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Administração Trump está a enviar jovens imigrantes grávidas para o Texas onde o aborto é proibido

Isabel Dantas 13 de março de 2026 às 11:36

Há adolescentes com gestações de risco por serem muito novas, algumas com apenas 13 anos.

Jovens imigrantes grávidas, que cruzam a fronteira dos Estados Unidos desacompanhadas ou que são separadas dos pais, estão a ser enviadas pela administração Trump para um abrigo no sul do Texas que os próprios responsáveis da Agência de Integração de Refugiados (ORR) consideram inadequado, por falta de atendimento especializado. Algumas dessas jovens, com apenas 13 anos, engravidaram na sequência de violações e acabaram por ser enviadas para um estado em que o aborto é praticamente proibido.  

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos AP

Segundo o 'The Texas News Room', desde o final de julho do ano passado mais de uma dúzia de menores grávidas foram encaminhadas para a instituição no Texas, localizada na pequena cidade fronteiriça de San Benito. As gravidezes das menores, sobretudo das mais novas, são consideradas de alto risco e há funcionários, que quiseram manter o anonimato por receio de represálias, preocupados com a falta de cuidados médicos adequados. "Este grupo de crianças é claramente reconhecido como o mais vulnerável", disse uma fonte do ORR.

Esta mudança para o Texas é uma alteração drástica na prática comum dos Estados Unidos, que colocava crianças migrantes grávidas e desacompanhadas em abrigos do ORR ou em lares adotivos, equipados para lidar com gestações de alto risco. Segundo as mesmas fontes, há funcionários do ORR, profissionais de saúde, defensores de migrantes e advogados de direitos civis que temem que o governo de Trump esteja a colocar estas adolescentes em San Benito com o intuito de lhes negar o acesso ao aborto. No Texas, as menores grávidas só podem aceder à interrupção voluntária da gravidez se estiverem em risco de morte ou de sofrerem danos corporais graves na sequência da gestação.

Jonathan White, que liderou o programa de crianças desacompanhadas do ORR durante o primeiro mandato de Trump, não tem dúvidas de que se trata de uma questão ideológica. "Isto é 100% e exclusivamente sobre aborto. Agora estão a implementar casualmente aquilo por que lutaram arduamente para conseguir da última vez e não conseguiram", explicou, referindo-se à tentativa da administração Trump em restringir o abordo para menores desacompanhadas em 2017.

Pior que o ICE?

Mas Zain Lakhani, diretora de Direitos e Justiça dos Migrantes na Comissão de Mulheres Refugiadas, está preocupada com outros aspetos além do abordo. Segundo relata, a sua organização não teve acesso a este centro no Texas nem conhece as condições em que são mantidos os bebés que ali nascem. Mas sabe bem o tratamento que estas mulheres recebem quando estão nos centros de detenção do ICE: muitas ficam sozinhas em celas sem água ou assistência médica por mais de 24 horas, algumas chegaram a ser deportadas ainda a sangrar e depois de muitos dias sem comer.

“Mesmo para as adolescentes que querem ficar com os seus bebés, qualquer complicação exige atendimento médico de emergência. E temos visto histórias e tendências muito preocupantes no Texas sobre quando as mulheres têm permissão para aceder a esse atendimento, especialmente quando se trata da evacuação de um feto ou de procedimentos que foram criminalizados pelo estado”, refere Lakhani, citada pelo jornal espanhol ABC. "Concentrar mulheres grávidas num estado com estas leis coloca a sua saúde e, às vezes, as suas vidas em risco. Não se trata apenas de aborto, mas do que acontece com os seus corpos e com o acesso a cuidados durante a gravidez, incluindo cuidados que salvam vidas."

Quando voltou à presidência dos Estados Unidos Trump assinou uma ordem executiva com o intuito de "acabar com o uso forçado de dinheiro dos contribuintes federais para financiar ou promover o aborto eletivo". E o Departamento de Justiça concluiu que o governo não pode pagar o transporte de mulheres detidas de um estado para outro para facilitar o acesso ao aborto, como acontecia anteriormente, exceto em casos de violação, incesto ou para salvar a vida da mãe.

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