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As aventuras da família Mota

Fernando Esteves 30 de novembro de 2025 às 16:32

Nos anos 40, Manuel Mota montou escritório numa pensão em Luanda e em 1962 já tinha o apoio de Wall Street. António Mota expandiu o negócio criado pelo pai.

(Artigo publicado originalmente a 6 de março de 2014 e republicado no dia em que )
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Foto: Fundação Manuel António Mota
Foto: Fundação Manuel António Mota
Foto: Fundação Manuel António Mota
Manuel Mota estava inconsolável. Voltou-se para o seu amigo Manuel Teixeira Mendes e disse-lhe: “Só me apetece sentar aqui nesta soleira e chorar...” Sentia-se pequeno face à grandiosidade do cenário que o envolvia – a imponência dos arranha-céus de Nova Iorque contrastava radicalmente com tudo o que conhecera até então. A sua presença na cidade era a última paragem de uma correria louca a um empréstimo que lhe poderia mudar a vida. Fora convidado pelo governo angolano para liderar o projeto de ampliação do Aeroporto de Luanda e a construção de uma importante estrada entre a cidade de Luso e a vila Henrique de Carvalho. A proposta chegara com um presente envenenado: para assumir os projetos, a Mota & Companhia teria também de assegurar o seu financiamento: 10,5 milhões de dólares (mais de 57 milhões de euros atualmente), uma fortuna para a época e um valor que Manuel Mota estava longe de possuir. Recusar não era opção. A obra ia avançar, com ele ou sem ele. Aceitou, ainda sem saber bem onde conseguiria o financiamento. Portugal estava fora de causa – era muito pequeno. Juntamente com José Fonseca, seu sócio, apanhou o avião para Londres. Com eles foi Manuel Teixeira Mendes, um engenheiro que estudara em Pittsburgh e que, ao contrário de Manuel Mota, que tinha apenas a quarta classe, dominava a língua inglesa. Bateram a várias portas. Todas as financeiras lhes recusaram apoio. Restava-lhes uma hipótese desesperada: voar para Nova Iorque. Se não encontrassem solução em Wall Street, arranjavam um sarilho.É que entretanto a obra já arrancara. Em maio de 1962 instalaram-se no Hotel Taft, na 7.ª avenida, perto de Times Square. Tinham dois contactos na mão: a financeira Continental Ore Company e a Evans & Edell. Sem marcação prévia, dirigiram-se à primeira .Nada feito. Desolados, arrumaram os papéis e mergulharam no metropolitano em busca da segunda, de onde saíram com a promessa de que o negócio poderia realizar-se. O processo, uma operação de engenharia financeira muito complicada, demoraria sete meses a finalizar. Manuel Mota estava em Portugal quando recebeu a notícia. Nesse preciso instante, caiu no chão de forma fulminante. Inanimado, foi transportado de urgência para o hospital da CUF, onde recuperou os sentidos. Depois de tantos meses de stresse violento, o líder da Mota & Companhia sofrera uma enorme descarga emocional. Nos anos 60, Manuel lidava com milhões. Tal como hoje acontece com os seus filhos. Na semana passada, a Mota-Engil vendeu16,8% do capital da empresa por 159 milhões de euros (108 milhões foram diretamente para a família). Mas a infância do fundador foi muito diferente. Natural de Codeçoso, uma pequena aldeia do concelho de Celorico de Basto, foi o segundo de quatro irmãos. Os pais, Adelino e Adelaide, eram pequenos agricultores. Em 1925, com apenas 12 anos, Manuel já trabalhava de enxada na mão – uma doença do pai obrigou-o a abandonar a escola. Juntamente com os irmãos, tinha de ajudar a cultivar os 15 hectares que a família possuía nos arredores da aldeia. Aos 16 anos voltou-se para os negócios: começou a queimar madeira para fazer carvão para ferros de engomar, que depois vendia às mulheres da região. Aos 17, foi convidado pelo cunhado, o empresário Joaquim Fonseca, para trabalhar como apontador numa das pequenas obras que este possuía– controlava as horas do pessoal e ganhava 15 escudos por dia. Três anos depois subiu a gerente. Paralelamente, foi investindo em negócios próprios de construção. Queria ganhar dinheiro. Muito. Montado na euforia de investimentos em obras públicas da década de 30, prosperou. Até à II Guerra Mundial. Com as obras paralisadas, Manuel desafiou o cunhado a comprar uma serração em Amarante, à venda por 300 contos (hoje seriam mais de 50 mil euros), soma que nenhum dos dois tinha. Solução: desafiar