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Rodrigo Koxa: “Vejo-me a surfar nas ondas da Nazaré com 70 anos”

Há 30 anos que o brasileiro Rodrigo Koxa anda pelo mundo à procura das maiores ondas e já teve um recorde. A que surfou na Praia do Norte no final do ano passado foi "perfeita, a mais linda”. E este fim de semana valeu-lhe o prémio de Maior Onda Masculina.

Rodrigo Koxa ganhou este fim de semana o prémio de Maior Onda Masculina, no Big Wave Challenge, pela segunda vez na carreira. Trata-se de uma onda surfada a 19 de dezembro de 2025, na Praia do Norte, na Nazaré, que recebeu uma medição preliminar de 29,15 metros. Caso a marca seja confirmada e homologada, o brasileiro poderá superar os 26,21 metros do alemão Sebastian Steudtner, atual detentor do recorde mundial. Recuperamos esta entrevista, originalmente publicada a 21 de janeiro de 2026.

Rodrigo Koxa, de 46 anos, fotografado pela SÁBADO no Surfer Wall do forte da Nazaré, onde estão as pranchas dos big riders
Rodrigo Koxa, de 46 anos, fotografado pela SÁBADO no Surfer Wall do forte da Nazaré, onde estão as pranchas dos big riders Carlos Barroso

Garrett McNamara recebeu em 2012 o prémio do Guiness por ter surfado a maior onda do mundo, um monstro de água de 23,8 metros, que ele “domou” na Praia do Norte, na Nazaré. O brasileiro Rodrigo Koxa, big rider desde os 15 anos, que em 2010 conseguira o recorde para a maior onda da América do Sul (21 metros, no Chile), e já tinha estado no Tahiti, Havai, Indonésia, ilha da Páscoa, México, África do Sul, EUA, ao ver as imagens do seu ídolo de infância naquele mar gigante, ficou doido. “Estava na Califórnia e pensei: tenho de ir lá”.

Koxa conheceu as ondas da Nazaré em 2013 e desde aí não falhou um ano. Em 2017, chegou aos 24,38 metros e bateu ali o máximo de McNamara; em 2020, perdeu esse recorde para o alemão Sebastian Steudtner (26,1 metros); mas agora poderá recuperá-lo, pois a 19 de dezembro surfou, na Praia do Norte, uma onda que terá quase 30 metros – os resultados deverão ser anunciados em abril ou maio.

“A onda mais linda”

“Aquela foi a onda da minha vida, foi perfeita, a mais linda que já surfei na Nazaré”, começa por dizer Rodrigo Koxa à SÁBADO. “Foi uma onda muito sólida, muito quadrada, que surfei até à base. Se eu caio a consequência seria horrível, porque estava com uma potência incrível. Aliás, a onda fez um tubo gigante e a única estratégia que tive para ela não me explodir foi no final ir para dentro do tubo”.

Esta onda, continua, “fez a magia perfeita do canhão da Nazaré”, um fenómeno que acontece quando se juntam numa só duas ondas de 10 ou 15 metros. “Foi colada na pedra, em frente ao farol, encontrou uma superfície rasa e por isso é que fez aquele tubo gigante. E à medida que eu ia descendo, foi aumentando de tamanho, ficando mais vertical, mais forte e mais rápida, sempre crescendo, crescendo. Houve ali um grau de risco muito grande. Tanto que quando vou a descer pensei: ‘Nossa, ela vai-me engolir, estou frito’”.

O que o salvou, diz, foi ter começado a surfar no topo, porque ganhou velocidade. “Imagino que ia a descer a mais de 80 km/h. E foi graças a essa velocidade que fugi da onda, porque se não tivesse vindo lá de cima, se não tivesse aproveitado a energia da onda, não teria conseguido”.

Uma prancha com chumbo

Rodrigo usou uma prancha especial para a onda gigante da Nazaré, com 9,5 kg (uma “normal” pesa 2 ou 2,5 kg). “Podemos colocar até 7 kg de chumbo. A prancha fica ali quase a afundar, só com o bico fora de água. Do meio para trás é revestida em carbono, para ficar mais rígida e não vibrar tanto, para não perder velocidade. Já do meio para a frente é revestida de fibra, para ficar mais flexível, porque a onda bate muito”.

O peso das pranchas varia conforme o tamanho das ondas, podendo ter 3 ou 4 kg se o mar estiver médio, entre 5 e 7 com ondas grandes e chegar aos 9 kg nas gigantes. Estas pranchas estão sempre num armazém que Rodrigo tem na Nazaré, pois não dão para usar no Brasil. 

