Secções
Entrar

Drogada pelo marido e violada por estranhos: Gisèle Pelicot conta como desceu "aos infernos"

Isabel Dantas 14 de fevereiro de 2026 às 11:06

A mulher, de 73 anos, prescindiu do anonimato e recorda numa entrevista à BBC como descobriu os horrores a que Dominique a sujeitava. Um crime que chocou França e não só.

"Horrorizada! Algo explodiu dentro de mim." Foi assim que Gisèle Pelicot se sentiu quando descobriu que foi drogada pelo marido e violada por vários homens durante anos, na sua própria casa. Um crime que chocou França e sobre o qual a mulher, de 73 anos, voltou a falar abertamente, agora numa entrevista à BBC, depois de o homem ter sido condenado a 20 anos de prisão. "Foi como um tsunami".
Gisèle Pelicot, de 73 anos, no julgamento do marido AP
Mãe de três filhos, Gisèle - que -,  decidiu prescindir do direito ao anonimato e descreve os quatro meses de julgamento do "sr Pelicot" como uma "descida aos infernos". Tudo começou com uma ida a uma esquadra perto de casa, em Mazan, no sul do país. O marido, Dominique Pelicot, tinha sido apanhado a filmar debaixo das saias de várias mulheres num supermercado e um agente começou por lhe fazer perguntas sobre o caráter de Dominique, que tipo de pessoa era, se o casal tinha alguma vez feito swing... "Depois, disse-me 'vou mostrar-lhe uma coisa que não vai gostar'. Ao início não percebi..." O polícia mostrou-lhe fotografias de uma mulher inconsciente sobre uma cama. Era ela própria. Estas fotos eram apenas algumas das milhares de imagens e vídeos que Dominique tinha recolhido depois de drogar Gisèle ao longo de vários anos. "Não me reconheci. Aquela mulher parecia que estava morta. Havia dois homens perto dela, não entendi quem eram. Não os conheço, nunca os conheci", relatou, emocionada. Gisèle, que casou com Dominique em 1973, soube então que tinha sido violada por dezenas de homens e que o marido filmava tudo, guardando depois as imagens num disco rígido.
Quando foi para casa, a mulher telefonou a uma amiga... "Disse-lhe 'o Dominique está preso porque me violou e fez com que outros me violassem'. Foi aí que usei a palavra 'violação'. Depois de cinco horas de interrogatório, coloquei um nome no crime do 'sr Pelicot'."
Contar aos filhos, por telefone, foi outro dos desafios que teve de enfrentar. Aliás, Gisèle considera mesmo que foi o mais difícil que fez na vida. "A minha filha Caroline gritou. Um grito desumano." O mais velho. David, ficou em choque, e o mais novo, Florien, perguntou-lhe como estava. "Eles perceberam que estava sozinha e que poderia fazer algo estúpido. Para eles também foi um choque."  Gisèle queixava-se de perdas de memória, que atribuía a problemas neurológicos, bem como contínuos problemas do foro ginecológico. Tudo se deveu aos medicamentos que o marido lhe dava e às violações a que era sujeita várias vezes por semana. "É inconcebível que este homem, com quem partilhei a minha vida, tenha cometido estes horrores. Eu levantava-me, tomava o pequeno almoço e ele olhava-me nos olhos! Não sei como pôde fazer-me isto durante tantos anos." Além dos sedativos, o homem dava-lhe poderosos relaxantes musculares, para que no dia seguinte não tivesse dores.  No computador de Dominique foram também encontradas fotos da filha a dormir em roupa interior e . "A forma incestuosa como olhou para a própria filha... Considero insuportável." Mas o homem não chegou a ser acusado por este crime, por falta de provas.
Artigos Relacionados
Artigos recomendados
As mais lidas