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Hugo Pereira: “No Bodo/Glimt só vão perceber o craque que é o Trincão quando a bola já estiver na baliza”

Carlos Torres 11 de março de 2026 às 07:00

O treinador português, há 15 anos na Noruega, explica como joga o adversário dos leões e fala da evolução que o futebol teve naquele país escandinavo.

A Roma, então treinada por José Mourinho, foi o primeiro histórico europeu a ser vítima do Bodo/Glimt, com a equipa italiana a ser goleada (6-1) na cidade de Bodo a 21 de outubro de 2021, na Liga Conferência. Na época seguinte, a equipa-sensação da pequena cidade (53 mil habitantes) da região do Círculo Polar Ártico chegou às meias-finais da Liga Europa (pelo meio, derrotou FC Porto e Sp. Braga), tendo apenas sido afastada pelo Tottenham, que iria vencer a prova.

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Francisco Trincão, jogador do Sporting
Foto: AP
Hugo Pereira já treinou três clubes na Noruega
Foto: Vítor Chi/arquivo

Na atual época, o Bodo/Glim já chegou aos oitavos de final da Liga dos Campeões, após eliminar o Inter Milão e derrotar Manchester City e At. Madrid.

Para tentar conhecer melhor os segredos desta equipa-sensação, que esta quarta-feira, dia 11, recebe o Sporting, na primeira mão dos oitavos de final, falámos com Hugo Pereira, treinador português que já esteve em três equipas norueguesas. 

Está na Noruega há bastante tempo?

Desde 2011, já lá vão quase 15 anos.

Já fala norueguês?

Sim, falo bem norueguês.

Já esteve como treinador principal ou adjunto em três clubes (Follo, Rosenborg e Ranheim), mas atualmente não está a treinar.

Estou sem clube desde 2022, quando estive no Ranheim (II Liga norueguesa), mas nos últimos três anos trabalhei com a Liga Profissional de Futebol da Noruega. Eles têm uma unidade de formação e desporto e fazemos a certificação das academias e damos formação a treinadores, foi isso que fiz nos últimos três anos. Agora estou a trabalhar na FIFA, mas continuo a viver na Noruega.

Para um português, habituado ao sol, foi uma grande mudança?

Foi, e não é só pelo sol, mas também pelas horas de luz no Inverno. Eu estou em Trondheim, é mais ao menos no meio da Noruega, mas Bodo, onde o Sporting vai jogar, tem noites quase polares, com 3 ou 4 horas de dia em dezembro e janeiro. Ali é bem mais complicado. E o frio também não é fácil, à noite pode chegar aos 10 ou 11 graus negativos. Mas eu dentro de casa aqui sinto menos o frio do que em Portugal, dá para andar descalço e de T-shirt.

Os jogadores do Sporting vão apanhar temperaturas negativas?

Quase de certeza. Poderão escapar um bocadinho à neve, mas as coisas são muito imprevisíveis e um dia antes do jogo pode haver uma tempestade de neve que cubra o campo todo, como também poderá nevar durante o jogo. Bodo é mais para cima, mais para o Norte, e na costa, é muito imprevisível. Quando a Juventus foi jogar a Bodo, eu estava lá, vi o jogo no estádio, a Juventus ganhou 3-2, foram mais maduros e venceram, mas os noruegueses jogaram olhos nos olhos. E foi um jogo com muita neve, que teve de ser interrompido várias vezes. Isso também pode acontecer com o Sporting.

Os estádios na Noruega não têm um sistema de aquecimento debaixo do relvado, para derreter a neve?

Têm, todos os sintéticos têm aquecimento subterrâneo, estão preparados para a neve e não ficam duros. O problema é quando neva muito e durante muito tempo. E foi isso que aconteceu no jogo entre o Bodo/Glimt e a Juventus, em que o árbitro teve de interromper o jogo e entraram os tratores para limpar a neve, o que causa sempre ali uma perturbação.

O Bodo/Glimt já ganhou a grandes equipas nas provas europeias, este ano bateu o Manchester City, o At. Madrid e o Inter Milão (duas vezes). Como é que se explica o sucesso de um clube que ainda em 2017 estava na II Divisão?

É curioso que em 2016 eu estava no Rosenborg, e no último jogo, em Trondheim, ganhamos 2-1 e eles desceram de divisão. Mas no ano seguinte subiram e desde aí têm feito um percurso fantástico. Foram campeões pela primeira vez em 2020 e nos últimos seis anos já têm quatro títulos de campeão. Há ali uma grande evolução, mas que não é de agora, é fruto de um trabalho muito sustentado. Basta ver que na Liga Conferência já tinha feito bons resultados.

E no ano passado chegaram às meias-finais da Liga Europa, sendo eliminados pelo futuro vencedor, o Tottenham.

