Bárbara Bandeira gravou um dueto com a voz de Amália Rodrigues
No EP "Lusa: Ato II", disponível a 22 de maio, a cantora vai incluir “Rapariga”, um tema para o qual convocou uma gravação de Amália Rodrigues, com quem imagina um dueto.
Bárbara Bandeira na Casa-Museu Amália RodriguesFrancisco Narciso
Bárbara Bandeira gravou uma canção em que incluiu uma gravação vocal de Amália Rodrigues, figura cimeira do fado que morreu em 1999, dois anos antes da jovem cantora portuguesa (hoje com 24 anos) nascer. O tema chama-se Rapariga e integra o EP (ou mini-álbum) Lusa: Ato II, que ficará disponível a 22 de maio e que, segundo adianta a editora discográfica de Bárbara Bandeira em nota enviada à imprensa, cruza referências populares, fado, pop e uma ideia contemporânea de portugalidade.
A canção inscreve-se numa tendência recente de reaproximação da música portuguesa ao seu arquivo, usando vozes e materiais históricos para os fazer circular fora dos seus lugares habituais, garante-se ainda.
Depois de ter aberto a porta a este universo com canções como Marcha e Mau Olhado, Bárbara Bandeira avança para um segundo ato, com produção musical de Migz e Ariel e alegadamente com forte ligação a uma perspetiva muito própria da portugalidade. Lusa: Ato II contém sete canções e uma viagem por temas como a saudade, a inveja, o destino e o crescimento pessoal, num diálogo entre tradição e pop contemporânea, lê-se ainda na nota enviada à comunicação social.
É neste contexto que surge Rapariga. A canção, ainda por desvendar, coloca duas temporalidades frente a frente: de um lado, a voz da maior figura do fado e da música portuguesa no século XX; do outro, uma artista pop que tem construído o seu lugar num território muitas vezes observado com preconceito.
Citado no comunicado enviado à imprensa, Francisco Vasconcelos, Diretor-Geral da editora Valentim de Carvalho, defende: “A Bárbara tem um compromisso com a sua carreira absolutamente notável, traça o seu caminho, não pretende ser consensual e é de um rigor extremo em tudo o que faz.” Foi por isso, explica, que quando a cantora lhe pediu acesso a material inédito de Amália para construir um projeto ligado à visão que a cantora tem da portugalidade, não hesitou.
Ainda assim, Vasconcelos recusa qualquer leitura que coloque Bárbara num patamar equivalente ao de Amália. “O acesso à gravação do tema Rapariga não confere à Bárbara um estatuto semelhante ao de Amália, aos meus olhos ninguém terá esse estatuto”, sublinha. Mas a sua interpretação desloca o centro da questão: “A participação neste dueto não é a Bárbara tomar uma boleia da Amália, creio até que, num certo sentido, é a Amália e a sua canção quem apanha boleia da Bárbara Bandeira, porque lhes oferece um passaporte para chegarem a uma geração que precisa de a ouvir.”
Já para o Professor Vicente Rodrigues, Presidente da Fundação Amália Rodrigues, Rapariga é “um encontro entre gerações” e uma conversa cúmplice entre Bárbara Bandeira e a voz madura de Amália. Na sua leitura, “a inocência e a força de uma nova geração cruzam-se com a lucidez bem portuguesa a que Amália nos habituou.” Mais do que uma atualização, vê no dueto uma homenagem que não procura domesticar a tradição. “A Bárbara abraçou a nossa tradição, aqui num tema de Amália de estilo popular, transformando-a em algo seu, livre e contemporâneo.”
A operação não é totalmente inédita na música portuguesa recente. Em 2019, Stereossauro editou Bairro da Ponte, disco construído a partir do acesso aos arquivos da Valentim de Carvalho e da manipulação dos masters originais de Amália Rodrigues e Carlos Paredes, cruzando fado, hip-hop e eletrónica com convidados de várias gerações. O próprio ponto de partida do disco foi descrito como um acesso privilegiado a esses arquivos e aos masters originais de Amália e Paredes, num exercício que também procurava abrir a tradição a outras linguagens.
Num momento em que a música portuguesa volta frequentemente à discussão sobre identidade, território e pertença, Bárbara Bandeira escolhe entrar no debate gravando um dueto que imaginou com a maior figura portuguesa do fado. Entre ambas, talvez se abra espaço para que uma geração que conhece Amália apenas como nome, símbolo ou retrato, venha finalmente a ouvi-la.