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Reza Pahlavi é a cara da oposição iraniana. País vai voltar a ter um xá?

Débora Calheiros Lourenço 26 de fevereiro de 2026 às 07:00

O filho mais velho do último xá do Irão vive há mais de 50 anos dos Estados Unidos e já elogiou várias vezes Donald Trump.

O nome de Reza Pahlavi tem aparecido, entre os iranianos, como a personificação de um novo regime, longe da influência do Aiatolá Ali Khamenei.  
Reza Pahlavi pede aos manifestantes para tomarem cidades no Irão AP
Reza Pahlavi nasceu em Teerão a 31 de outubro de 1960 e mudou-se para a Base Aérea de Reese, nos Estados Unidos, em 1978, para receber treino enquanto piloto. Apenas um ano depois o seu pai foi deposto e a monarquia abolida pelo que já não regressou a casa. Depois da morte de Mohammad Pahlavi, exilado no Egito, o seu filho mais velho declarou-se xá do Irão e passou a participar ativamente na oposição contra a República Islâmica a partir do exterior.  O príncipe herdeiro, de 65 anos, chegou a pedir aos líderes ocidentais que destituíssem os clérigos islamistas que derrubaram o seu pai, mas até este ano nunca se tinha conseguido afirmar como a cara da oposição iraniana, algo que parece ter mudado. Este mês, 250 mil pessoas reuniram-se em Munique, na Alemanha, para demonstrar o seu apoio ao filho do último xá.  Nos últimos tempos os seus apoiantes têm dominado a narrativa, tanto nas redes sociais como nas manifestações, adotando por vezes táticas agressivas que conseguiram fazer com que a sua popularidade aumentasse exponencialmente. Estes apoiantes fervorosos encontram-se sobretudo na diáspora, apesar de vídeos das recentes manifestações no Irão mostrarem uma multidão a entoar o nome de Reza Pahlavi. Em janeiro, Amir Etemadi, um dos principais braços-direito de Pahlavi, ameaçou: “Esta mensagem é dirigida àqueles que escolheram fazer parte da máquina de censura e distorção contra a voz da nação: os vossos nomes estão registados”.  A realidade é que o regime dos aiatolas está habituado a viver tensões, mas os bombardeamentos dos Estados Unidos às instalações nucleares iranianas, a guerra com Israel ou as mais recentes manifestações contra o aumento do custo de vida, têm sido benéficas para Pahlavi, que vê cada vez mais próxima a possibilidade de regressar à sua terra natal e moldar o Irão. Pahlavi tem defendido um Irão democrático, sem deixar claro qual seria o seu papel nessa nova conjuntura.  Tem demonstrado ter uma visão próxima do atual presidente dos Estados Unidos, apoiando a “pressão máxima” da primeira administração de Donald Trump ao Irão. E um dos pontos mais críticos para vários iranianos é mesmo a proximidade com o governo israelita, tendo chegado a visitar Israel já depois do início da ofensiva militar em Gaza. Existem relatos de uma campanha online ligada aos israelitas para o promover.  

“Projeto de Prosperidade do Irão: uma forma realística de libertar o Irão”

Os aliados de Pahlavi são autores do , um plano ambicioso para um país pós-islamista. Para uma fase inicial está já traçado um manual da fase de emergência, que se iniciará logo após a queda do regime, e durante a qual consideram que é essencial manter a estabilidade. O líder de transição - muito provavelmente o próprio Pahlavi - concentrará em si um poder significativo. Este documento foi editado por Saeed Ghasseminejad, próximo de Pahlavi e consultor sénior da Fundação para a Defesa das Democracias.  Este projeto prevê também, num momento mais avançado, que os iranianos possam decidir se querem ser governados por uma “monarquia democrática” ou uma “república democrática”, apesar de o príncipe herdeiro defender que o país deve ter uma democracia secular.  Ainda assim, o site do projeto garante que se trata de uma “campanha apartidária”, que pretende “reunir especialistas para desenvolver planos abrangentes e academicamente revistos por pares para o futuro do Irão”. 

Existem outras opções?

Alguns analistas internacionais argumentaram que a crescente popularidade de Pahlavi pode estar sobretudo ligada ao desespero dos iranianos para derrubarem o regime.   Os atuais protestos, que são os maiores desde a Revolução Islâmica de 1979, não foram organizados por nenhum grupo nem têm uma liderança reconhecível.   Acredita-se que o MKO seja um dos maiores grupos da oposição no exílio. Os Mujahidin do Povo do Irão têm posses monetárias e influência externa, no entanto não têm grande popularidade dentro do país, especialmente porque existem evidências de que o grupo lutou ao lado dos iraquianos durante a guerra que opôs o Irão ao Iraque entre 1980 e 1988. O seu líder, Masoud Rajavi, não é visto em público há vários anos, mas os seus apoiantes consideram que a sua esposa, Mariam Rajavi, como presidente do Irão no exílio.   Existe ainda um grupo, pouco organizado, que junta antigos funcionários do regime, clérigos críticos e políticos reformistas que defendem que o regime seja mudado a partir do interior e com alterações graduais. No entanto, o alcance deste grupo é muito limitado.  Com o tempo este grupo foi-se fragmentado entre os que defendem e que acreditam que o país deve mudar completamente e os que acreditam em pequenas reformas. Entre os que pedem uma mudança total com um Estado laico e democrático encontra-se o ex-primeiro-ministro Mir-Hossein Mousavi, o ex-candidato parlamentar Mahdi Karroubi e Mostafa Tajzadeh, vice-ministro do Interior durante a presidência de Mohamed Khatami, de 1997 a 2005. Este último tem-se destacado pelas duras críticas dirigidas ao aiatola.  

Memórias do Xá

A última pessoa a liderar um golpe de Estado no Irão foi o aiatóla Ruhollah, clérigo responsável por depor o pai de Pahlavi. Na altura o aiatola aliou-se a diversos grupos, desde secularistas a comunistas, para conseguir afastar a dinastia Pahlavi do poder.   Além de poderem estar traumatizados com golpes de estado, os iranianos sabem também que nem todas as promessas feitas antes de uma mudança de regime são cumpridas. Ruhollah tinha prometido que iria afastar-se da vida pública para estudar o Islão e não assumiria a liderança do país, algo que não se verificou. O Irão passou a ser uma teocracia, um sistema onde a religião e a política estão intrinsecamente ligadas.   A realidade é que Mohammad Reza Pahlavi liderava um regime autocrático e ficou conhecido pelas medidas para “ocidentalizar” o Irão que originaram uma modernização rápida e levaram ao empoderamento das mulheres. No entanto, parte da população considerava que essas reformas não respeitavam os valores islâmicos tradicionais e faziam com que o país se fosse bastante dependente dos Estados Unidos. O xá era visto como um fantoche dos norte-americanos, especialmente depois do golpe de Estado de 1953, apoiado pela CIA, que devolveu o poder à família Pahlavi.   As desigualdades económicas, a corrupção e a repressão levadas a cabo pela polícia secreta SAVAK alimentavam o descontentamento de vários grupos sociais.   Apesar de nunca ter governado o país, Reza Pahlavi não deixa de fazer parte da família Pahlavi que, tal como os aiatolas, governou o Irão de forma autocrática.  
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