O escritor Valter Hugo Mãe afirma que o seu novo romance, "O Século dos Imbecis", "usa muito humor e faz uma crítica social", questionando a contemporaneidade, e confessa que o escreveu para "implicar" com o escritor Italo Calvino.
Valter Hugo Mãe, em declarações à agência Lusa, diz que, além desse lado artístico de escrever uma obra literária, a sua "preocupação maior é apelar sempre à lucidez de vivermos num Estado de direito, à lucidez de vivermos em democracia", e de ter sempre por objetivo o que é ser-se uma pessoa decente. E alerta: "Estamos a perigar a sensatez, o decoro, até o pudor. Estamos a assistir a uma glória da estupidez, a uma glória da desinformação, a uma glória da ignorância".
O escritor adiantou que perspetiva "O Século dos Imbecis" como o início de uma nova tetralogia que o acompanha há 20 anos, e que o escreveu para "implicar" com o escritor italiano, designadamente a sua trilogia "Os Nossos Antepassados".
"Este livro inicia aquilo que pretendo que venha a ser uma tetralogia - ou alguma coisa em mim me leva a trabalhar em ciclos de quatro livros. Por isso esta será categoricamente a terceira tetralogia que eu defino [depois da Tetralogia das Minúsculas e da "Irmãos, Ilhas e Ausências"], e chamei a este novo ciclo, digamos assim, 'Crimes e Vindouros'".
Foi ao romance "O Cavaleiro inexistente", um dos da trilogia de Calvino, que Valter Hugo Mãe foi buscar os nomes de algumas personagens, nomeadamente o protagonista, Agilulfo, marquês da Malandrinha, "casa de imensidões, feita de fundura de tempo", como a descreve no romance.
"O que eu faço é que eu tomo uma série de nomes, não são todos, do Calvino - ele ainda teria mais nomes para usar -, mas eu tomo uma série de nomes d''O Cavaleiro Inexistente', e uso-os para cada homem do meu livro, aludindo ou criando, ironicamente, a impressão de que os homens no meu livro têm direito a nome, alguns nomes até com algum fausto ou alguma pompa, mas, por sinal, esses nomes dizem respeito a alguém que não existe, que pode deixar uma bela memória, mas não deixa uma biografia efetiva, deixa uma biografia fantasiosa", disse.
A narrativa passa-se em Portugal, no interior montanhoso; refere o Porto, Lisboa, os vizinhos espanhóis, mas, cronologicamente, pode passar-se por volta de 1910 quando foi instaurada a República, mas sem qualquer dado concreto.
"Eu não quis situar demasiado, porque tenho sempre a tendência para trabalhar num plano meio extemporâneo, pairando sobre os assuntos e fazendo com que os assuntos dos livros possam ser leituras da contemporaneidade da nossa época, mas sem se funcionalizarem ou se instrumentalizarem demasiado ao tempo. Então, o livro aponta assim para a história de um marquês em tempo da [I] República", justificou.
"O livro usa muito o humor, faz uma crítica social a partir de um ponto de vista muito 'humorizado', pelo menos, creio eu, que me ri bastante a escrever. Eu achei que devia deferir algumas figuras com uma nomenclatura perturbada, digamos assim", casos de neologismos como "pessibista", "presidentês" e "presidentesa", afirmou.
Além dos neologismos, o escritor reconheceu que o romance tem vários aforismos.
Valter Hugo Mâe referiu-se ao "presidentês" e à "presidentesa" como "vocábulos criados para atingir uma certa ironia da condição".
"O 'presidentês' e a 'presidentesa' [são] uma espécie de resposta do poder puramente republicano a uma cobiça ou uma espécie de saudade pelo poder monárquico, pelo poder que vem do tempo das monarquias. É como se o Presidente X fizesse frente à maravilha que é o marquês, usando uma corrupção do seu cargo público", disse.
"O Século dos Imbecis", de certa forma, "é uma advertência para tempos vindouros".
"Há, efetivamente, uma intenção de usar esta crítica, digamos assim, não simplesmente para auscultar o que é a contemporaneidade, mas para ponderar acerca de princípios morais e de ética que possam proteger o projeto humano. Ou seja, é algo que já vem sendo uma ansiedade minha desde sempre, eventualmente, e que tem que ver com não perder o tino à condição humana".
"O que me interessa, além desse lado puramente artístico de escrever uma obra literária, de fazer uma obra literária, e que em última análise é o que eu sou - serei um artista literário, um artista da palavra, digamos assim -, mas, além da minha preocupação enquanto cidadão, a minha preocupação maior é apelar sempre à lucidez de vivermos num Estado de direito, à lucidez de vivermos em democracia, de caminharmos para uma sofisticação do que é ser-se decente, do que é ser-se pessoa".
"Estamos a perigar a sensatez, o decoro, até o pudor. Eu diria que nós estamos a assistir a uma glória da estupidez, a uma glória da desinformação, a uma glória da ignorância", advertiu o autor.
"Eventualmente, em certas situações, já estamos a assistir às ideias mais predatórias, à defesa de ideias predatórias, à defesa de ideias profundamente excludentes, odiosas, que não produzem o bem de ninguém, simplesmente pretendem o mal de alguém", afirmou.
"Tenho medo, enfim, frustra-me enquanto pessoa que cresceu nos anos 1970/1980, assistindo à queda dos muros e à conquista de um período extenso de paz, frustra-me que possamos ver levantar-se não propriamente uma humanidade, mas uma 'desumanidade humana'. Um poder instalado, um pouco por toda a parte, que parece querer punir o esplendor da igualdade, da paridade com que se vinha sonhando", lamentou.
Para o autor há uma esperança: "O papel das mulheres".
"Tenho salientado muito que me parece que este clima de fim de história que atravessamos talvez diga respeito a um impasse no poder dos homens, e por isso tenho estado a defender que me parece que a humanidade opera por utopias, ainda que a utopia, por definição, pareça inalcançável, ou seja - eu traduzo -, impossível. Mas dá uma sensação de que nós só nos organizamos enquanto alguém com destino, se tivermos uma utopia pela frente. E dá uma sensação de que o que acontece neste instante é que o perdido da humanidade talvez seja sobretudo o perdido dos homens, de um poder claramente masculino, claramente entregue à mão dos homens. E por isso, se houver uma utopia humana ainda por cumprir, e que possa servir de porta de saída para este tempo de fim de história, para um tempo que já muitos falam que sendo uma espécie de ideia póstuma, de sensação do póstumo, eu tenho a sensação de que essa porta de saída há de ser o das mulheres", explicou.
"Tenho falado muito [nisso] e o livro, de uma forma alegórica, não deixa de fazer essa defesa de que os homens poderão já não ter utopias, mas as mulheres ainda têm utopias, a mulher ainda tem uma utopia, e talvez essa seja a utopia que nos vai ajudar a ter futuro", concluiu.