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Especialista em inteligência emocional, a brasileira Maryana Rodrigues procurou um rumo em Portugal e usa o humor para ensinar as pessoas a evitar o burnout.
Maryana Com Y é o nome profissional de Maryana Rodrigues, uma brasileira de sorriso fácil que criou uma nova profissão: humorologista. O que é? A arte de trazer o bom-humor para o dia-a-dia para se conseguir viver de forma mais leve. Pelo meio, fundou a empresa de consultoria empresarial Humorlab, com a qual faz palestras em empresas sobre bem-estar corporativo e é mentora de pessoas que procuram saúde emocional. “Quando a gente se torna adultos, a gente esquece de se divertir. Então esse adultecer faz com que a gente esqueça de viver”, garante à SÁBADO.
Maryana Rodrigues, humorologista brasileira, usa o humor para ensinar a evitar o burnout em Portugal.
A mudança na sua vida foi provocada por uma depressão. “Quando fui diagnosticada, em 2018, falei com amigos e percebi que muita gente estava com depressão e ansiedade e eu não sabia”, conta. “Tem o tabu de falar que você não aguentou a pressão”, diz. Decidiu procurar a felicidade com o curso Search Inside Yourself (procura dentro de ti, em português) do Google sobre Inteligência Emocional, em Silicon Valley, nos Estados Unidos. E fez o curso da Action for Happiness (ação pela felicidade, em português), que tem como patrono o Dalai Lama.
Viajou até Portugal, sozinha, para arrumar ideias. Fez um curso intensivo de felicidade corporativa, estudou Programação Neurolinguística (que procura alterar comportamentos através da linguagem) e fez uma pós-graduação em neurociência. “Tudo para mostrar às pessoas como se cuidarem antes da conta - a depressão, o burnout - chegar”, explica. “Um dos meus skills é o humor e entendi que ele seria o meu grande protagonista.”
O que motivou a sua depressão?
Eu fui guia na Disney, joguei futebol nos Estados Unidos. Depois voltei ao Brasil, trabalhei em comunicação, trabalhei com telemarketing, e teve uma fase da minha vida que eu fui trabalhar numa empresa de tecnologia e fui muito mal recebida, era uma empresa muito preconceituosa. Eu estava trabalhando e não sabia que aquilo estava tirando a minha positividade, o meu otimismo. Fiquei doente.
Como conseguiu tratar a depressão?
Primeiro aceitei que não estava bem e hoje há o medo de parecer fraco. Depois procurei ajuda médica. E em terceiro fazer um caminho de construção de saúde mental, de autoconhecimento. O ambiente onde eu estava estava prejudicando-me e tive a oportunidade de sair.
Aceitar o que se sente é fundamental?
Sim. Nós marcamos reunião com tanta gente e nunca marcamos com a gente mesmo. Todos os dias de manhã a primeira reunião tem de ser connosco: ‘Como é que eu me sinto hoje? Nossa, hoje eu estou triste’. E deve-se aceitar o sentimento porque nós não controlamos o sentimento, controlamos o comportamento. Estou triste, o que faço com esse sentimento? Porque a gente não é feliz e otimista o tempo inteiro. É isso que eu faço nas minhas palestras, nos meus workshops, no meu Instagram: eu ajudo as pessoas a terem essa consciência, para treinar comportamentos, para sofrer menos.
Saber lidar com as emoções desagradáveis passa por procurar soluções?
Primeiro é aceitar e viver aquilo, mesmo o sentimento ruim. Estou triste? Deixa eu chorar. Mas tem que ter uma data de validade. Eu brinco dizendo que a gente pode viver o sentimento, mas não pode morar ali.
Eu acredito que o treino é a gente aceitar o desprazer, viver aquele desprazer, aprender com ele e direcionar uma atitude. Por exemplo, você está numa reunião, alguém falou alguma coisa que você não gostou. Muita gente fala, que não ligou. Mas magoou. O pai da comunicação não violenta, [o psicólogo] Marshall Rosenberg, fala que se algo não te fez bem quando você for conversar com a pessoa, deve falar: ‘quando você falou aquilo na reunião, eu me senti desconsiderada’. Quando a gente fala do nosso sentimento e não do comportamento do outro, a gente cria uma ponte de relações.
Não é fácil esse confronto.
Quanto mais a gente treina o nosso cérebro para sentir o desprazer e tomar uma atitude, mais rápido você consegue ter uma atitude mais cordial. Então o exercício é todos os dias a gente marcar uma reunião com a gente, fazer esse raio-X, aceitar, treinar e direcionar comportamentos novos que façam que a gente sofra menos no processo.
Maryana Rodrigues usa o humor para evitar o burnout em Portugal.
Mas é necessário cultivar o bom humor, a esperança?
