Ilha Kharg: o coração petrolífero do Irão que esteve sob influência portuguesa no século XVI
Portugueses construiram uma fortaleza em Kharg, numa época em que a ilha era importante pelo intercâmbio de alimentos, e hoje alberga um mosteiro. Chegou também a ter uma prisão, até se dedicar à exportação de petróleo, e na década de 1980 foi alvo de ataques iraquianos. Hoje, a história repete-se.
Os Estados Unidos lançaram um ataque contra alvos militares na ilha de Kharg - o coração petrolífero do Irão, responsável pela exportação de 90% do petróleo do país - e que é conhecida como "Ilha Proibida" devido ao forte controlo militar. O episódio acabou por não causar danos na central petrolífera, mas caso isso acontecesse "paralisaria a economia do Irão e derrubaria o regime", esclareceu o líder da oposição israelita, Yair Lapid.
Com 24 quilómetros quadrados de área (o equivalente a metade da ilha de Porto Santo) é aqui que chega o petróleo bruto vindo de importantes campos petrolíferos do Irão como Aboborar, Forouzan e Dorood, transportado por meio de uma complexa rede de tubos e cabos submarinos. Já na ilha, o petróleo é processado para exportação e concentrado em tanques, sendo depois enviado através do Estreito de Ormuz para países como a China.
Estima-se que por esse terminal circulem cerca de 1,2 milhões de barris de petróleo por dia, apesar de o local ter capacidade para armazenar 18 milhões, e que a ilha de Kharg gere 78 milhões de dólares por ano em receita energética, segundo Miad Maleki, ex-funcionário do Departamento do Tesouro dos EUA.
Além dos tanques de armazenamento, a ilha conta também com alojamentos para os milhares de trabalhadores e é perto das refinarias e dos depósitos que as gazelas vagueiam. O local conta também com uma fortaleza portuguesa medieval.
"Os portugueses tinham uma rede fortalezas [no Golfo Pérsico], nomeadamente na Ilha do Bahrein, [que serviam para] controlar essa zona e as rotas marítimas", explicou à SÁBADO o historiador João Paulo Oliveira e Costa.
A ilha contém também um dos mosteiros cristãos mais antigos do Golfo Pérsico, mas João Costa não acredita que seja uma criação portuguesa. "Pode ter havido um eremitério qualquer, mas não creio que tenha havido nenhum mosteiro", começa por dizer. "Os portugueses controlaram o Golfo Pérsico de 1515 a 1622, mas as ordens religiosas não trabalharam durante muito tempo. Desistiram porque [o povo era] muçulmano e não havia condições para os converter."
A história de Kharg e a ligação a Portugal
Desde os tempos do Império Persa, há mais de dois mil anos, que essa pequena ilha desempenha um papel estratégico no Golfo. Nos séculos XVI e XVII, quando a ilha estava sob influência portuguesa e holandesa, era considerado um importante espaço de intercâmbio comercial de alimentos e outros produtos na região. "Portugal perde depois posições para a coligação iraniana-inglesa e só ao fim de 100 anos é que os iranianos se interessam pelos negócios oceânicos", esclarece o historiador.
Foi só no século XX que passou a albergar uma prisão de segurança máxima, na qual foram presos vários políticos. Foi assim que se descobriu até uma das principais vantagens desta ilha: junto à costa iraniana, as águas profundas eram perfeitas para a navegação de petroleiros.
O primeiro terminal, que incluía um centro de armazenamento e de distribuição de hidrocarbonetos, acabou por ser construído em 1958, durante o reinado do xá Mohammad Reza Pahlavi, e rapidamente se tornou o principal ponto de exportação do país. Na altura, parte da infraestrutura pertencia a empresas americanas que ali operavam... até à Revolução Islâmica de 1979.
A guerra de 1980
Nos anos de 1980, a ilha acabou por ser alvo de ataques por parte das forças iraquianas, que realizaram repetidos bombardeamentos às instalações petrolíferas.
Na altura, o Irão travava uma guerra com o Iraque e os ataques acabariam a causar danos significativos na infraestrutura de exportação. Apesar disso, os iranianos conseguiram reparar as instalações e manter o fluxo do carregamento de petróleo.
Nas décadas seguintes, Teerão fortificou a ilha de Kharg com defesas aéreas, estruturas reforçadas e tanques de armazenamento subterrâneos, projetados para garantir que as exportações de petróleo bruto estavam garantidas mesmo em caso de ataques militares. O local ficou conhecido como a "Ilha Proibida".
Siga-nos no WhatsApp