"Não consigo viver neste país se tiver medo de ir trabalhar"

'Não consigo viver neste país se tiver medo de ir trabalhar'
Alexandre R. Malhado 27 de junho de 2016

A vida de um estrangeiro no Reino Unido não está fácil. Polacos são chamados de "vermes", portugueses são cuspidos e agredidos no metro e, apesar de tudo, não há quem ofereça apoio a emigrantes em apuros. A SÁBADO falou com uma emigrante portuguesa e com um apoiante do Brexit para tentar compreender este fenómeno de ódio

"É raro o dia em que não me perguntam quando é que me vou embora e se penso voltar ao meu país", desabafa Cláudia, portuguesa de 43 anos que reside em Inglaterra desde 2014. Após o resultado do referendo que favoreceu o Brexit, Cláudia sente que "Inglaterra é um país perigoso para estrangeiros" e "não sabe para onde ir". 

"Inglaterra reconheceu o meu mérito, porque precisa de gente para trabalhar e reconhecem as nossas qualificações, mas não consigo viver neste país se todos os dias tiver medo de ir trabalhar com medo de ataques. Não sei como é que amanhã saio de casa para o trabalho, tenho medo. É assustadora a reacção das pessoas", elaborou a Cláudia, sendo uma das muitas estrangeiras a viver num limbo que já valeram agressões, cuspidelas e campanhas de ódio contra portugueses. "Go away, go away foreigners", é uma das frases que grupos do UKIP e Britain First têm proferido no metro de Londres, por exemplo. Como é que será a partir de agora?  


Mas a história remonta a 2014, período das eleições europeias e dos primeiros sinais de popularidade do partido responsável pelo referendo, o UKIP de Nigel Farage. Desde que chegou a solo britânico, logo recebida com os outdoors e autocolantes do UKIP onde se lia "Out with EU immigration", Cláudia tem vivido na pele "a normalização do racismo", no local de trabalho e no dia-a-dia. 
Durante seis meses, Cláudia trabalhou sob a tutela de um supervisor simpatizante do UKIP: "Dizia-me com frequência que era nacionalista e que tinha que defender as fronteiras de pessoas como eu, dizendo que viemos para cá viver de subsídios. Eu não tenho direito a subsídios", explicou. 

Na verdade, o sistema de benefícios do Reino Unido para Espaço Económico Europeu (EEA) tem vindo a tornar-se cada vez mais complexo e restrito desde 2014 - e Cláudia foi vítima dessa burocracia que agora, após esta iminente saída do Reino Unido da União Europeia, pode colocar emigrantes europeus em maus lençóis. Para um cidadão do EEA ter acesso a determinados benefícios, como o subsídio inicial de pessoa à procura de emprego ou abonos de família, deve provar que tem, tal como se lê nos documentos oficiais do Governo britânico, "chances genuínas" de ser contratado". Aqueles que chegam ao Reino Unido com emprego ficam elegíveis para receberem subsídios de habitação ou créditos fiscais, mas o cidadão deve provar que o seu trabalho é considerado "genuíno e eficaz".

Oficialmente, segundo dados dos consulados de Londres e Manchester, há cerca de 500 mil portugueses a viver no Reino Unido, mas apenas 234 mil portugueses estão inscritos na Segurança Social britânica. Segundo uma reportagem do Jornal de Notícias, os consulados recomendam "calma e peçam o cartão de residente permanente no Reino Unido". Que a maioria não tem e que é, efectivamente, também burocrático e demorado. 

Para continuar a ler
Já tem conta? Faça login
Opinião Ver mais