um milionário da região para partilhar o investimento. Foi assim que Joaquim Pereira da Silva entrou com 150 contos, Joaquim Fonseca com 120 e Manuel Mota com 30. E foi a cortar madeiras nas serranias e a extrair óleo de bagaço que sobreviveram durante o tempo que a guerra durou. Em 1946, o cunhado propôs-lhe o regresso à construção. Não hesitou. A primeira empreitada da Construtora do Tâmega foi de 300 contos. Mas nessa altura o olhar de Manuel já ia para lá de Portugal. Angola fascinava-o desde que, em 1934, visitara no Porto a Exposição Colonial, mega evento idealizado por Salazar para glorificar o império ultramarino. Aos 33 anos avançou, juntamente com Joaquim Fonseca e o amigo Virgílio Ribeiro, na condição de ficar com a maioria do capital da empresa que se dedicaria à exploração agrícola e florestal. O nome escolhido reflete o seu domínio: Mota & Companhia. Os primeiros tempos em África foram complicados. Em Luanda, montou o primeiro escritório no quarto da pensão Faias. Não conhecia ninguém e a concorrência era pesada: a Companhia de Cabinda, uma empresa pública, monopolizava os grandes negócios na área. Começou por pequenos empreendimentos. Com uma estrutura incipiente, foi obrigado a envolver-se a fundo. Mergulhou com os seus homens na selva, sob condições atmosféricas hostis. Às vezes as matas eram tão cerradas que não conseguia ver o sol. Dormia em cubatas, sem eletricidade ou saneamento básico. Anos depois, apontando para uma das palhotas por que passou, disse ao seu amigo Manuel Teixeira Mendes: “Vê acolá aquela palhota? Vivi ali seis meses e disse para mim: ‘Ó Mota, ou vences ou não sais daqui!’” Chegava a passar meio ano seguido em Angola, totalmente afastado da família. A mulher, Amália, 12 anos mais nova, vivia com os quatro filhos em Portugal, a mais de cinco mil quilómetros das aventuras de Manuel Mota. E não eram poucas. Numa ocasião, viajava num pequeno avião Cessna quando o combustível faltou em pleno voo. O pânico obrigou-o a aterrar de emergência, algures na Namíbia, num campo de capim. Acompanhado por dois empregados, mandou um em busca de gasolina– o funcionário regressou sem combustível, mas ao volante de uma carrinha Mercedes, que os conduziria ao comboio. E foi já na estação que Manuel Mota, em conversa com um local, soube do projeto de uma barragem cuja construção estava comprometida por causa da falência do empreiteiro. Imediatamente arranjou forma de garantir o negócio. Uns tempos depois, era inaugurada a barragem de Dreihuk, na cidade namibiana de Karasburg. “Era um homem de grande visão, sempre à frente dos outros. Detetava oportunidades para fazer dinheiro onde mais ninguém o fazia”, diz um amigo da família. A ampliação do aeroporto de Luanda foi o motor para a explosão definitiva da empresa em Angola. Até que a guerra se meteu novamente no seu caminho. Com o 25 de Abril e a independência das colónias, a esmagadora maioria das empresas que operava em Angola fechou atividade Os seus sócios queriam fazer o mesmo, mas naquela altura a ligação de Manuel Mota a África era indestrutível. Dirigiu-se a Baltasar da Silva, o seu braço-direito na região durante décadas, e perguntou-lhe: –Tens coragem para ficar? A resposta foi a que esperava: – Basta o senhor estar atrás de mim para eu ter coragem. – Ai, eu não te abandono! –Pronto, é isso que me interessa. Comprou as quotas dos dois sócios e continuou com o negócio. Ao mesmo tempo, decidiu investir em Portugal, onde recomeçou quase do nada. Alugou um escritório por 10 contos (que hoje seriam 1.300 euros) no n.º 4 da Av. Júlio Dinis, em Lisboa. O espaço, cujo anterior inquilino fora João Caetano, filho de Marcello Caetano, era exíguo. Felisbela, a secretária, trabalhava na cozinha. Os quartos eram ocupados pelos engenheiros e a sala era o seu gabinete. Participavam em todos os concursos públicos. O primeiro que venceram foi o da construção de uma pequena barragem no concelho do Alandroal. A grande oportunidade surgiu em 1977, quando lhe foi atribuída aquela que Mário Soares viria a qualificar de “maior obra de engenharia do século XX”: a regularização do Baixo Mondego. Orçamentada em 1,5 milhões de contos – correspondentes a cerca de 40 milhões de euros atuais – marcou a entrada na empresa de António Mota, o seu filho mais velho, que entretanto se licenciara em Engenharia. Na Vila