"Fico cá entre novembro e março, até porque tenho um projeto no YouTube (GoBigger Team) que conta a história da Nazaré para um público também fora do surf. Houve aqui uma grande mudança, até ao nível económico. Eu às vezes venho no avião e há turistas brasileiros e americanos a dizerem que vêm à Nazaré, e que depois aproveitam e vão a Fátima, a Óbidos, ao Porto. Nos dias de ondas grandes estão 50 mil pessoas no forte, aquilo parece um estádio".

Esperar pela onda certa

“A experiência é fundamental” para se ter sucesso nas ondas grandes, nota. “Tenho total noção do perigo. Surfo há muitos anos e eu e a minha equipa acabámos por escolher bem as ondas. No dia em que surfei essa onda que pode dar recorde, essa foi a única. Fiquei ali no mar à espera, com paciência. Costumo dizer ao meu parceiro, o Vitor [Faria], que está comigo há mais de 20 anos, que se não vier uma onda boa, não pego nenhuma. Prefiro isso a apanhar uma má e cair. Só vou arriscar se a onda for boa. Não me vejo como um maluco que está ali desesperado para bater um recorde”.

Um monstro de 29,15 metros?

Desde jovem que Rodrigo Koxa sempre se moveu por dois sonhos: ganhar o prémio XXL Big Wave, o Óscar para a maior onda do ano; e conseguir o recorde da maior de sempre. “Na década de 90 não havia recorde, isso chegou em 2004. O primeiro foi o Pete Cabrinha, que em Jaws [Havai] surfou uma onda de 21,3 metros. Depois foi o Mike Parsons, em Cortes Bank [Califórnia], em 2008, que chegou aos 23,5 metros. E a partir daí começa o ‘reinado’ da Nazaré, o primeiro foi o McNamara, em 2011, um recorde que eu consegui quebrar”.

E será que o monstro de água que surfou a 19 de dezembro pode chegar perto dos 30 metros? “Há já uma especulação muito sólida e todas as medições dão mais de 26 metros [o anterior recorde, de Sebastian Steudtner]. O Bill Sharp, o criador dos XXL Big Wave Awards, estipulou que poderá ter 95 pés [28,9 metros]. O Paulo Vinicius, publicitário e designer gráfico, apontou para 29,15 metros. Ele seguiu o método do carrossel, em que tem a escala da minha perna do pé ao joelho, que mede 53 centímetros, e depois faz a medição com uma foto da onda, vê quantas pernas cabem no tamanho da onda. Mas temos de esperar que acabe a época das ondas grandes, em março, para que o Guiness faça as medições e publique os resultados”.

Uma equipa que é a F1 do surf

Além da experiência ser fundamental para se ter sucesso nas ondas grandes, Rodrigo Koxa aponta ainda a importância de ter uma equipa. “Não dá para surfar nas ondas grandes sozinho. Se não tivesse um piloto que me leva à onda e que faz o resgate no jet ski; se não tivesse o spotter que me diz, via rádio, como está a onda; se não tivesse os cinegrafistas bem posicionados, para depois poder mostrar as imagens; se não tivesse toda essa estrutura, essa onda podia ser só uma história contada por pescadores”.

A sua equipa, GoBigger, tem Rodrigo Koxa e Vitor Faria como surfistas, e inclui mais cinco elementos. Ele decidiu criar essa estrutura depois de ter vivido um episódio traumático na Praia do Norte. “A onda da Nazaré não permite muitos erros, principalmente no resgate, porque se não for feito de forma rápida, você começa a ser arrastado para aquela parede de pedra em frente ao farol. Em 2014, eu tinha só o meu piloto. Ele não me conseguiu resgatar e eu fiquei ali a nadar sozinho. Apanhei com quatro ondas seguidas na cabeça e por milagre o mar não me jogou para as pedras, encaminhou-me para a praia, saí a tremer. Foi algo aterrador, e voltei para o Brasil com transtorno de stresse pós-traumático, tinha pesadelos e acordava a suar. Em 2015 e 2016 nem queria surfar ondas grandes, tive de fazer terapia para voltar a ter confiança. É por isso que hoje, na nossa equipa, temos três ou quatro jet skis, isto é a Fórmula 1 do surf. Assim vou mais descansado para o mar, porque se falha um, vai lá logo outro”.

