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Mel Brooks, 100 anos a rir da morte

O actor e realizador norte-americano fez 100 anos a 28 de junho. Filho de imigrantes judeus, veterano da Segunda Guerra Mundial e mestre da paródia, transformou a comédia num acto de sobrevivência.

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Brooks na estreia de "Mel Brooks: The 99 Year Old Man!"
Brooks na estreia de "Mel Brooks: The 99 Year Old Man!" Richard Shotwell/Invision/AP

Mel Brooks chegou aos 100 anos com uma pontaria rara, a de quem passou a vida a transformar medo, perda, ridículo e poder em matéria de riso. Nascido Melvin Kaminsky, a 28 de junho de 1926, em Brooklyn, Nova Iorque, o actor, argumentista, compositor, produtor e realizador norte-americano atravessou praticamente todo o século XX artístico dos Estados Unidos - da comédia judaico-americana dos Catskills (o local onde terá nascido a comédia stand-up) à televisão ao vivo, de Hollywood à Broadway, dos discos de humor aos prémios que o tornaram um dos 28 artistas com Emmy, Grammy, Óscar e Tony (EGOT).

A biografia ajuda a perceber o tom. Brooks era o mais novo de quatro irmãos, filho de imigrantes judeus europeus, e perdeu o pai, Max Kaminsky, quando tinha apenas dois anos. Cresceu em Williamsburg e Brownsville, em Brooklyn, entre a pobreza da Grande Depressão, a rua, os insultos e uma necessidade quase física de se fazer ouvir.

Antes de ser comediante, foi baterista; antes de dominar o ritmo de uma piada, aprendeu o ritmo literal, com aulas ligadas ao baterista Buddy Rich. Mais tarde, esse sentido percussivo tornar-se-ia parte do seu estilo: frases rápidas, repetições, interrupções, explosões, uma energia que parecia sempre prestes a sair dos carris, mas raramente perdia o compasso.

A guerra interrompeu a juventude. Brooks serviu no Exército norte-americano durante a Segunda Guerra Mundial, em França e na Alemanha, e integrou uma unidade de engenharia responsável por missões perigosas, incluindo a limpeza de minas. Essa experiência nunca foi apenas uma nota lateral na sua vida. Ajuda a explicar a insistência com que ridicularizou nazis, ditadores, racistas e figuras de autoridade. Para Brooks, rir de Hitler não era uma provocação vazia; era uma forma de lhe retirar solenidade, medo e grandeza. A frase que lhe é tantas vezes associada - "a comédia como o contrário da morte" - não funciona, nele, como aforismo, antes uma regra de sobrevivência.

Depois da guerra, veio o circuito dos resorts judaicos dos Catskills, o chamado Borscht Belt, onde Brooks começou a actuar perante públicos que reconheciam o seu humor, o seu sotaque, a sua velocidade e o seu gosto pelo exagero. A seguir, a televisão. O ator Sid Caesar contratou-o para escrever em Your Show of Shows, uma das lendárias salas de argumentistas da televisão norte-americana.

Por ali passaram, entre outros, Carl Reiner, Larry Gelbart, Neil Simon e Woody Allen. Era uma geração marcada pela guerra, pela imigração, pela cidade, pela oralidade, pela cultura judaica e por um sentido de absurdo que vinha tanto da inteligência como da experiência histórica. Foi nesse ambiente que Brooks encontrou Carl Reiner, talvez a amizade decisiva da sua vida artística.

Os dois criaram The 2000 Year Old Man, uma personagem que permitia a Brooks improvisar como se tivesse visto tudo: Moisés, Jesus, Roma, o mundo inteiro e, no fundo, a estupidez humana repetida ao longo dos séculos.

Reiner fazia as perguntas; Brooks inventava a História de novo. A dupla começou como brincadeira privada e tornou-se uma referência da comédia gravada. Mais tarde, já idosos, os dois mantiveram um ritual doméstico que parecia saído de uma sitcom sobre a própria memória da comédia americana: jantar juntos e ver televisão, noite após noite.

Em 1967, Brooks estreou-se na realização com (The Producers), uma comédia que parecia impossível: dois produtores decidem montar o pior musical de sempre, Springtime for Hitler, para enriquecer com o fracasso. O filme foi recebido com desconforto, alguma incompreensão e, depois, culto. Deu-lhe o Óscar de melhor argumento original e apresentou ao mundo uma das suas alianças criativas mais importantes: Gene Wilder.