Mota, onde se alojaram as centenas de trabalhadores que durante sete anos lá viveram, “Toninho”, de 23 anos, fez de tudo: passou cheques, carimbou papéis, deu apoio aos técnicos. Era o seu batismo de fogo. Gradualmente, foi assumindo responsabilidades na empresa, até que em 1987, já a Mota era um gigante do sector da construção, assumiu a vice-presidência executiva. Foi nesse ano que a empresa entrou em Bolsa, realizando um encaixe financeiro brutal: 14 milhões de euros. O desafio seguinte foi o da internacionalização para novos mercados, com Moçambique à cabeça. A dada altura, o recrutamento de jovens engenheiros passou a ser uma prioridade. Manuel Mota tratava do assunto pessoalmente. Um dia, recebeu um grupo de jovens em sua casa para uma entrevista que eles julgavam constituir uma possibilidade remota de arranjar um emprego. Assim que entrou na sala, o empresário perguntou-lhes: “Trouxeram os passaportes?” Em 1995, já com uma condição física débil, Manuel Mota decidiu descer a um túnel em Odeleite, integrado numa enorme obra hidráulica que a empresa erguia no Algarve. Sentiu-se mal com as correntes de ar. Levado de emergência para a Clínica Particular do Porto, acabou por morrer com uma pneumonia. António, o sucessor, ficou profundamente abalado. A ligação entre os dois era muito forte. Trabalhavam lado a lado há anos. Apesar de já não precisar, ainda recebia mesada do pai, cerca de 20 contos mensais (hoje seriam 150 euros). O respeito por ele era tal que fumava às suas escondidas – nunca conseguiu fazê-lo à sua frente. Para não deixar dúvidas sobre quem era a sua escolha para a liderança do grupo, Manuel Mota foi claro no seu testamento, privilegiando António na distribuição das ações: 33% para ele; 22% para cada uma das irmãs. “Ainda hoje, quando numa cerimónia pública, fala sobre ele, acaba quase sempre a chorar”, conta um amigo. Com 41 anos, António viu-se à frente de um grupo enorme, que se tornou ainda maior em 2003 depois da fusão com a Engil. A sua principal prioridade foi manter a empresa como uma estrutura familiar. Envolveu as irmãs Maria Manuela, Maria Teresa e MariaPaula na gestão. “Às vezes não é fácil. Discutem mas acabam sempre por se entender”, conta um colaborador da empresa. Profundamente discretas – nenhuma aceitou falar para este artigo –, têm todas personalidades diferentes. “A Teresa é muito firme e determinada. Como é licenciada em Economia, tem opiniões fortes na área financeira. A Paula, a mais nova, é muito esperta e ativa A Manuela é a que tem mais preocupações de carácter social. É à porta dela que batem todos os que têm problemas humanos para resolver”, revela outro colaborador da empresa. Todas fazem parte do Conselho de Administração. Quanto a António, é considerado um fiel seguidor da herança do pai. Em 2008, com 53 anos, abandonou de forma surpreendente a liderança executiva, escolhendo Jorge Coelho para o substituir. “Quando me convidou, tinha três objetivo dinamizar ainda mais a política de internacionalização do grupo, diversificar a oferta de serviços e, por fim, preparar a terceira geração para assumir posições de relevo no futuro”, revela o socialista, que em 2013 renunciou ao cargo. Durante o consulado do ex--ministro de António Guterres as polémicas proliferaram. Foram os contentores de Alcântara. Foram os milhões que o Estado pagou à empresa em parcerias público-privadas. Foi o alegado envolvimento de António Mota na operação Furacão, em que se investigavam crimes de fuga ao fisco. Mas, a par de tudo isto, o negócio cresceu. A empresa conheceu uma expansão enorme em territórios como Brasil, México e Peru, tendo atualmente mais de 20 mil funcionários em cerca de 20 países. A transição geracional também está assegurada. Neste momento, o familiar mais destacado na gestão é Carlos Mota Santos, filho de Maria Manuela. Engenheiro, com dois filhos, foi uma das grandes apostas de Jorge Coelho. Dirigiu as operações na Polónia e na América Latina. Atualmente é membro da Comissão Executiva. Diz quem o conhece que o facto de ser “determinado, trabalhador e responsável” o coloca numa posição privilegiada para ascender à liderança. Mas para isso terá de competir com o primo Manuel, filho de António Mota, que apesar de ainda não ter 30 anos já está à frente da empresa na Polónia. 
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