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Cinco dicas para se irritar menos com os seus filhos sem tentar ser uma mãe ou um pai perfeito

SÁBADO 26 de abril de 2026 às 08:00

Psicóloga clínica Helena Paixão garante que "é possível reduzir a intensidade das reações e evitar que escalem".

Quem nunca viu, ou teve de lidar, com a birra de uma criança num local público? Pode ser motivo de grande stress e irritação para o adulto. "Há uma ideia muito comum, e pouco realista, na parentalidade: a de que, se for uma mãe ou um pai emocionalmente disponível, vai ser naturalmente paciente o tempo todo. Não vai, necessariamente", refere a psicóloga clínica Helena Paixão. 

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As birras dos mais pequenos são muitas vezes um teste à paciência dos adultos
Foto: iStockphoto
A psicóloga Helena Paixão
Foto: DR

"Cuidar de crianças — sobretudo com rotinas exigentes, cansaço acumulado e múltiplas responsabilidades — ativa inevitavelmente o nosso sistema de stress e quando esse sistema está 'ligado', o cérebro deixa de privilegiar a reflexão e passa a privilegiar a reação. É por isso que, muitas vezes, a irritação surge antes da intenção. Isto não faz de si um mau pai ou uma má mãe, faz de si humano. Estar presente, atento e disponível para um filho não elimina o cansaço, o stress ou a frustração do dia a dia. Os pais podem ser dedicados e, ainda assim, irritarem-se. Podem amar profundamente e perder a paciência. Não é incoerência. É humanidade", prossegue.

O problema, explica, não é sentir irritação, "é o que faz e como se relaciona com ela". A boa notícia? "É possível reduzir a intensidade dessas reações e evitar que escalem." 

Helena Paixão deixa-nos aqui cinco estratégias baseadas na psicologia e na neurociência que ajudam a criar mais espaço entre o impulso e a resposta:

1. Descubra o que o ativa (antes de explodir)

A irritação raramente aparece “do nada”. Há padrões.

Repare:

- É ao fim do dia?

- Surge quando está cansado?

- Quando o seu filho repete o mesmo comportamento?

A isto chama-se identificar gatilhos. Quanto mais previsível for o que o irrita, mais cedo pode intervir. E quanto mais cedo intervém, menos intenso tende a ser o pico emocional.

2. Procure baixar o nível de exigência no momento crítico

Um dos erros mais comuns na parentalidade é tentar educar no auge da emoção.

Quando está irritado, o seu cérebro está menos disponível para empatia, flexibilidade e comunicação eficaz. E o mesmo acontece com a criança, o que significa que aquele

momento em que insiste que o seu filho “tem de perceber” ou “tem de aprender” é, na verdade, o pior momento para ensinar.

Baixar a exigência não é ceder, é adiar a intervenção para um momento em que ambos tenham capacidade para pensar e integrar — e não apenas reagir.

Quando está irritado, não está no seu melhor. E o seu filho também não. Insistir em “ensinar uma lição” nesse preciso momento pode piorar tudo, tende a existir mais tensão, menos escuta e mais reatividade.

Há uma regra simples e eficaz a reter: primeiro regular, depois educar.

3. Experimente começar pelo corpo (não pelos pensamentos)

Para conseguirmos pensar com mais clareza, precisamos, muitas vezes, de acalmar o corpo. Há alguns sinais de alerta que vale a pena ter em atenção, como o coração acelerado, a respiração mais rápida e curta e o corpo tenso.

O que ajuda mesmo:

- Respirar mais devagar (a expiração deve ser mais extensa do que a inspiração - vai ajudar a ativar o sistema nervoso parassimpático: o sistema responsável por gerar uma sensação de tranquilidade e relaxamento)

- Fazer uma quebra de estado ou uma pausa física, como “sair de cena” 30 segundos

- Relaxar a região dos ombros e mandíbula

Isto não é “autoajuda”. Está a ensinar o sistema nervoso a voltar à sua homeostase/equilíbrio.

4. Não é uma provocação (mesmo que pareça)

Quando um filho ignora, “desafia” ou insiste, é fácil pensar: “Está a fazer isto de propósito.” Na maioria das vezes, não está.

Lembre-se disto: as crianças não têm maturidade neurológica para regular bem as suas emoções mais desconfortáveis, para antecipar consequências, podem ter uma menor tolerância à frustração e podem reagir mais do que pensam.

Por detrás de um comportamento mais desafiante, a maioria das vezes, estão necessidades por preencher, como: cansaço, fome, sono, sobrecarga, necessidade de presença real, conexão ou atenção.

Ao mudar a lente através da qual vê e interpreta a situação, vai mudar a forma como responde. E isso pode mudar (quase) tudo.

5. Repare mais (com gentileza) em vez de tentar ser perfeito

Muito provavelmente vão existir momentos em que vai irritar-se, vai ficar sem paciência ou vai errar.

O que faz a diferença não é evitar todos os erros. É o que acontece depois e o que fazemos com isso, como: pedir desculpa, explicar “estava cansado, reconheço que hoje reagi mal” e reconectar (estabelecer um olhar empático, estender a mão, dar um abraço)

Relações seguras não são perfeitas. São relações onde há sobretudo oportunidade de reparação. Todos os pais se irritam, por vezes. Todos podem falhar em algum momento. O problema não é a falha — é a ausência de reparação.

A investigação em desenvolvimento infantil mostra que relações seguras não são relações sem conflito. São relações onde existe reconexão depois do conflito. Reconhecer o erro, explicar o que aconteceu, validar o impacto na criança — tudo isto contribui mais para a saúde emocional do vínculo do que uma tentativa irrealista de nunca se irritar.

A perfeição afasta. A autenticidade aproxima.

É importante que o foco não esteja em controlar os seus filhos, mas em ampliar o seu autoconhecimento enquanto mãe/pai e sobretudo enquanto pessoa.

A irritação na parentalidade não é um sinal de fracasso. É um sinal de ativação.

E, muitas vezes, é um convite a olhar para os próprios limites, necessidades, crenças e padrões. Cuidar da forma como responde aos seus filhos começa, inevitavelmente, por cuidar da relação que tem consigo.

Na prática, os filhos não precisam de pais perfeitos, precisam de pais suficientemente regulados para transformar momentos difíceis em oportunidades de reconexão.

A reter: não se trata de controlar tudo o que o seu filho faz.

Trata-se de perceber melhor o que se passa dentro de si quando reage. Porque os filhos não precisam de pais sempre calmos, precisam de pais que, mesmo quando se irritam, sabem voltar e reposicionar-se de uma forma segura, empática e reparadora.

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