Violência no desporto
Carla Oliveira
29 de abril

Violência no desporto

Nada, mas mesmo nada, justifica um comportamento violento desta ou doutra natureza. O futebol, à semelhança de todos os demais desportos, tem valores que devem ser respeitados e tem regras.

A expulsão do relvado do treinador de um clube desportivo, no final de um jogo de futebol, por dirigir insultos ao árbitro da partida. A necessidade da intervenção de seguranças e elementos policiais, no próprio relvado, para assegurar a protecção do árbitro, impedindo que elementos de um clube de futebol, ou do seu staff, se aproximem dele. A alegada agressão e/ou impedimento de filmagens a um jornalista de uma estação televisiva que se encontrava num estádio de futebol, no exercício da sua profissão, por pessoa ligado ao mundo do desporto. 

É irrelevante a qual Clube de Futebol as situações descritas – conhecidas – respeitam. Tratam-se todos eles, e independentemente da sua proveniência, hoje de um Clube, ontem ou amanhã de qualquer outro, de actos lamentáveis, de extrema gravidade, que constituem ilícito criminal e que muito envergonham o desporto em geral e, sobretudo, o futebol português. São actos demonstrativos de uma total falta de cultura desportiva.

No inicio desta semana foi possível presenciar, num único jogo de futebol, a ocorrência de todos os mencionados actos. Num único momento foram ignorados os valores essenciais do desporto, a ética no meio desportivo, em suma, o fair play.   

Mas, infelizmente, a situação não foi única nem constitui uma excepção no futebol português. Situações como as descritas ocorrem de forma demasiado frequente no futebol e a todos os níveis.

Desde 2016 e até ao presente são conhecidos (registados) mais de 150 casos de agressões a árbitros. A maioria destas situações verificou-se no decurso de jogos promovidos por associações distritais/regionais e com jogadores jovens. Os insultos e agressões são praticados, frequentemente, por pais dos próprios jogadores, muitos deles crianças de 7/8 ou jovens de 13/14 anos de idade.

Estas crianças e jovens que praticam desporto também com vista a adquirir e cimentar valores e princípios essenciais à sua formação e integração social, tais como os de cooperação, de espirito de equipa, de responsabilidade, de disciplina, de tolerância, de respeito, entre outros, assistem a actos, praticados pelos próprios pais, que constituem exactamente o oposto de tudo aquilo em que é suposto acreditarem e defenderem. Não é difícil perceber os sentimentos destes miúdos, certamente de desorientação e de vergonha, decorrentes dos exemplos que lhes são dados nestas ocasiões. 

Nestes casos, à semelhança do que ocorre no futebol profissional, ao mais alto nível, estão implementadas e prevalecem a sensação de impunidade, de irresponsabilidade e de autojustificação.

Os actos são sempre justificados com a conduta de outrem, sobretudo da equipa de arbitragem – que não foi justa – o que impede o próprio de controlar o seu comportamento, agindo sob o impulso da injustiça de que foi vítima o seu clube e sempre por causa da sua paixão por aquele e pelo futebol.  Esta é não só a perspectiva do agressor como também é aceite e entendida por parte significativa da sociedade. E esta compreensão externa perpetua este tipo de comportamentos.     

Mas não é e não pode ser assim.

Nada, mas mesmo nada, justifica um comportamento violento desta ou doutra natureza. O futebol, à semelhança de todos os demais desportos, tem valores que devem ser respeitados e tem regras. E estas devem ser escrupulosamente cumpridas, independentemente das decisões tomadas ou dos resultados nos agradarem ou não. Essas questões, a existirem, deverão ser abordadas, discutidas e decididas pelo meio adequado e no lugar próprio, os quais não serão certamente por meio de agressões ou insultos nem no relvado do estádio.

Importa alterar a mentalidade e a cultura, cada vez mais instituída, de que a paixão pelo futebol justifica tudo. Não é assim. As paixões podem e devem ser vividas de forma intensa mas pacífica, sem violência e, sobretudo, sem vítimas.

O caminho para lá chegar só pode ser a intolerância para a violência em contexto desportivo. Uma intolerância séria e consistente que vá além das meras "palavras adequadas e de circunstância" nos momentos negros e que mostre, na prática, que estes comportamentos desajustados não passam em branco e que não têm espaço no mundo do desporto. Venham eles de onde vierem. 

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