Fundação leva literacia financeira às escolas: "Estamos a criar uma geração de consumidores responsáveis"
Com o programa "No Poupar Está o Ganho" a Fundação Cupertino Miranda já levou aulas de literacia financeira a cerca de 150 mil alunos pelo País fora.
A Fundação António Cupertino de Miranda encerra este sábado mais um ciclo do programa "No Poupar Está o Ganho", iniciativa que, ao longo de 16 edições, já impactou cerca de 150 mil alunos de norte a sul do país através de iniciativas que promovem a literacia financeira.
Inês Cupertino de Miranda, administradora da Fundação, explica à SÁBADO que a iniciativa nasceu a partir do trabalho que a fundação fazia no seu museu onde tem a maior exposição de notas que circulavam em Portugal e nas antigas colónias. Mas devido à preocupação sobre o impacto que tinham na sociedade, em 2008 a fundação fez uma parceria com a Universidade do Porto para perceber como podia impactar de forma positiva a vida das pessoas. "Melhorar a vida das pessoas sempre foi um dos princípios desta fundação", assegura Inês Cupertino de Miranda.
Nessa parceria, a fundação e a universidade concluíram que muitas das pessoas não tinham informação suficiente para "tomar boas decisões relativamente ao dinheiro que tinham". A partir desses dados, a fundação decidiu que seria importante avançar com um programa para ensinar as pessoas a gerir dinheiro que envolvesse alunos, professores e encarregados de educação.
"Sabemos que muitas vezes as questões financeiras são muito técnicas e há pessoas com dificuldade a perceber e o nosso principal objetivo passou a ser dar ferramentas para que fosse mais fácil entender essas questões de dinheiro, começando pelas crianças, sem esquecer as suas famílias."
Com o apoio da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, a fundação desenvolveu recursos pedagógicos e ações de formações para docentes que começou a trabalhar em zonas mais pobres do Porto. Isto foi em 2011. "Muitas vezes chegávamos às escolas e os professores diziam que não tinham espaço no currículo para discutir a literacia financeira", recorda a administradora.
"A verdade é que rapidamente percebemos que havia um impacto gigantesco na vida das famílias. As crianças começavam a querer participar nas compras das famílias, a perceber como eram tomadas as decisões financeiras, a negociar as suas necessidades e desejos e a partilhar técnicas de poupança que aprendiam no programa com os pais." O projeto foi crescendo e o Governador do Banco de Portugal chamou a fundação para que esta ajudasse a desenvolver um projeto de literacia financeira.
"Foi muito gratificante quando nos falaram do impacto nas famílias. As famílias percebem que primeiro têm de pagar necessidades e só depois pode pensar se tem dinheiro para as outras coisas. E por vezes até querem dar coisas que os filhos querem e são as próprias crianças que questionam os pais sobre se têm essa possibilidade."
E nos últimos 16 anos a literacia financeira ganhou terreno até nas escolas. É parte essencial da disciplina de Cidadania, do 1.º ao 12.º ano, os professores têm formação específica para abordar este tema e é um tema amplamente discutido a nível não só social, mas também político.
O Boletim Económico do Banco de Portugal - parceiro da Fundação António Cupertino de Miranda neste programa - ressalva que a literacia financeira, além de promover o bem-estar, promove também a igualdade de oportunidades. E um estudo encomendado pela fundação à Faculdade de Psicologia do Porto em 2016 concluiu que os alunos adquiriram conhecimentos financeiros e passaram a dominar conceitos como "necessidades, bens supérfluos orçamento, poupança, planeamento" e até o que é uma situação de fraude.
Este último ponto, das fraudes, tem ganhado cada vez mais relevância à medida que crescem as fraudes digitais e as promessas vãs de influenciadores financeiros que prometem enriquecimento rápido através de esquemas em pirâmide e a partilhar dicas financeiras por parte de pessoas que não têm autorização para o fazer (e muitas vezes nem o conhecimento detém). "Sim, tem sido uma preocupação nossa e do Banco de Portugal alertar para essa realidade cada vez mais crescente", assegura Inês Cupertino Miranda. "Como a literacia financeira está na ordem do dia, surgem pessoas que querem tirar partido da situação e aproveitar-se dos mais desinformados. Mas estamos a atacar esse problema.
Ao longo de duas décadas, a Fundação António Cupertino de Miranda levou programas de literacia financeira a turmas desde o pré-escolar até ao ensino secundário, aprendendo os alunos conceitos de poupança, gestão de orçamento, risco e objetivos de vida.
A edição deste ano contou com a participação de mais de 34.000 alunos, distribuídos por mais de 150 municípios de norte a sul do país. Ao longo do ano, as turmas são desafiadas a criar um projeto prático que aplique os conhecimentos adquiridos.