O futebol e o primeiro campeonato

O gosto pelo surf começou em criança, aos 6 anos, nas praias de Guarujá (na zona de São Paulo). “Comecei ali na beirinha, com aquelas pranchas de bodyboard, e punha-me em pé. Com 8 anos, o meu pai deu-me a minha primeira prancha de surf, em fibra, e com 10 ou 11 anos comecei a entrar nos campeonatos municipais”.

Nessa altura, teve de fazer uma opção. “O meu pai sempre jogou futebol e influenciou-me muito. Eu estava em três equipas, no futsal, futebol no campo e na praia. Mas aí com 12 anos, como comecei a faltar a muitos jogos por causa do surf, tive de escolher e deixei o futebol”, conta.

Foi também com 12 anos que a sua vida mudou, quando ganhou o primeiro campeonato. “Fiquei muito feliz, mas quando estávamos a voltar da cidade onde foi a competição, reparei que no autocarro onde vinha com os meus colegas, só eu é que estava contente. Mais tarde, comecei a perceber que quando ia surfar ondas grandes com os meus amigos, todos vinham satisfeitos, porque tinham superado o desafio, tinham conseguido uma boa foto, um vídeo. Essa sensação era melhor que ter vencido um campeonato e mexeu comigo. E decidi que não ia mais entrar em competições e ia dedicar-me às ondas grandes”.

No Havai, a lavar carros e a vender relógios

Quando disse ao pai que queria ser surfista de ondas grandes, ele “achou isso muito esquisito”, até porque naquela altura (1994) “o surfista ainda era visto como um vagabundo, que não tem futuro”. Ainda assim, com 15 anos teve a sua primeira aventura fora do Brasil (no México) e com 17 anos mudou-se para o Havai, onde ficou cinco anos.

“Os meus pais apoiaram-me muito. Eu sou filho único e eles ajudavam, mas tive de trabalhar. Fazia de tudo, lavava carros, vendia pranchas, óculos, relógios, roupas, fazia o essencial para pagar as contas. Mas comecei a ter destaque nas revistas de surf, com fotos muito boas e aí comecei a ter patrocínios. Aos 24 anos já conseguia ter patrocínios que me davam para fazer viagens pelo mundo todo”.

Hoje em dia, além dos patrocínios, ganha dinheiro com as ondas grandes da Nazaré e com as palestras que dá, seja motivacionais ou de liderança, onde destaca valores como “resiliência, compromisso e trabalho de equipa”.

As origens portuguesas, a mulher e a gata

O surfista brasileiro tem raízes portuguesas, pois o avô paterno é natural de Penedono (Viseu), tendo emigrado para o Brasil para escapar à guerra colonial. O seu nome completo é Rodrigo Augusto Espírito Santo, e ele explica porque ficou conhecido por Koxa. “Quando comecei nas competições, em miúdo, era Rodrigo Espírito Santo, mas as pessoas achavam que eu era originário do estado com esse nome e diziam que eu era capixaba. Isso incomodava-me, porque eu sou paulista, e como também me chamavam ‘coxinha’, porque eu ia direto do surf para o futevólei e o corpo molhado ficava cheio de areia, como uma coxinha, uma comida brasileira frita e feita com massa empanada, passei a usar Koxa. E ficou”.

Rodrigo não tem filhos. “Até hoje nunca quis ter, tenho essa coisa meio egoísta. Claro que se vier, vou amar ele mais do que tudo, mas tenho até medo de ter um filho porque, como diz a minha mulher, eu sou um Peter Pan”.

A mulher, refere, compreende as suas longas ausências por causa do surf. Psicóloga e doutorada em Saúde Pública, sempre que pode vai ter com ele. “Era para vir cá passar o Natal e o Ano Novo comigo, mas a nossa gata teve um problema e teve de ser operada, e assim eu fui ao Brasil e voltei agora”, conta.

Surfar até ser velhinho

“Há uma coisa que eu nunca vou fazer: reformar-me. Acredito que aposentar-se é uma questão de vaidade: ‘Vou sair porque sou recordista e quero sair com um recorde’. Isso é desistir do sonho. Posso estar mais velho e saber que no meu íntimo não consigo bater o recorde do mundo. Mas posso tentar bater o máximo de uma onda surfada por um tipo de 60 ou 70 anos”.

Ou seja, com 60 ou 70 anos pode continuar nas ondas da Praia do Norte? “Vou à Nazaré e se não der para apanhar ondas de 25 ou 30 metros, se calhar dá para pegar outras um bocadinho mais pequenas. Eu vou surfar o mar que eu acho que consigo. Essa é a mentalidade”.