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Discreta e filha de um comerciante rico: quem era Mansoureh, a mulher do líder supremo do Irão

Casaram em 1965, mas durante mais de 50 anos Mansoureh raramente apareceu em público. Em casa, ajudava o marido a esconder provas da sua atividade revolucionária (debaixo do tapete, por exemplo) e preparava comida para lhe entregar na prisão

Mansoureh Khojasteh Bagherzadeh foi a mulher de uma vida do líder Supremo do Irão, o aiatola Ali Khamenei. , aos 79 anos, na sequência do ataque lançado pelos Estados Unidos e Israel ao Irão. Apesar de ter sido casada durante mais de 50 anos com o homem mais poderoso do Irão, pouco se sabe sobre a sua vida. Na linha do que defendia Ali Khamenei, a sua esposa era uma mulher recatada e que raramente aparecia em público, mas uma biografia de Khamenei publicada em 2019 levanta um pouco o véu sobre quem foi Mansoureh .

Khamenei e Mansoureh
Khamenei e Mansoureh Sábado

Sabe-se que é filha de Mohammad Esmaeil Khojasteh Bagherzadeh, um comerciante abastado de Meshed, no Irão. O seu irmão, Hassan, foi diretor da estação pública de televisão iraniana, a IRIB. Mansoureh e Ali Khamenei conheceram-se num evento privado em 1964, tendo o noivado seguido os pressupostos tradicionais do Irão: foi a mãe de Khamenei que pediu a mão de Mansoureh em casamento à família desta. O pedido foi aceite e em 1965 Mansoureh e Ali contraíram matrimónio.

E a partir daí, como defendia o imã, a mulher dedicou-se a tratar da vida privada enquanto ele se dedicava à vida pública. Durante mais de 40 anos de vida pública são raras as imagens de Mansoureh, mesmo depois de, em 1989, Ali Khamenei se ter tornado o líder supremo do Irão.

Uma revolucionária dentro de quatro paredes

Num artigo de setembro de 2020 no website "", dedicado à vida do líder supremo, contam-se "sete capítulos da vida revolucionária da mulher do imã". No texto propagandista começa por ler-se: "Ao descrever as atividades revolucionárias do imã Khamenei contra o regime opressivo do Xá, o papel da sua venerável esposa não recebeu a atenção devida".

O texto foi escrito com base no livro En Ma’a al-Sabr Fathan ("A Paciência leva à Vitória" em árabe). Numa tradução em persa, foi adaptado o título "A Gota de Sangue que se Transformou num Rubi". Na altura por, nele, Khamenei ter revelado que durante a adolescência leu vários livros que seriam proibidos depois da revolução iraniana de 1979, incluindo romances de Alexandre Dumas.

O primeiro capítulo desta história reconta os primeiros dias de casados de Khamenei e Mansoureh. "O casamento de um homem pobre do clero e de uma mulher rica que ultrapassou várias agruras de braços abertos ajudou a fortalecer o homem da família no caminho que ele acreditava e pelo qual lutou", pode ler-se, sendo ainda relatadas várias reuniões na casa do casal com figuras perseguidas e grupos secretos. É depois citada Khojasteh: "Foi difícil e Deus testou-me. Tinha-me preparado para todos os problemas possíveis e nunca abri a minha boca para me queixar. Acredito que o meu papel principal era manter um ambiente calmo em casa para que ele pudesse continuar a sua missão enquanto eu acalmava a sua mente a propósito da família".

E, de acordo com o reconto no khamenei.ir, esses tempos iniciais de vida conjugal foram de pobreza. O aiatola recorda um dia em que a mulher o terá informado sobre a falta de comida em casa. "Quando estava a voltar das aulas apercebi-me que só tinha quatro riais no bolso. Comecei a rir involuntariamente. (...) Eu de facto não tinha nada e não podia pedir emprestado a um banco porque não tinha um único rial em poupanças", escreveu na biografia.

O casal tinha ainda de lidar com a dissidência de Khamenei que, na clandestinidade, planeava o derrube do regime do xá. "Eu estava preparada para todos os desafios que podiam afligir o meu marido devido às suas atividades revolucionárias", contou Mansoureh.

Entre os episódios relatados está a decisão de Khamenei de se isolar. Terá sido num dia em que as autoridades estavam no seu encalço e até terão ido a casa dos seus pais perguntar pelo seu paradeiro. "Ela ajudou-o a preparar-se, arranjou a sua roupa, cortou-lhe as unhas e aparou bigode e barba - tudo o que era necessário fazer antes de ir para a prisão", lê-se. Mas os agentes não chegaram e durante a noite, Khamenei decidiu que era melhor exilar-se. Contou o plano à mulher que o terá recebido com grande alegria.

Mais tarde, já Khamenei estava detido, reconta que cumpria o primeiro dia de Ramadão e que quando chegou a altura de comer se sentiu decepcionado já que a comida da prisão era de fraca qualidade. Sonhou com as refeições que a sua mulher lhe preparava em casa naquele mês especial para os muçulmanos. "No segundo dia [do Ramadão], o guarda informou-me que algo tinha sido enviado para mim. Quando abri a embalagem encontrei todas as minhas comidas favoritas. E em quantidade suficiente para alimentar várias pessoas. A minha mulher tinha-as cozinhado e conseguido que fossem entregues na prisão. Nesse mesmo dia enviaram-me coisas para fazer chá. Por isso, pude quebrar o jejum com uma refeição maravilhosa e enviar aos restantes prisioneiros. Isto repetiu-se todos os dias", lembrava o aiatola numa das biografias.

Outro episódio destacado no site está relacionado com uma busca em casa do casal. Decorria o ano de 1977 quando as autoridades entraram na casa de Khamenei para cumprir buscas. O homem do clero abriu as portas às autoridades e convidou os agentes a entrar e vasculharem a casa. "Era claro para mim que não iam deixar nenhum canto por verificar", lê-se. Algures durante as buscas, Khojasteh conseguiu entrar, sem que ninguém notasse, na biblioteca e "recolher todos os escritos, incluindo anúncios, papéis secretos e todo o tipo de papéis que podiam ser usados para acusar o marido de atividades contra o regime - e espalhá-los debaixo do tapete".

O casal teve seis filhos, quatro filhos e duas filhas. O ataque que vitimou Khamenei e esposa terá também resultado na morte de uma das filhas do casal, do genro e de uma neta.

Mansoureh morreu dois dias depois do marido. Segundo a imprensa iraniana, ficou ferida na sequência dos ataques israelitas e norte-americanos e esteve em coma durante dois dias, acabando por sucumbir aos ferimentos. Segundo a IRBI, Mansoureh tornou-se um "mártir".

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