Claro. Tudo que a gente ouve, o que a gente sente, estamos a criar memórias: se você escuta só músicas de traição, de tristeza, é isso que o nosso inconsciente está a processar.
A gente está criando sinapses, a gente está criando configurações. O professor [neurocientista] Joe Dispenza, que escreveu Quebrando o Hábito de Ser Você Mesmo, fala que quando verbalizamos, criamos sinapses. Aqui no Brasil tem algumas frases como: ‘Se melhorar, estraga’. Não faz sentido você verbalizar para o seu cérebro que se algo vai ficar bom vai estragar. A gente não se dá conta, mas está construindo uma rede. Tem de construir uma rede de esperança.
Ser otimista é ser realista?
Tem um pensador aqui no Brasil, o Leandro Karnal, que explica o que é um pessimista e otimista com uma onda. O pessimista está atrás da onda falando: ‘Olha lá, está todo mundo surfando e ninguém me chamou para essa onda aí’. O realista está na onda, porque ele está vivendo aquilo. Ele viu a onda chegar e vai curtir a onda. O otimista já viveu aquela onda, ele já está olhando para a próxima, porque ele tem essa visão de construção.
Como se treina a esperança?
Com exercícios de gratidão, focar em coisas boas. Eu não assisto a filmes de terror. Para quê encher a sua mente com cenas catastróficas? É preciso uma reestruturação de pensamentos para a gente ser mais otimista e ser mais esperançoso. Ter uma prática diária do que decidimos ouvir, falar, com quem nos relacionamos, de como dispomos o nosso dia.
Falou em exercícios de gratidão. Esquecemo-nos de agradecer aquilo que temos e focamo-nos no que não temos?
Aqui no Brasil há uma onda de coaching muito grande e os exercícios de gratidão foram para um lugar de chacota: ‘Lá vem a pessoa que abraça as árvores.’ Por isso eu não uso a palavra nas minhas palestras, criou-se uma resistência à gratidão. Uso uma frase de um professor brasileiro, Roberto Tranjan: focar no que farta e não no que falta. Todos os dias antes de dormir, antes de deitar olhar para a fartura da vida e sair do que falta. Vivemos numa sociedade capitalista de consumo e as pessoas trocam de carro e já estão a pensar no próximo. Eu acredito que a gente tem uma hipnose de falta muito forte. Dessa alta performance que sempre exige que você seja o campeão. Mas não cabe todo mundo no primeiro lugar do pódio. A gente tem que parar de buscar esse extraordinário - quando ele vier vai ser muito bem recebido - mas o quanto a gente vive e aplaude o ordinário, o que é quotidiano, é onde mora nossa felicidade. É o banho quente, é o sol que brilha quanto mais isso preencher o nosso dia a dia, é mais fácil ser otimista. Mais fácil é viver melhor. Mas, porque tá aqui, já existe.
Focarmo-nos no que temo traz bom humor?
A comédia é feita para fazer rir, o bom humor é feito para fazer bem. Quanto mais você perceber que você está bem, mais feliz e mais bem-humorado você será. Também tem a ver com a relação com as outras pessoas, se nós estamos bem também conseguimos transmitir isso às outras pessoas e as outras pessoas também nos transmitem isso.
A relação com os outros é fundamental no otimismo?
Quando a gente é otimista, vamos atrair pessoas otimistas. Eu uso uma frase nas palestras: ‘o mundo não está ruim porque tem gente ruim, o mundo está ruim pela indiferença dos bons.’ Não podemos ser indiferentes. Quanto mais a gente troca a positividade e a gente recebe de volta. Mas sem forçar a alegria de ninguém.
Forçar a alegria?
Sim, seja a alegria mas não force a alegria de ninguém, porque aí a gente cai na positividade tóxica. Seja o bom senso, seja a pessoa que agradece, o exemplo que arrasta a multidão. Quando a gente se dá conta de que é otimista, queremos trazer todo mundo para o nosso time. Só que nem todo mundo está pronto ainda para entrar. Não temos de curar ninguém, a gente não tem que dar essa lição de moral no mundo. Basta escolher o otimismo para você, que vai dar o exemplo para despertar o caminho de outras pessoas.
Faz esse trabalho a nível individual sem ser em palestras?
Quem me procura quer construir um negócio, mas eu acabo falando de identidade e de otimismo. Eu falo que temos em alguns P's: a presença pessoal, que é a nossa identidade; o propósito; e depois alcançamos a prosperidade. As pessoas buscam logo a prosperidade e, se der certo, encontro meu propósito e vou ser quem eu sou.
Para mim é impossível alguém estar conectado consigo e não encontrar o propósito. Porque o propósito é descoberto, está dentro de você. E quem descobre o propósito, é impossível não ter sucesso. Não tem como você pegar uma alma apaixonada que não vai ter sucesso.
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