golpes sujos e tem as cicatrizes para prová-lo. E,
mais importante do que tudo, fez a sua carreira política sem trocar princípios
por fins. Quando era preciso destoar, destoou. Quando outros obedeceram, a
pensar no seu futuro, Seguro divergiu, a pensar no seu país. Fê-lo em 2009,
quando no Parlamento foi o único voto contra uma alteração à lei de
financiamento político que abria (e abriu) novos alçapões à entrada de dinheiro
escuro nos partidos, e que todos os partidos celebraram. Em 230 deputados, um
só não se calou. Foi António José Seguro.
Não andou a fazer carreira, andou a fazer justiça. A sua
passagem pela liderança do PS, no duríssimo período da Troika, foi a única
ocasião em que um dos grandes partidos portugueses tomou a sério a agenda
anticorrupção e promoveu alguma discussão pública e pensamento sobre as
reformas de que o país precisava – e continua a precisar. Seguro pôs a política
ao serviço do país. Quando, em vez de fazer a autocrítica ao poder de Sócrates
e ao que precisava de mudar, o PS escolheu o atalho cúmplice de Costa (que deu
no que deu) e engavetou a reforma que tinha iniciado, Seguro foi viver a sua
vida, sem pedir nem aceitar cargos de nomeação, prateleiras douradas ou uma
carreira de facilitador. Não ficou a conspirar, foi trabalhar. Manteve uma
independência de carácter e uma clareza de propósitos que nos farão muita falta
na Presidência. António José Seguro é um homem sério, que está nisto a sério.
Poder dizer isso de alguém com o currículo e a experiência política dele, em
Portugal, não é um elogio. É quase um milagre.
Legitimada a sua culpa, estará Sócrates tranquilo para, se for preciso, fugir do país e instalar-se num Emirado (onde poderá ser vizinho de Isabel dos Santos, outra injustiçada foragida) ou no Brasil, onde o amigo Lula é sensível a teses de cabalas judiciais.
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