Suborno, telefonemas de presidentes e desaparecimentos: a outra vez em que a FIFA levantou uma suspensão a um jogador
Garrincha, o mágico da perna curta, foi suspenso na meia-final do mundial de 1962. Mas pressões do presidente Chileno, da associação brasileira de futebol e um suborno fizeram com que pudesse jogar a final.
Foi, até agora, a maior polémica do Mundial de 2026: o avançado dos EUA Folarin Balogun recebeu autorização para jogar frente à Bélgica depois de ter sido expulso frente à Bósnia nos 16 avos de final do Mundial'2026. A Casa Branca deu início a manobras jurídicas e diplomáticas junto da FIFA e na quinta-feira Donald Trump ligou a Infantino para questionar as regras da Federação Internacional em relação aos cartões vermelhos. No final destas manobras, a decisão foi levantar a suspensão do avançado norte-americano. Tinha acontecido apenas uma vez na história dos Mundiais: em 1962, durante o Mundial do Chile. Em causa a suspensão de uma das maiores lendas de sempre do futebol: Garrincha, o driblador mágico com uma perna mais curta do que a outra.
Em 1962, durante a meia-final, Garrincha foi expulso aos 87 minutos no jogo entre o campeão em título (o Brasil tinha vencido o mundial de 1958 e procurava a segunda vitória consecutiva na então curta história dos Mundiais) e a equipa da casa. Relatos da época referem que o jogador-estrela daquele campeonato foi alvo de uma sucessão de faltas e que, exaurido, aplicou um pontapé ao chileno Rojas e foi mais cedo para o balneário, a mando do árbitro Arturo Yamasaki. Naquele período, não havia suspensão automática. Quando um jogador era expulso, era realizada uma avaliação para determinar a punição a ser aplicada ao atleta. O resultado da avaliação foi claro: Garrincha não jogaria na final. De acordo com o The Guardian, depois do jogo, Garrincha chorou no balneário, mas disse que aceitaria as consequências.
Foi aí que a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) - antecessora da CBF, se pôs em campo para levantar a suspensão. O comité disciplinar da FIFA reuniu e chamou um dos árbitos para prestar depoimentos. Mas reza a história que o árbitro peruano Arturo Yamazaki recebeu uma chamada do presidente do seu país (Manuel Prado Ugarteche) para que desvalorizasse a agressão. Mas havia ainda um árbitro (um fiscal de linha) que tinha assistido ao pontapé sobre Rojas, o uruguaio Esteban Marino, e que não apareceu para depor. Segundo o jornalista brasileiro Argeu Affonso, em declarações ao Guardian, o desaparecimento parecia uma coisa digna de um mistério de Agatha Christie. Mas o mistério foi afinal o árbitro ter recebido um suborno para não aparecer no depoimento.
Sem o testemunho de Marino, a FIFA decidiu não suspender Garrincha, que jogou na final contra a Checoslováquia e venceu o torneio.
Terá sido o árbitro brasileiro John Etzel que recebeu 10 mil dólares da CBD para pagar a Marino para não aparecer. Etzel chegou mesmo a gabar-se: "Fui eu que ganhei a Copa". E relatos mais recentes contam uma história ainda mais recambolesca: Etzel só entregou metade do dinheiro a Marino e ficou com os restantes 5.000 dólares.