A última temporada? Seis motivos para regressar a "Euphoria"
Depois de quatro anos e um fim em suspenso, a terceira temporada de “Euphoria” (HBO Max) regressa esta segunda-feira para ajustar contas e inaugurar novos capítulos.
Zendaya como Rue Bennett na terceira temporada de EuphoriaDR
"Escrevi todas as temporadas como se fossem a última", disse, recentemente, em entrevista ao New York Times, o criador e argumentista Sam Levinson. Para quem acompanha Euphoria desde o início, pode parecer uma revelação estranha, dado o sucesso instantâneo da série e o marco que deixou na cultura popular desde que estreou, em 2019. Em retrospetiva, no entanto, a ideia faz sentido: cada uma das suas duas temporadas terminou não com o fulgor de uma trama em aberto que espera um desenlace, mas com o amargo impasse de uma despedida que, ainda assim, saberia sempre a insatisfatória.
A longa espera desde a segunda temporada terá levado muitos a crer que essa despedida havia, enfim, chegado. Os seus protagonistas ganhavam notoriedade e abraçavam outros projetos. A equipa nuclear era assolada por mortes trágicas, como o foram as de Angus Cloud, ator que morreu com uma overdose acidental aos 25 anos, de Eric Dane, que sofria de esclerose lateral amiotrófica e morreu com 53 anos, e a de Kevin Turen, produtor da série que morreu com 44 anos, de problemas cardíacos. O próprio Levinson seguira em diante para encabeçar o (extremamente mal-sucedido) The Idol, também da HBO.
Contra tudo e contra todos, mais de quatro anos depois, a terceira temporada estreia esta segunda-feira, 13 de abril, num novo momento para as personagens, bem como os seus intérpretes, criadores e público. Porquê regressar, passado tanto tempo, a este lugar onde fomos felizes, mas também sofremos tanto? Eis seis motivos.
1. A passagem do tempo
A demora é, de alguma forma, um motivo em si mesmo. Os atores principais amadureceram, vivendo uma diversidade notável de registos e géneros – do terror à comédia romântica e ao drama psicológico –, que, de alguma forma, sempre caracterizou o tom inconfundível que fez de Euphoria a série de sucesso que é.
Ao mesmo tempo, os protagonistas, hoje todos entre os 27 e os 29 anos, já vão tarde para regressar ao liceu que foi palco das primeiras duas temporadas, e é por isso que a cronologia da série acompanhou, grosso modo, a real: já é da jovem vida adulta que trata esta nova temporada, incidindo sobre a pressão profissional, o casamento, o sucesso, as dificuldades financeiras e uma perspetiva sobre as drogas que se afasta do pessoal para olhar para o sistémico. O tom da terceira temporada reflete-o, incidindo sobre "os temas do bem e do mal, a liberdade e as suas consequências". Quem conhece as cenas intensas e a natureza ímpia de Euphoria sabe o que isso significa.
2. A proeza técnica
Não foi só pela trama, performances e temas contemporâneos que Euphoria se tornou no fenómeno que é hoje, e quem o dispensou como "apenas mais uma série adolescente de liceu" pode estar a perder algo de importante.
Considerada uma conquista no plano da técnica, em particular no ramo da fotografia (gerando infindáveis artigos de análise e vídeos sobre como replicar a sua iluminação e estilo de filmagem), a série opta frequentemente por pausar o avanço da narrativa, substituindo-os por elaborados planos-sequência cujo objetivo é retratar visualmente o mundo interior das personagens – um estilo que Sam Levinson apelida de "realismo emocional".
A extravagância visual pode não ser para todos, mas tornou-se um dos elementos mais distintivos de uma série que, para os aficionados, atinge patamares de transcendência nos seus melhores momentos.
