Oito décadas de Stallone, o ator que teve de escrever o seu lugar em Hollywood
Da infância difícil em Nova Iorque aos fenómenos "Rocky" e "Rambo", Stallone chega aos 80 anos como uma das figuras mais reconhecíveis e contraditórias do cinema popular americano.
Sylvester Gardenzio Stallone nasceu em 1946Charles Sykes/Invision/AP
Na história da indústria cinematográfica há atores que envelhecem, que se reformam, atores cuja carreira acabou por não sobreviver à mudança dos tempos, e há Sylvester Stallone, que esta segunda-feira chega aos 80 anos como quem ainda espera ouvir a campainha para o último assalto. Poucos atores ficaram tão associados às personagens que criaram. Rocky Balboa e John Rambo não foram apenas papéis centrais na sua filmografia, tornaram-se arquétipos culturais, atravessaram gerações e, em alguns momentos, confundiram-se com a própria perceção pública do ator.
Stallone nasceu em Nova Iorque, em 1946, e cresceu entre o bairro de Hell’s Kitchen (Nova Iorque), o estado do Maryland e Filadélfia. Uma complicação no parto, com uso de fórceps, provocou-lhe danos nervosos no rosto, deixando-o com a fala arrastada e uma expressão facial que mais tarde se tornaria uma das suas marcas. Antes de ser uma assinatura cinematográfica, foi um obstáculo. O ator teve uma infância instável, marcada pelo conflito entre os pais, por dificuldades escolares e por períodos em casas de acolhimento. Depois de estudar teatro na Suíça e na Universidade de Miami, mudou-se para Nova Iorque para tentar ser ator.
O início foi feito de trabalhos ocasionais e pequenas aparições. Stallone limpou jaulas no Central Park Zoo, em Nova Iorque, trabalhou como arrumador num cinema e surgiu em papéis não creditados em filmes como Bananas, de Woody Allen, e Klute, de Alan J. Pakula. Antes disso, em 1970, participou em The Party at Kitty and Stud’s, filme adulto softcore que seria relançado anos mais tarde, já depois do sucesso de Rocky, com o título The Italian Stallion. O episódio acompanhou-o durante toda a carreira mas Stallone sempre o enquadrou como uma decisão tomada num período de extrema precariedade.
A viragem chegou quando Stallone percebeu que dificilmente Hollywood lhe daria, por iniciativa própria, o papel que procurava. Em entrevistas, explicou que os diretores de casting o viam sobretudo como figurante de ameaça, criminoso ou “capanga”, em parte devido à voz e ao rosto. Foi nesse contexto que começou a escrever. Em entrevista à American Association of Retired Persons (AARP), disse que chegou a dormir onde podia, incluindo no terminal rodoviário Port Authority, em Nova Iorque, e aceitou um emprego de 35 dólares por semana - cerca de 31 euros, ao câmbio atual - como arrumador num cinema, para poder ver filmes repetidamente e perceber como funcionavam.
Rocky nasceu dessa tentativa de criar uma oportunidade à sua medida. O argumento sobre um pugilista de Filadélfia, limitado mas persistente, que recebe uma oportunidade improvável de combater pelo título mundial, interessou a produtores que inicialmente preferiam comprar o texto e entregá-lo a outro ator. Stallone recusou vender o argumento se não pudesse protagonizá-lo. O filme, realizado por John G. Avildsen e estreado em 1976, tornou-se um sucesso crítico e comercial. Recebeu dez nomeações aos Óscares e ganhou três: Melhor Filme, Melhor Realização e Melhor Montagem. Stallone foi nomeado como Melhor Ator e Melhor Argumento Original, feito raro para um ator ainda praticamente desconhecido.
O triunfo de Rocky resolveu um problema e criou outro. Stallone passou a ser uma estrela, mas também ficou imediatamente identificado com uma personagem que condensava muito da sua própria narrativa pública; o homem subestimado, fisicamente marcado, que vence por resistência. Ao longo dos anos seguintes, tentou diversificar-se em filmes como F.I.S.T. - O Punho, A Taberna do Inferno e Os Falcões da Noite, mas o público e a indústria continuaram a reenviá-lo para o território do corpo em esforço, do confronto e da sobrevivência.