Wilder seria uma espécie de contraponto perfeito para Brooks; mais frágil, neurótico, elegante, capaz de transformar histeria em melancolia. Trabalharam juntos em O Falhado Amoroso, (Blazing Saddles) e Frankenstein Júnior (Young Frankenstein), este último co-escrito por ambos e talvez o exemplo mais refinado do talento de Brooks para parodiar amando aquilo que destrói.

O ano de 1974 cristalizou a sua lenda. Primeiro veio Balbúrdia no Oeste, western anárquico que atacava o racismo, os clichés de Hollywood e a própria construção mítica do Oeste americano. Depois, Frankenstein Júnior, filmado a preto e branco, com Gene Wilder, Marty Feldman, Teri Garr, Cloris Leachman, Madeline Kahn e Peter Boyle. Num caso, Brooks fazia explodir a forma; no outro, demonstrava que também sabia respeitá-la. A sua paródia nunca foi apenas citação ou gozo, era uma forma de desmontar os mecanismos do género, mostrar os seus tiques e, ao mesmo tempo, provar que continuava apaixonado por eles.

Seguiram-se A Última Loucura de Mel Brooks (1976), (1977), (1981), (1987), (1993) e (1995), com resultados desiguais, mas sempre reconhecíveis. O cinema de Brooks vive de uma tensão difícil: é grosseiro e culto, popular e cheio de referências, caótico e rigoroso, infantil e profundamente adulto. A piada física, o trocadilho, a caricatura, o número musical e a quebra da quarta parede convivem com Gogol, Dostoiévski, Hitchcock, James Whale, os musicais da Broadway, a memória do Holocausto e a televisão ao vivo. O seu génio está precisamente nesse curto-circuito.

Brooks também soube desaparecer quando era preciso. Produziu , de David Lynch, mas retirou o nome dos créditos para que ninguém pensasse tratar-se de uma comédia, deixando em evidência o seu génio e altruísmo artístico. O homem que fez carreira a interromper o tom sabia, melhor do que muitos, quando não o devia fazer.

A vida pessoal atravessa a obra sem a domesticar. Brooks foi primeiro casado com Florence Baum, com quem teve três filhos: Stefanie, Nicky e Eddie. Em 1964, casou-se com Anne Bancroft, atriz oscarizada por O Milagre de Anne Sullivan e eternizada no imaginário popular como Mrs. Robinson, de A Primeira Noite.

O casamento de Brooks e Bancroft durou 41 anos. Bancroft morreu em 2005

Ficaram juntos até à morte desta, em 2005, e tiveram um filho, Max Brooks, autor de Guerra Mundial Z. Bancroft foi companheira, cúmplice e, segundo Brooks reconheceu várias vezes, uma força decisiva na sua vida. A sua perda, como a de Carl Reiner e de Gene Wilder, pertence ao lado mais ruidoso da sua biografia; um homem rodeado por uma família artística que, pouco a pouco, foi desaparecendo.

Essa família era também uma linhagem dourada. , filho de Carl Reiner, cresceu num ambiente no qual Mel Brooks, Sid Caesar, Norman Lear ou Groucho Marx podiam aparecer em casa como se fossem vizinhos. O que hoje parece uma reunião impossível era, para aquela geração, uma rede de trabalho, amizade e influência. Brooks não é apenas um nome isolado, é parte de uma constelação que ajudou a definir a comédia americana moderna, a televisão de sketch, a sátira judaico-americana, a paródia cinematográfica, a irreverência política e o humor como resposta à solenidade do poder.

A consagração chegaria em várias frentes. O Falhado Amoroso regressou décadas depois como musical da Broadway e venceu 12 prémios Tony , um recorde. Recebeu ainda o Kennedy Center Honors, o prémio AFI Life Achievement - o prémio carreira que distingue atores e realizadores -, a National Medal of Arts e, já nonagenário, um Óscar honorário. O centenário, celebrado este domingo, foi acompanhado por nova atenção pública: o documentário Mel Brooks: The 99 Year Old Man!, realizado por Judd Apatow e Michael Bonfiglio, voltou a colocar a sua vida, as amizades e a obra no centro da conversa.

Aos 100 anos, Mel Brooks permanece uma figura difícil de arrumar. Não é apenas o autor de piadas ofensivas que sobreviveram ao tempo; é o artista que percebeu que a comédia pode ser uma forma de memória, vingança, ternura e desobediência. Fez da vulgaridade uma arma contra a pompa, da paródia uma crítica ao cinema que amava, da gargalhada uma resposta à História. Talvez por isso a sua obra continue viva, porque, por baixo do caos, sempre houve uma ideia muito séria.

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