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Margaret Atwood fala das memórias de infância e aplaudiu Marcha do Orgulho no Porto

Questionada sobre a hipótese de os seus livros terem assustados leitores masculinos e críticos, a escritora admitiu que sim, mas afirmou que atualmente, por ser mais velha, estão menos assustados.

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Margaret Atwood
Margaret Atwood MANUEL FERNANDO ARAÚJO/LUSA

Milhares de pessoas escutaram hoje no Porto a escritora Margaret Atwood falar das memórias de infância na floresta no Norte do Canadá, do 'bulling' que sofreu em criança e viram-na aplaudir a passagem da Marcha do Orgulho LGBTI+.

Debaixo de um sol tórrido, milhares de pessoas aguardavam esta tarde em filas até à zona do Jardim da Cordoaria para conseguir entrar na sessão literária, onde a escritora canadiana Margaret Atwood (1939) iria falar sobre as suas memórias numa sessão inserida no festival literário Babell, que decorre no Porto até à próxima segunda-feira.

A sessão literária com Atwood arrancou pelas 16:17, na histórica Praça de Gomes Teixeira, conhecida também por Praça dos Leões, com a moderação da escritora e tradutora Tânia Ganho que começou por perguntar a Atwood como é que ela conseguiu lembrar-se de tantos detalhes do seu passado para escrever 600 páginas de memórias.

Margaret Atwood declarou que as suas memórias não foram escritas com o auxílio de um diário que tem "junto à cama" e onde escrevia e escreve a vida quotidiana, referindo que as memórias são sobre o que se lembra realmente, sejam "coisas estúpidas" que fez, coisas estúpidas que lhe fizeram, catástrofes, histórias engraçadas ou experiências perto da morte.

"Tenho que escrever tudo, senão esqueço tudo", afirmou a autora de "História de uma Serva", acrescentando que "pessoas diferentes têm memórias diferentes do mesmo evento".

Atwood contou que a sua infância foi vivida em florestas remotas no norte do Canadá, no Quebec, porque o pai era entomólogo e passava oito meses no ano a estudar insetos, o que deu a experiência do isolamento à escritora, algo que vai marcar a sua escrita. Em casa, Atwood revela que não havia eletricidade, nem água corrente, nem máquina de lavar roupa.

Questionada sobre a hipótese de os seus livros terem assustados os leitores masculinos e os críticos, a escritora admitiu que sim, mas afirmou que atualmente, por ser mais velha, estão menos assustados, arrancando gargalhadas da plateia.

"Eles estão menos assustados do que eram antes, porque agora eu posso ser uma figura velha. É uma questão de idade. Quanto mais velhos somos, mais somos aceites. Há uma equação. Quando você é um escritor jovem, você é uma estrela promissora (...), a meio da carreira, tens a mesma idade que teus críticos, então és alguém que realmente os entende (...)

Mas quando és mais velha do que as pessoas que estão escrever sobre ti, és uma mulher inteligente ou uma bruxa velha".

Questionada sobre as memórias do 'bulling' de que foi alvo em criança, Atwood confirmou que teria uns 9 anos e que eram principalmente as meninas que o faziam.

"É bastante diferente entre meninas e meninos. Os meninos geralmente têm uma hierarquia aberta. Quem é o melhor nisso, ou o maior, ou quem é bom em desportos é o garoto superior e os outros organizam-se em pirâmide abaixo. As meninas é muito mais como a corte bizantina. Um dia és a favorita, há uma campanha de conspiração e é exposta. Não há razão para que alguém aponte o dedo, mas uma está dentro e a outra está fora. É uma dinâmica bem diferente", disse.

Sobre a questão de ser feminista, Atwood recordou que há 75 tipos diferentes de feminismo, segundo a Wikipédia, e que, quando lhe perguntam se ela é feminista, Atwood pergunta qual tipo de feminismo.

Margaret Atwood refere que não é do tipo feminista que defende que os homens devam desaparecer e que só 10% devem ser mantidos para propósitos de procriação.

"Não. Eu não sou desse tipo. Estou interessada em direitos humanos, os direitos das mulheres são um subsetor dos direitos humanos e os direitos humanos incluem os homens".

A autora da "História de uma Serva" falou que recebe cartas de todo o mundo e que lhe contam que a "História de uma serva" não é ficção.

Durante a sessão literária houve uma interrupção por causa do barulho que ecoava da Marcha do Orgulho LGBTI+ no Porto, que juntou várias centenas de pessoas que quiseram "lembrar para não repetir" a morte de Gisberta Salce, assassinada em 2006, e alertar para "o retrocesso" nos direitos dos transexuais.

Quando percebeu que se tratava de uma manifestação a favor dos direitos humanos dos transexuais, Margaret Atwood fez questão de aplaudir durante a breve interrupção que se fez na sessão literária.

A sessão terminou com milhares de pessoas na plateia a aplaudir de pé a escritora.

Margaret Eleanor Atwood, 86 anos, começou a escrever aos 6 anos, entrou para a escola a tempo inteiro aos 12 anos e aos 16 começa a escrever profissionalmente. É romancista, poetisa, contista, ensaísta e crítica literária internacionalmente reconhecida, com vários prémios literários ganhos, designadamente o primeiro Prémio Arthur C. Clarke Award, em 1987, com "A História de uma serva", que a própria admitiu ser "ficção científica social". A autora retrata personagens femininas dominadas pelo patriarcado em alguns dos seus romances.

O festival literário Babell arrancou na quarta-feira e decorre até segunda-feira, com nomes como Olga Tokarczuk e Salman Rushdie num programa de sessões literárias, concertos, cinema e outras apresentações que, ao todo, custou mais de 3 milhões de euros à fundação da Livraria Lello, excetuando o apoio da Câmara do Porto, que coorganiza o evento.

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