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Árbitro cruzou os braços e jogo na Luz foi interrompido: saiba como funciona o protocolo antirracismo da FIFA

Isabel Dantas 18 de fevereiro de 2026 às 10:31

Vinícius Jr diz que foi avo de um insulto por parte de Prestianni e François Letexier interrompeu a partida.

O crescente número de casos de racismo no futebol levou a FIFA a criar em 2024 um protocolo, que foi pela primeira vez implementado no Mundial feminino no mesmo ano, na Colômbia. Esse protocolo confere ao árbitro a possibilidade de tomar medidas, em função do que acontece no campo, como sucedeu ontem, no Benfica-Real Madrid , em que Vinícius Jr acusou o benfiquista Gianluca Prestianni de o apelidar de "mono", macaco em castelhano.
O árbitro François Letexier cruza os braços e interrompe a partida na Luz Lusa
Tudo aconteceu depois do golo do brasileiro do Real Madrid, que recebeu um cartão amarelo na sequência dos festejos. Pretianni disse-lhe qualquer coisa, com a camisola a tapar a boca, e, antes de ob encontro ser retomado, Vinícius foi ter com o árbitro, queixando-se de ter sido ofendido.  De imediato o juiz François Letexier cruzou os braços em forma de 'X' e interrompeu a partida. O gesto significa que o árbitro acabava de ativar o "protocolo antirracismo". Seguiram-se 10 minutos de paragem, entre os 50 e os 60 minutos, com grande confusão no campo e nos bancos das duas equipas...

Protocolo

Mas, em que consiste exatamente o protocolo antirracismo da FIFA? Desenvolve-se em três etapas. Na primeira o árbitro interrompe o jogo. A denúncia de um ato racista pode vir da vítima, do capitão de equipa, da equipa técnica, do promotor do jogo, ou pode até ser testemunhado pelo próprio árbitro. Em qualquer dos casos é emitido um aviso aos espetadores, a informar o motivo pelo qual o encontro é interrompido.
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Na segunda etapa, o jogo pode ser temporariamente suspenso se o comportamento racista em causa persistir. Estes casos acontecem, por exemplo, quando as agressões vêm dos adeptos. O árbitro ordena às equipas que recolham aos balneários. Numa terceira fase, se o comportamento persistir após o jogo ser retomado, o árbitro pode terminar o encontro, depois de consultar os agentes das forças de segurança, o delegado organizador da competição, o gestor de segurança, o coordenador de segurança e os delegados dos clubes. No caso de ontem, François Letexier usou 'apenas' a primeira etapa do protocolo, uma vez que o alegado comportamento racista não persistiu e houve condições para o jogo continuar. Mas no final as reações foram arrasadoras. Vinícius escreveu nas redes sociais que "racistas são, acima de tudo, cobardes. Precisam de colocar a camisola na boca para demonstrar como são fracos." Já o francês Kylian Mbappé, seu companheiro de equipa, considerou Prestianni um "racista de m****" e acrescentou: "Não podemos aceitar que um jogador assim jogue na Champions, não o merece. Mas vamos ver o que a UEFA decide. É um caso grave."

Histórico

Esta não é a primeira vez que Vinícius Jr se vê envolvido em casos de racismo. Em maio de 2023, na visita do Real Madrid ao Valência, o brasileiro ouviu das bancadas gritos de "mono" ao longo do jogo. A situação escalou quando disputou um lance em que apareceu uma segunda bola em campo e reclamou junto do árbitro. Vinícius chamou o juiz da partida e denunciou um adepto, que estava perto daquela zona do campo. Logo a seguir o árbitro falou com os jogadores, com os treinadores das duas equipas e com o quarto árbitro, tendo sido emitido um aviso pelo sistema de som do estádio, avisado que o jogo tinha sido interrompido na sequência de um episódio de racismo e que só seria reatado se os cânticos ofensivos que vinham da bancada cessassem. 
Mais de um ano depois, três adeptos do Valência foram condenados a oito meses de prisão pelos ataques racistas. Foram também punidos com a proibição de entrar em qualquer estádio de futebol por dois anos, além de multas.   Esta foi a situação mais 'mediática', mas Vinícius já se queixou em outras ocasiões, ao ponto de considerar que "o racismo é o normal na LaLiga."

Mourinho diz que "algo não está certo"

Curiosamente, Vinícius ser protagonista de tantos casos de racismo. "Passa-se em todos os estádios e sempre com o mesmo protagonista, algo não está certo..." considerou o treinador do Benfica, depois da partida. E Prestianni . O avançado argentino recorreu às redes sociais para garantir que se trata de uma acusação sem fundamento. "Se tanto dizem que, supostamente, dirigi um insulto racista ao Vinícius Jr., por que razão é que ninguém reagiu? Acusar os outros de algo grave não está correto, e muito menos quando não é verdade. Está toda a gente a apontar-me o dedo por ter tapado a boca com a camisola quando sabem que todos os jogadores de futebol o fazem quando falam [uns com os outros]. Parem de inventar coisas."

Em que pena incorre Prestianni?

A UEFA vai agora levar a cabo sobre o que sucedeu ontem à noite no Estádio da Luz. Se o jogador do Benfica for considerado culpado, a pena pode chegar aos 10 jogos de suspensão. "Qualquer jogador ou dirigente considerado culpado de conduta racista deve ser suspenso pelo menos durante dez jogos (ou um período de tempo correspondente para representantes de um clube)", pode ler-se nos regulamentos da UEFA. Já se as ofensas vierem das bancadas, quem paga é o clube/seleção da casa. "Se os adeptos de um clube ou seleção tiverem um comportamento racista, este clube ou seleção devem ser sancionados (pela primeira ofensa) com o encerramento parcial do estádio no setor onde o incidente racista ocorreu. Pela segunda ofensa, a sanção é agravada, passando a encerramento completo do recinto, bem como uma penalização financeira. Para além disso, os adeptos considerados culpados de comportamento racista devem ser impedidos, pelas autoridades estatais, de assistirem aos jogos no futuro".  

Outros casos

Estes casos são frequentes um pouco por todo o Mundo e em Portugal também já aconteceu. Em março do ano passado o guarda-redes do V. Guimarães, Bruno Varela, queixou-se de ter sido alvo de racismo por parte da claque do Boavista e a partida esteve suspensa durante alguns minutos. Neste caso foi emitido pelo sistema de som do Estádio do Bessa uma mensagem dirigida aos adeptos, avisando que insultos xenófobos e racistas não são tolerados e a partida acabou por ser retomada. No Mundial de Clubes, disputado nos Estados Unidos no último verão, Antonio Rüdiger, defesa alemão do Real Madrid, acusou Gustavo Cabral, dos mexicanos do Pachuca, do mesmo crime. Mas este caso não deu em nada, uma vez que, depois de analisar as imagens da transmissão oficial e de outras câmaras do Estádio, a FIFA não conseguiu identificar qualquer diálogo que comprovasse a denúncia do futebolista alemão.
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