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Eloy Moreno: “Quando escrevo coloco-me tanto no lugar do personagem que choro de emoção”

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Eloy Moreno, autor de Invisível, é um dos escritores espanhóis mais vendidos. Os desafios da era digital e da autoestima nas redes sociais é o tema de Redes, o seu último livro, que chega agora a Portugal

Betty vive cada vez mais submersa num mar de imagens que vê nas redes sociais: corpos perfeitos, viagens exóticas e vidas aparentemente felizes. A cada scroll, ela sente que a sua própria existência se desvanece na sombra do que vê no ecrã. Este é o contexto de Redes, o novo livro de Eloy Moreno. O escritor espanhol, de 50 anos, natural de Castellón de la Plana, é autor de diversos livros, como El Bolígrafo de gel verde, El regalo, Diferente ou Invisible – que vendeu mais de um milhão de exemplares só em Espanha, está traduzido em mais de 20 idiomas, foi adaptado a uma série de Disney e terá agora uma peça de teatro, que estreia em Málaga, em março, e percorrerá toda a Espanha. Seguiu-se Tierra e agora Redes, que chega às livrarias portuguesas, na próxima quarta-feira, dia 18, editado pela Presença.  

Eloy Moreno diz que a proibição das redes sociais a menores de 16 anos é uma medida difícil de pôr em prática
Eloy Moreno diz que a proibição das redes sociais a menores de 16 anos é uma medida difícil de pôr em prática

Como é que um engenheiro informático se dedicou à escrita de livros sobre emoções?

Estudei ciências puras, matemática, física e química, e trabalhava com informática. Comecei a escrever por acaso e já tarde, aos 30 e poucos anos. Vi na internet um concurso de escrita, decidi participar e ganhei. A partir daí entrei noutros concursos e ganhei vários prémios. Então, escrevi um livro às escondidas, El Bolígrafo de gel verde, e fui vendê-lo para a rua. As pessoas gostaram e naquele ano [2009] foi o terceiro romance mais vendido em Espanha. Foi algo incrível e em 2011, a editora Espasa publicou-o.

Escreve exclusivamente para adolescentes?

Nunca escrevi para adolescentes. Escrevo para, jovens, pais e avós, para toda a família. Invisível pode parecer dirigido aos mais jovens por causa da temática, o bullying, mas segundo os dados da editora tem sido mais lido por adultos. Os meus livros são para todas as idades.

Em Redes, a protagonista, Betty, é uma miúda que passa tempo a mais nas redes sociais a ver viagens exóticas, outfits, corpos perfeitos e coisas que nunca vai ter. Inspirou-se em alguém em particular?

Inspirei-me na realidade quotidiana. As situações retratadas no livro já todos as vimos à nossa volta. Quem não conheceu ninguém viciado no telemóvel? E não são só os adolescentes, os adultos também. Os miúdos em vez de brincarem uns com os outros estão com os olhos colados ao telemóvel. Quem nunca viu num restaurante alguns casais que não conversam porque está cada um no seu ecrã? A Betty é uma adolescente comum que vê nas redes o que não pode ter, que sente a frustração ao ver as vidas “perfeitas” dos influencers. O livro desmonta isso tudo, mostra que na maior parte dos casos tudo aquilo é falso, não passam de fachadas.

Tem filhos?

Duas filhas, de 14 e 16 anos. Felizmente, elas têm consciência de que há que impor limites à utilização do telemóvel, porque esse é o exemplo que têm em casa.

Acha que a proibição das redes sociais a menores de 16 anos, em Espanha, é uma medida necessária?

Essa proibição já foi imposta em países como a Austrália ou a França, e a pergunta que se impõe não é se a medida é boa ou má, mas se vai conseguir ser posta em prática. Penso que não. Há uns anos, também se quis proibir os vídeos pornográficos e não foi possível. Anunciar é fácil, mas não há forma de fazer fiscalização digital. Por isso, mais vale que se eduque melhor.

A felicidade dos adolescentes de hoje mede-se pelos likes?

Sim, como pai de duas raparigas tenho uma pequena amostra da influência que isso tem. Tenho a sorte de haver mais de 500 centros de educação, só em Espanha e alguns no México, que tem o meu livro Redes como leitura recomendada. Vou a muitas escolas e muitos miúdos admitem que quando fazem uma publicação nas redes sociais e o número de likes não corresponde às expectativas, sofrem ao pensar, por exemplo, "não sou interessante” .

