A odisseia de Sandra: uma emigra em contraciclo

A odisseia de Sandra: uma emigra em contraciclo
Raquel Lito 17 de fevereiro de 2017

As viagens de carro de 30 horas dão início ao fluxo migratório da luso-francesa. Na fase adulta regressa ao país de origem, casa e descasa até conhecer o pai dos dois filhos, grafitter. O vai-e-vem de uma mala de cartão: não de Linda de Suza, mas de Sandra Fernandes. A SÁBADO encontrou-a esta quinta-feira no congresso Migrações, em Cascais

Faziam quase 2.000 quilómetros estrada fora, entre França-Portugal, praticamente sem interrupções. As pausas serviam apenas para abastecer o depósito do Renault 30, azul escuro, e para os miúdos (Sandra, Daniel e Victor) irem à casa-de-banho. Ano após ano, durante o mês de Agosto, repetia-se a odisseia familiar.

Os Fernandes, naturais de uma aldeia próxima de Castelo Branco, voltavam à terra-Natal para se sentirem em casa. Problema: não se sentiam, porque os conterrâneos olhavam para eles com crescente desconfiança; analisavam os gastos que faziam (por exemplo, se iam com frequência ao restaurante); e atribuíam-lhes os epítetos discriminatórios como emigras ou aveques (alusão à preposição avec, que significa com). Para piorar o desenraizamento, os estrangeirados não conseguiam descolar-se das expressões francesas: chamavam coffre à mala do carro, retraite à reforma, parking ao estacionamento.

Sandra, a filha mais velha, actualmente com 41 anos, recorda o fluxo migratório dos anos 80 e as demoradas viagens de carro de 30 horas. O seu testemunho, no qual outras tantas famílias se revêem, foi um dos pontos altos da conferência Migrações: Desafios Locais e Políticas Globais que decorreu esta quinta-feira (dia 16), na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais. A filha de pais emigrantes – o pai dedicava-se à construção civil e a mãe era doméstica –, nunca equacionou regressar ao País de origem. Porque a sua visão de cá era redutora, limitava-se às férias grandes na aldeia. 

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