3. A mudança de planos
Ainda que derradeiramente interrompido no final da segunda temporada, o romance entre o traficante sensível Fezco (Angus Cloud) e a tímida e criativa Lexi (Maude Apatow) foi uma das tramas mais acarinhadas pelos fãs, e o seu desfecho um dos mais antecipados. Esses planos foram gorados com a morte precoce de Cloud, que sofria de toxicodependência, em 2023, ainda antes de começarem as filmagens para a terceira temporada. "Eu amava-o muito e lutei imenso para mantê-lo sóbrio", disse Levinson, na mesma entrevista, acrescentando que foi particularmente difícil tendo em conta que "estava a fazer uma série sobre dependência" (Euphoria, uma adaptação da série israelita do mesmo nome, foi escrita com base nas experiências do próprio Levinson com o abuso de drogas).
O criador conta, porém, que foi a morte de Cloud que deu o mote para a terceira temporada: "Perdê-lo fez-me sentar-me e pensar, que história quero realmente contar? O que é que interessa na vida?"
4. Uma última despedida
Fora das tramas principais, centradas em Rue (Zendaya) e Jules (Hunter Schafer), Nate (Jacob Elordi), Maddy (Alexa Demie) e Cassie (Sydney Sweeney), um dos improváveis protagonistas da série foi Cal Jacobs (Eric Dane), um magnata da construção e pilar da comunidade que leva uma vida secreta.
Na segunda temporada, um episódio em particular causou tanta comoção que a geração mais nova de fãs da série estranhou a relativa minimização da sua importância no obituário do ator, que ficou marcado pela participação em Anatomia de Grey.
Ao contrário de Angus Cloud, no entanto, Dane concluiu a sua participação na série antes da morte, pelo que a terceira temporada marca uma emocionante despedida de um dos mais carismáticos intérpretes da televisão americana: já há rumores de uma "performance incrível" do ator logo nos primeiros episódios.
5. O estrelato dos protagonistas
Se talvez possa ser um exagero dizer que Euphoria transformou os seus atores principais em estrelas, há argumentos fortes para sustentar que deu um fulgor às suas carreiras que nunca mais se esgotou. Entrando na série há sete anos como jovens promissores, pelo menos três deles estão hoje entre os maiores astros de cinema do planeta.
São eles Zendaya, que começou em criança na Disney e, com Euphoria, deu o salto para a ficção adulta, aparecendo, desde aí, em dramas como Malcolm & Marie (também de Levinson), Challengers, de Luca Guadagnino, e a saga Dune, de Denis Villeneuve; Jacob Elordi, recém-nomeado a Óscar por Frankenstein, de Guillermo del Toro, e estrela de Saltburn e Monte dos Vendavais, de Emerald Fennell, e Priscilla, de Sofia Coppola; e Sydney Sweeney, que viu o sucesso na TV amplificado com White Lotus e protagtonizou os êxitos pop Todos Menos Tu e A Criada ou o drama Reality.
Maiores do que a série que os criou e com uma bagagem artística aumentada, os três regressam, agora, aos papéis onde tudo começou.
6. O ajuste de contas
Enquanto os fãs lidam com a real possibilidade de este ser o derradeiro capítulo da série, o facto é que, mesmo passado tanto tempo, há contas a ajustar e caminhos a revelar. No centro de tudo está Rue, cujo estado de sobriedade ainda é uma incógnita, que terminou a última temporada e cuja relação com Jules foi deixada em termos incertos.
Regressamos também à relação de Nate e Cassie, que planeiam casar-se enquanto ele tenta reanimar o negócio do seu pai e ela sonha com o estrelato; e entre Cassie e a ex-melhor amiga Maddy, cuja tensão ficou igualmente em suspenso.
Entre as estrelas que regressam, aproxima-se ainda o desfecho de Cal, que é preso quando a série nos deixa, e de Lexi, autora da peça de teatro que encerrou a segunda temporada. Mas este pode não ser o fim para Euphoria. Como em todas as temporadas, Levinson escreveu esta para ser a última: "Se a inspiração vier e tiver uma ideia, falo com a HBO. Se fizer sentido, faz sentido".