Esta é uma realidade que há 20 anos nos parecia ficção…

Completamente. Como é que podíamos imaginar que a vida de alguém dependesse dos “likes” de desconhecidos. É absurdo.

Acha que as redes sociais afetam a saúde mental, mesmo nos jovens mais estruturados emocionalmente?

Claro que afeta e não só a saúde mental dos jovens, mas de todos. A utilização da internet, sobretudo os vídeos, provocam a libertação de dopamina. Eu próprio dou conta de que por vezes vou ver algo no telemóvel e aparece-me um vídeo, depois outro e às tantas já estou ali há muito tempo e não dei por isso.

Com a IA, a tendência é para piorar?

Para confundir mais será com certeza. Eu sou adulto e há coisas, como perfis no Instagram, que não distingo se são reais ou gerados por IA.

Os pais devem evitar expor as crianças nas redes?

Isso, sim, deveria ser legislado, porque é muito mais fácil de controlar do que os menores de 16 anos que estão nas redes sociais. Essa medida seria mais simples e importante. Não entendo os pais que publicam fotos e vídeos dos filhos pequenos nas suas redes sociais para terem mais likes. O que está na internet fica para sempre e no futuro isso pode causar embaraços àquela criança do vídeo, que entretanto se tornou um jovem adulto.

Diz que chora enquanto escreve. Porquê?

Primeiro porque sou emocional e quando escrevo coloco-me tanto no lugar do personagem que sinto várias emoções. Felizmente, nunca fui vítima de bullying e quando escrevi Invisível, vivi todas as maldades e agressões que a personagem sofreu. Antes de haver internet, os miúdos que sofriam bullying presencial na escola, à noite e ao fim de semana tinham alguma tranquilidade. Agora é constante, porque o bullying é feito através das redes sociais, simplesmente ao serem excluídos de grupos.

Neste livro incentiva os miúdos a denunciar e a não serem invisíveis?

Sim, acho que sofre bullying tem de contar, de partilhar, senão ninguém pode ajudar. Muitas vezes, um rapaz ou rapariga de 11 ou 12 anos, não sabe como sair de uma situação dessas e o livro transmite essa mensagem de forma clara.

Redes é uma sequência de Invisível, o livro anterior. Porque demorou seis anos a publicá-lo?

Porque só mais tarde pensei em fazer uma continuação de Invisível. Quando comecei a escrever Redes coincidiu com a rodagem da série Invisível, para a Disney, e como havia algumas personagens que não tinham um final, decidi pô-las em Redes.

Invisível é uma história sobre bullying e foi o maior êxito de Eloy Moreno, com 500 mil exemplares vendido
Invisível é uma história sobre bullying e foi o maior êxito de Eloy Moreno, com 500 mil exemplares vendido

Qual é o tema do próximo livro?

Já estou a escrever o próximo livro que sairá no final do ano, mas nem a minha editora sabe qual é o tema. Nunca falo sobre os meus livros antes de estarem terminados para que nada nem ninguém me influencie.

Mas será dentro do mesmo registo de Invisível e de Redes?

Não, é outro tipo de novela, mas continuo a escrever sem pensar se me dirijo aos mais novos ou aos mais velhos, é para todos. Mas com emoções. Os meus livros são muito distintos uns dos outros, procuro sempre temáticas diferentes, desde que emocionem.

Há um ano, bateu o recorde do Guinness com o maior número de livros autografados em 12 horas: 11.088 exemplares. Como foi isto?

É verdade! Começou por uma brincadeira. Na última Feira do Livro, em Madrid, quando estive 15 horas, durante dois dias, a autografar livros, e surgiu a pergunta: Quem detém o recorde de autógrafos? Vimos no Guinness que o recordista era um escritor indiano, com 7 ou 8 mil livros. Pelos cálculos, achámos que podíamos bater. Então, estive na praça del Callao, em Madrid, a assinar os mais de 11 mil livros dos meus leitores durante 12 horas, e o Guinness certificou o recorde. Aprendi a assinar com a mão esquerda e com a direita (risos).