ONU. Conheça os quatro possíveis sucessores de António Guterres
Os responsáveis pela escolha são os membros do Conselho de Segurança, que devem iniciar o processo até ao final de julho.
A ONU vai escolher o sucessor de António Guterres. Duas mulheres e dois homens mantêm-se na disputa pelo cargo de secretário-geral e serão ouvidos a partir de terça-feira pelos Estados-membros, marcando o início do processo.
A realidade é que as nomeações tendem a seguir uma tradição de rotação geográfica, que nem sempre é observada, e se a mesma for mantida o mandato de 2027 – 2031 deverá ser assumida por alguém originário da América Latina.
Outro dos pontos fortes da discussão é que vários países já revelaram o seu desejo de que seja uma mulher a ocupar o cargo, pela primeira vez nos 80 anos de história da organização. O governo espanhol reforçou no sábado que existe a necessidade de “renovar e reformar” a ONU e trazer uma mulher para a liderança: “Não é apenas de justiça, que o é, mas também de credibilidade”, defendeu Pedro Sánchez.
Ainda assim os responsáveis pela escolha são os membros do Conselho de Segurança, que devem iniciar o processo até ao final de julho.
Michelle Bachelet
A ex-presidente chilena Michelle Bachelet entrou na corrida através de uma nomeação conjunta do Chile, México e Brasil, ainda assim o seu país de origem desistiu de a apoiar depois de o governo de José Antonio Kast, de extrema-direita, ter sido eleito.
Bachelet liderou o país da América Latina entre 2006 e 2010 e de 2014 a 2018. Antes disso, foi a primeira mulher na região a ocupar o cargo de ministra da Defesa e foi também a primeira diretora da ONU Mulheres. É formada em Medicina com especialização em Cirurgia, Pediatria e Saúde Pública, também estudou estratégia militar na Academia Nacional de Estratégia e Política do Chile e no Colégio Interamericano de Defesa, nos Estados Unidos.
Ocupou ainda o cargo de alta-comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos.
Tendo em conta que a decisão é feita pelo Conselho de Segurança, Michelle Bachelet pode ter a vida dificultada por dois dos membros com direito de veto. A China protestou fortemente contra um relatório independente assinada pela chilena sobre violações de direitos humanos contra a minoria uigur, apresentado em 2022 durante a sua despedida do Alto Comissariado para os Direitos Humanos. Já os Estados Unidos demonstraram-se contra várias críticas que a chilena endereçou a Israel e a Washington.
Rafael Mariano Grossi
O diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica, Rafael Mariano Grossi, é um diplomata argentino com 40 anos de experiência em diversas áreas, incluindo paz e segurança, não proliferação e desarmamento, e desenvolvimento internacional. Atualmente é o favorito entre os países que procuram um líder mais técnico.
Grossi foi nomeado pelo governo argentino que o considerou “um dos diplomatas argentinos mais respeitados, cujo trabalho como diretor-geral da AIEA rendeu-lhe admiração mundial”. "O seu profundo conhecimento do sistema multilateral, capacidade de fomentar o diálogo diplomático, o seu histórico comprovado em situações de conflito e grandes crises internacionais como interlocutor imparcial e eficaz, a sua competência técnica e linguística e o seu compromisso com a Carta da ONU fazem dele um candidato excecional para cumprir as responsabilidades que o mundo exige hoje do secretário-geral", continuaram.
Rafael Mariano Grossi é licenciado em Ciência Políticas, tem um mestrado em Relações Internacionais e um doutoramento em História e Política Internacional.
Em outubro do ano passado, numa conferência de imprensa em Nova Iorque, Grossi considerou que a sua experiência pessoal a mediar conflitos e o papel de interlocutor regular entre potências beligerantes poderão contribuir para ser eleito.
Grossi recusou renunciar ao cargo na AIEA durante o período de escolha para a ONU, contrariando uma resolução da Assembleia-Geral que pedia aos funcionários das Nações Unidas que "considerassem" suspender funções durante a campanha para evitar conflitos de interesse.
Rebeca Grynspan
Rebeca Gynspan é ex-vice-presidente da Costa Rica, país responsável pela sua nomeação, e a primeira mulher a liderar a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) em 60 anos de história.
Tem uma sólida trajetória no trabalho dentro do governo chileno, diplomacia da ONU, política económica e cooperação multilateral a nível global. Em 2024 recebeu o Prémio de Negociadora do Ano de Doha por liderar os esforços da ONU para restaurar as rotas comerciais do Mar Negro depois da invasão russa à Ucrânia.
A costa-riquenha suspendeu o seu cargo à frente da UNCTAD quando se tornou candidata à sucessão de Guterres. Na sua declaração de visão para a ONU referiu que a confiança das Nações Unidas estava a diminuir e que era necessária coragem para mudá-la e restaurar a crença na capacidade da organização de promover a paz e o desenvolvimento.
Macky Sall
No início de março o ex-presidente senegalês Macky Sall foi nomeado para a eleição pelo Burundi, sendo provavelmente a candidatura mais polémica na corrida.
A candidatura não foi apresentada pelo Senegal, uma vez que Macky Sall é acusado pelos novos dirigentes do seu país de ter ocultado dados económicos importantes, como é o caso da dívida pública. A União Africana também se recusou a apoiar a candidatura de Sall, que foi rejeitada por 20 dos 55 Estados-membros da organização. A falta de apoio consensual em África poderá enfraquecer a influência do continente no processo de seleção da ONU, onde o apoio regional é importante.
Macky Sall, de 64 anos, governou o Senegal entre 2012 e 2014 e é visto pelos seus apoiantes como um candidato capaz de conduzir negociações multilaterais em nome do continente, apesar dos receios daqueles que se posicionam contra devido à dura repressão aos protestos da oposição.
Na sua declaração de visão para o cargo, Sall afirmou que a ONU precisava de ser reformada, simplificada e modernizada.