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"Soco a Soco". Orlando Jesus, o boxe e a Lisboa que resiste na memória

No documentário de Diogo Varela Silva, com estreia esta quinta, 14, um antigo pugilista torna-se porta de entrada para uma cidade dura e quase esquecida. "Há essa procura de perceber de onde viemos."

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 “Ele acaba por representar quase o último dos moicanos", diz Diogo Varela Silva
“Ele acaba por representar quase o último dos moicanos", diz Diogo Varela Silva Nicole Sánchez

Orlando Jesus entra em Soco a Soco como entram certas figuras que parecem demasiado transparentes para viver num retrato; não são apenas o que fizeram, são também o que carregam. O boxe, no filme de Diogo Varela Silva, é ponto de partida, não é destino. Há os punhos, os ginásios, a disciplina, a dureza física e mental de quem aprendeu cedo que a vida também se ganha por resistência. Mas há, sobretudo, uma Lisboa que se cola à pele de Orlando, uma cidade antiga, noturna, áspera, feita de bairros, noites, códigos, homens de biografia espessa e ruas que já não existem da mesma maneira.

“O Orlando carregava essa Lisboa, esse tempo antigo, antes da transformação”, diz o realizador. “Ele acaba por representar quase o último dos moicanos, um dos últimos exemplares de um certo tipo de lisboeta.” A frase podia ser lida como lamento, mas Diogo Varela Silva recusa a melancolia. O seu cinema tem trabalhado a memória coletiva - do fado a Zé Pedro, do Entrudo de Lazarim a Orlando Jesus - mas nunca como vitrina de saudade. “Interessa-me muito perceber e conhecer o passado para conseguir desenhar um futuro”, explica. “Só conseguimos fazer isso quando conhecemos o que estava para trás.”

Em Orlando, esse passado tem morada. O ex-pugilista e atual treinador da modalidade nasceu na Ajuda, foi ainda muito novo para a Musgueira, numa altura em que o bairro era feito de barracas, de lata, de urgência. “Estamos a falar de alguém que encontrou no boxe a possibilidade de fugir dali”, resume Varela Silva. Ao seguir essa história, o realizador encontrou uma Lisboa que nem todos conheceram, “noturna, mais dura.” Uma cidade onde o boxe não era apenas desporto, mas saída possível.

Uma cidade que parece agora afastar-se a cada prédio reabilitado, a cada montra polida, a cada rua pensada mais para quem chega do que para quem fica. “A [cidade] que vemos hoje é outra”, diz o realizador. “Preocupa-me uma Lisboa que não é pensada para mim e para os meus filhos, é para o turista. Tem que se tentar descobrir um equilíbrio.”

Esse equilíbrio também atravessa o filme. Soco a Soco podia ter sido uma homenagem limpa, uma biografia de luvas, o retrato de um campeão aparado nas arestas. Não é. Diogo Varela Silva preferiu filmar Orlando Jesus com as suas camadas, mesmo quando isso implicava não proteger a personagem da sua própria complexidade. “A ideia, apesar de gostar muito do Orlando e de lhe agradecer muito, era contar a história dele com todas as camadas, e elas estão lá, não posso tentar embelezar.” Para chegar a esse lugar, foi preciso tempo; quase dez anos de contacto semanal antes de o filme existir. “Sem essa confiança seria impossível entrar na vida do Orlando, em casa. Vai-se criando, com tempo.”

"Soco a Soco" rodou em alguns lugares icónicos da capital
Documentário de Diogo Varela Silva retrata Lisboa através de Orlando Jesus, pugilista.

A comparação com o filme Belarmino (1964), de Fernando Lopes, surge quase inevitável: outro pugilista, outra Lisboa, outro filme onde o boxe é apenas a superfície de qualquer coisa maior. Diogo Varela Silva não foge à referência. “Nem um nem outro são filmes de boxe”, afirma. No caso de Fernando Lopes, diz, o filme mostrava “o país em que vivíamos; o atraso de vida, as limitações, a vida do Belarmino, que era um miserável.” Orlando também nasce desse tempo, mas o arco é diferente. “Foquei-me mais no que era a cidade, a vida, e na superação, que é uma coisa que o Belarmino nunca conseguiu, infelizmente.” Há uma frase no filme que o realizador destaca: “Felizmente veio o 25 de Abril”. E acrescenta: “A vida do Orlando reflete isso”.

A vitória do Prémio do Público Canais TVCine na 23.ª edição do , em 2025, confirmou que esta não era apenas uma história para iniciados no boxe. Quem conhecia Orlando reconheceu a figura; quem não conhecia, encontrou ali uma personagem com força narrativa suficiente para prender qualquer espectador. “As pessoas gostaram de sentir isso porque tem os ganchos todos, o arco todo de uma história com altos e baixos, conquistas, tudo o que uma história precisa para captar o interesse de quem a ouve”, diz Diogo Varela Silva. O público reagiu ao homem e à cidade, às duas coisas ao mesmo tempo; ao pugilista que atravessou a vida a defender-se e a atacar, e à Lisboa que o formou antes de começar a desaparecer.

Essa Lisboa também se ouve. A banda sonora, assinada por Iúri Oliveira e André Júlio Turquesa, ajuda a construir o tempo do filme sem o embalsamar. “[Iúri Oliveira] conseguiu um som identificável dos anos 70 mas que tinha um som de uma Lisboa mais portuguesa”, explica o realizador. A mistura parece improvável e certeira: “A junção do funk dos anos 70 de Nova Iorque com a guitarra portuguesa”. É uma Lisboa com batida, nervo e sombra, longe do postal antigo e longe da cidade higienizada. Uma cidade que não pede licença para existir.

Se o desfiarmos, Soco a Soco não tenta salvar Orlando Jesus do tempo, nem transformar Lisboa numa relíquia sentimental. Faz algo mais difícil. Olha para ambos com intimidade e imperfeição. Filma um homem que podia ter sido só pugilista, mas é mais do que isso; filma uma cidade que podia ter sido só cenário, mas é também personagem. Entre a Musgueira, a Ajuda, os ginásios, as noites e o País que mudou depois de Abril, Diogo Varela Silva encontra uma história de fuga, queda, resistência e memória. Não uma memória perfeita, mas uma com marcas, como um rosto depois de um combate.

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