A história de Artur Alves dos Reis, autor de uma das maiores fraudes financeiras do século XX em Portugal, vai ganhar uma nova adaptação internacional. Segundo a Variety, já arrancaram as filmagens de The Man Who Stole Portugal, produção norte-americana inspirada no caso real que abalou a economia portuguesa em 1925 e teve repercussões políticas profundas no país.
O filme será realizado por Thomas Napper, conhecido por Viúva Clicquot (2023), e conta com James Nelson Joyce no papel principal de Alves dos Reis. O elenco inclui ainda Richard E. Grant, Dominic West (parte do elenco da aclamada série The Wire, da HBO), Kim Bodnia e Joel Fry. A produção será filmada no Reino Unido, em Portugal e na África do Sul, acompanhando o percurso da personagem entre Lisboa, Angola colonial e Londres.
De acordo com o mesmo meio, o argumento é assinado por Richard Galazka e baseia-se no livro The Man Who Stole Portugal, publicado originalmente em 1953 pelo jornalista e escritor Murray Teigh Bloom. Thomas Napper descreveu Alves dos Reis como “um outsider” que procurava “segurança, respeito e um futuro para a família”, acrescentando que a história continua atual num contexto em que “muitas pessoas sentem que o sistema está fechado”.
O filme é apresentado como uma comédia negra de assalto e fraude financeira, centrada num homem que percebeu que “forjar um contrato para imprimir dinheiro era mais fácil do que falsificar o próprio dinheiro”, como afirmou o produtor Terry Smith à Variety. A publicação sublinha ainda o paralelismo estabelecido pela produção entre o caso português e as crises financeiras mais recentes, incluindo o período posterior a 2008 e a pandemia de Covid-19.
Apesar de The Man Who Stole Portugal ser uma das maiores produções internacionais sobre o tema, a figura de Artur Alves dos Reis já tinha sido retratada anteriormente em Portugal. Em 2000, a RTP exibiu a série Alves dos Reis, um Seu Criado, escrita por Francisco Moita Flores e protagonizada por Rui Luís Brás. A produção, com 50 episódios, dramatizava a ascensão social e o esquema financeiro do burlão, acompanhando o impacto do caso na sociedade portuguesa.
A série foi apresentada como uma recriação “da maior falsificação de dinheiro alguma vez feita em Portugal”. Também o cinema e a televisão europeia tocaram pontualmente no caso ao longo das décadas, incluindo adaptações italianas e checoslovacas.
Nascido em Lisboa em 1896, Artur Virgílio Alves dos Reis começou por falsificar um diploma universitário antes de viajar para Angola, então colónia portuguesa, onde iniciou uma carreira marcada por esquemas financeiros e manipulação documental. A sua fraude mais célebre surgiu em 1925, quando conseguiu convencer a gráfica britânica Waterlow & Sons - responsável pela impressão oficial de notas portuguesas - a produzir milhares de notas legítimas de 500 escudos com base em contratos falsificados. O esquema chegou a introduzir no mercado uma quantidade de dinheiro equivalente a cerca de 1% do PIB português da época.
A burla provocaria uma crise de confiança no sistema financeiro e político português, abalando o Banco de Portugal e contribuindo para a instabilidade que antecedeu o golpe militar de 1926 e a posterior ascensão do Estado Novo. Alves dos Reis foi condenado a 20 anos de prisão em 1930. Morreu em 1955, permanecendo até hoje como uma das figuras mais controversas e fascinantes da história criminal portuguesa.