Sim, o Bodo/Glimt pode ser visto como o motor do futebol norueguês em termos de ranking da UEFA, pois o país subiu de 16º para 11º no ranking e isso tem acontecido graças ao Bodo/Glimt. Os noruegueses destacam este trabalho fantástico, mas as coisas são vistas no sentido de qual vai ser o próximo passo do Bodo/Glimt, não é uma coisa que acontece de forma inesperada, é feita de forma sustentada.

Mas tem causado impacto.

Uma equipa norueguesa na meia-final da Liga Europa, a jogar olhos nos olhos com o Tottenham em Londres, não é algo comum. Isso no ano passado passou um bocado despercebido porque as pessoas olham para o Bodo/Glimt como o outsider. Mas quando fazem o que fizeram esta época na Liga dos Campeões, aí começam a ter mais atenção. E temos de nos lembrar que só chegaram à fase a eliminar porque nos últimos três jogos empataram em Dortmund, ganharam em casa ao Manchester City e foram vencer o At. Madrid. Precisavam de fazer sete pontos para seguirem e conseguiram.

Porque o início não foi bom.

Não, mas têm uma vantagem muito grande: é que a época de futebol norueguesa não é de verão a verão, começa em março e acaba em novembro. E enquanto equipas como o Manchester City ou o At. Madrid estão a meio da época em dezembro e janeiro, nesses meses os jogadores do Bodo/Glimt estavam no sul de Espanha, em Marbelha ou Benidorm, a treinar só para essas partidas, sem jogos do campeonato ou da Taça, e praticamente só vêm a Bodo fazer os jogos e voltam para Espanha, para o sol. Isso favoreceu-os muito, foi uma grande jogada do clube.

Hugo Pereira foi treinador-adjunto do Rosenborg DR

Também tem havido uma grande aposta na formação. Nos últimos jogos da Liga dos Campeões, 9 dos 11 jogadores titulares eram noruegueses e vieram da formação.

Sim, jogam juntos há muitos anos, 7, 8, 10 anos, fazem o percurso todo na academia. O Patrick Berg, um dos capitães, é um dos históricos do clube, a família dele está há muito ligada ao Bodo/Glimt, o pai e o tio e o avô jogaram lá. E há muitos jogadores noruegueses na equipa principal, serão cerca de 80% no plantel.

Esse é um dos segredos?

Tenho falado com alguns colegas, que me perguntam qual é o segredo do Bodo/Glimt, mas diria que não há propriamente um segredo, não há nada que não esteja acessível a toda a gente. Eles jogam um futebol muito simples mas bem feito, e a organização do clube tem sido assim. O treinador é o mesmo há nove anos, o diretor-geral e o diretor-desportivo são os mesmos, a direção não mudou, enfim, são as mesmas pessoas que estão nas mesmas cadeias de liderança, alinhadas umas com as outras, a fazer bem as coisas e de forma simples, a ter uma boa política de recrutamento e de formação. Isso permite-lhes apetrechar o plantel com bons recursos. Bodo é uma cidade com 50 e tal mil habitantes, o estádio leva 9 mil pessoas e têm problemas para treinar, até pelo tempo rigoroso, e se não fosse esse alinhamento nas camadas de liderança e com os jogadores, as coisas não funcionavam. É isso que os tem mantido no topo e que é a sua principal força. Portanto, o segredo é fazer as coisas bem feitas e de forma simples, mantendo as pessoas alinhadas, ali não há lutas internas sobre quem manda, se é o treinador ou o diretor-desportivo, há ali muita segurança e união.

Em 2020 e 2021 venderam os melhores jogadores, mas em 2023 e 2024 voltaram a ser campeões da Noruega.

Em 2025 não ganharam, foi o Viking, que fez uma excelente época, o Bodo/Glimt terminou em 2º. Mas tem havido uma evolução do futebol norueguês, além do Bodo há mais 3 ou 4 equipas que têm estado bem, até na Europa, e isso é importante para elevar a capacidade das outras equipas internamente. Isso está a ter frutos também na seleção, a Noruega vai voltar a um campeonato do mundo após uma ausência de 28 anos, há uma sinergia muito boa à volta do futebol norueguês que se tem alimentado muito do Bodo/Glimt.

O treinador, Kjetil Knutsen, está lá há 9 anos, mas nos 15 anos anteriores andou em clubes de divisões secundárias e era treinador em part-time, dando aulas no ensino secundário.

Sim, ele é de Bergen, esteve no Asane, fez um bom trabalho e foi recrutado para ser treinador-adjunto no Bodo/Glimt.

E tornou-se profissional a 100%?

Sim, mudou-se para Bodo e centrou-se na carreira, deixou a família em Bergen e tem sido fundamental.

Hugo Pereira analisa Trincão antes do jogo Sporting vs Bodo/Glimt Manuel de Almeida/Lusa

Li um texto sobre o Bodo/Glimt em que se referia que o seu futebol se caracteriza pela fluidez nas transições e pressão constante sem bola. Dito de forma simplista, é isso?