Foi aí que surgiu John Rambo. Em Rambo: A Fúria do Herói (1982), Rambo era um soldado veterano do Vietname, traumatizado e rejeitado pela sociedade civil. O primeiro filme tinha uma dimensão sombria e política que as sequelas viriam a simplificar. Com Rambo II - A Vingança do Herói e Rambo III, a personagem aproximou-se do imaginário patriótico e musculado dos anos Reagan, transformando Stallone num dos rostos centrais do cinema de ação dos anos 80.
Essa década ficou também marcada pela rivalidade com Arnold Schwarzenegger. Os dois atores competiam por bilheteira, estatuto físico e domínio do género. Anos mais tarde, ambos admitiram que a rivalidade foi real e excessiva. Schwarzenegger disse que os dois tentavam superar-se em tudo - corpo, armas, número de mortes em cena - e que chegaram a tentar “descarrilar” a carreira um do outro. A relação acabaria por mudar com o tempo. Tornaram-se amigos, parceiros no Planet Hollywood e colegas em filmes como Os Mercenários (2010) e Rota de Fuga (2013).
A carreira de Stallone também conheceu quebras significativas. Nos anos 1990, alternou sucessos comerciais como Assalto Infernal (1993) e O HomemDemolidor (1993) com fracassos críticos e tentativas pouco felizes de comédia, como Para ou a Mamã Dispara (1992). Em 1997, Copland - Zona Exclusiva, de James Mangold, tentou reposicioná-lo como ator dramático, ao lado de Robert De Niro, Harvey Keitel e Ray Liotta. A receção foi positiva, mas não chegou para afastar definitivamente a imagem do herói de ação.
O regresso começou a consolidar-se nos anos 2000 e 2010, primeiro com Rocky Balboa, depois com Rambo e, mais tarde, com Os Mercenários, saga que reuniu várias figuras do cinema de ação das décadas anteriores. Mas foi Creed: O Legado de Rocky, em 2015, realizado por Ryan Coogler e protagonizado por Michael B. Jordan, que lhe trouxe a revalorização crítica mais importante da fase tardia da carreira. Ao regressar a Rocky como mentor envelhecido de Adonis Creed, filho de Apollo Creed, Stallone recebeu a sua terceira nomeação aos Óscares e ganhou o Globo de Ouro de Melhor Ator Secundário.
Os prémios contam apenas parte da história. Stallone nunca ganhou um Óscar competitivo em nome próprio, embora Rocky tenha vencido Melhor Filme. Recebeu três nomeações da Academia — duas por Rocky, como ator e argumentista, e uma por Creed, como ator secundário —, venceu o Globo de Ouro por Creed e foi distinguido em 2025 com o Kennedy Center Honors, reconhecimento atribuído nos Estados Unidos a figuras com impacto duradouro nas artes e na cultura americanas.
A carreira teve também polémicas. Em 2007, Stallone declarou-se culpado na Austrália por importar ilegalmente 48 frascos de hormona de crescimento humano, pedindo posteriormente desculpa pelo caso. Mais recentemente, tem mantido uma disputa pública sobre os direitos da saga Rocky, que permanecem ligados ao produtor Irwin Winkler. Stallone, que criou a personagem e escreveu vários filmes da série, criticou publicamente Winkler e afirmou que gostaria de recuperar pelo menos parte dos direitos sobre o universo que ajudou a criar.
Nos últimos anos, Stallone aproximou-se também de Donald Trump. Em novembro de 2024, num evento em Mar-a-Lago, comparou Trump a uma figura “mítica” e chamou-lhe um “segundo George Washington”. Em janeiro de 2025, Trump anunciou Stallone, Mel Gibson e Jon Voight como “embaixadores especiais” para Hollywood, embora as funções concretas desses cargos tenham permanecido pouco claras.
Aos 80 anos, Stallone continua ativo. A série Tulsa King prolongou a sua presença televisiva e o interesse em torno da sua vida mantém-se vivo, seja através de documentários, projetos biográficos ou da discussão persistente sobre Rocky. A sua carreira não cabe apenas na ideia de “estrela de ação”. Stallone foi também argumentista, realizador, produtor e uma figura que percebeu cedo que, para existir em Hollywood, teria de criar a sua própria mitologia. O resultado é uma filmografia irregular, por vezes excessiva, mas incontornável na história do cinema popular americano.