Sim, eles não têm jogadores que se destaquem propriamente pela sua técnica individual, são uma equipa muito assente no valor coletivo. Conhecem-se todos muito bem, jogam e treinam juntos há muitos anos e é essa a sua força. Depois, eles também fazem uma coisa interessante, que muita gente desconhece: têm um sistema de rotação dos capitães, uma coisa inovadora.

Como funciona isso?

Têm quatro ou cinco capitães na equipa e escolhem-no em função daquilo que eles pensam que é a liderança ideal para cada jogo. O Patrick Berg pode ser o capitão em casa, contra o Sporting, mas se calhar em Alvalade já é o nº 9, o avançado Kasper Hogh, ou então o nº 4, o defesa Odin Bjørntuft. O capitão de equipa no jogo em casa frente ao Inter Milão foi um, mas contra o Manchester City foi outro. Eles têm perfeita consciência do estilo e da força de liderança de cada jogador e fazem essa escolha em função dos jogos. E são os jogadores que escolhem, não é o treinador. Essa decisão está de acordo com os valores culturais da Noruega, uma sociedade sem hierarquia e em que toda a gente é ouvida.

Também contrataram um mental coach, um antigo piloto da Força Aérea.

Sim, o Bjorn Mannsverk. Têm uma série de recursos à volta da equipa que encaixaram muito bem. Tiveram a sorte e o saber de ter as pessoas certas no sítio certo e é isso que faz as coisas funcionarem.

O Bodo/Glimt pode continuar a surpreender o mundo do futebol, ou chegar aos oitavos de final da Liga dos Campeões é o limite?

Bem, eles fizeram o mais difícil, que foi conseguir sete pontos nos últimos três jogos da Fase de Liga da Champions, empatando em Dortmund e ganhando em casa ao City e fora ao At. Madrid, foi isso que lhes deu o apuramento. E agora eliminaram o Inter Milão, o vice-campeão de 2024/25, ganhando os dois jogos. Penso que esta eliminatória com o Sporting é um excelente desafio para o Bodo/Glimt, embora a comunicação social norueguesa tenha comentado que o sorteio lhes foi favorável, porque se não fosse o Sporting seria o Manchester City. Criou-se uma expectativa que o Bodo/Glimt vai ganhar ao Sporting e passar esta eliminatória e chegar aos quartos de final, mas penso que isso não é bem assim, porque o Bodo/Glimt não é superior ao Sporting, e a equipa portuguesa está bem, muito forte e sólida.

Poderão estar a subestimar o Sporting?

Não acredito que as pessoas do Bodo/Glimt pensem isso, eles são muito mais maduros do que isso. Mas acho que vão ser dois jogos super-abertos, com muitos golos e as duas equipas a jogarem olhos nos olhos.

O factor-casa, até pelo relvado sintético do Bodo/Glimt, poderá ter influência?

Não acredito muito nisso. Quantos jogadores do Sporting é que não jogaram em sintéticos nas camadas jovens? Se calhar, nas camadas jovens faziam 80% dos jogos em piso sintético.

E o frio e a neve (se houver) também podem fazer a diferença?

Pode ter alguma, mas é só um jogo. O Sporting não pode vir cá jogar como se estivesse a jogar em Espanha ou Itália, tem de se adaptar às condições. Claro que há o frio e pode haver neve, que terá alguma influência, a bola pode rolar mais rápido ou mais lento, mas o Sporting tem de, essencialmente, fazer aqui um jogo inteligente, sabendo que depois ainda há a segunda mão, em Alvalade. Ou seja, não pode vir cá a achar que vai resolver aqui a eliminatória, que se calhar foi o que fez o Inter Milão. Mas atenção, o Bodo/Glimt ganhou duas vezes ao Inter Milão, mas nas duas teve a sorte do jogo, os italianos foram superiores. O Sporting não pode é vir cá jogar a achar que está a enfrentar uma equipa que não está onde merece, porque eles chegaram aos oitavos de final da Champions com mérito.

Então, na Noruega acham que o Sporting não é favorito?

A melhor vantagem do Sporting é que os seus jogadores ainda são desconhecidos aqui. Se perguntarem a um norueguês quem é o Trincão, o Pote ou o Luis Suárez, eles não fazem ideia, apenas acompanham a Liga inglesa e os principais jogadores da seleção nos outros campeonatos europeus, como o Sorloth no At. Madrid. Eles no clube de certeza que analisaram o Sporting, mas se calhar não estão à espera da grande qualidade individual dos jogadores portugueses. Essa é a grande vantagem do Sporting, é que se calhar no Bodo/Glimt só vão perceber o craque que é o Trincão quando a bola já estiver dentro da baliza.

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