Herdade do Sobroso: no vinho está a verdade

Paulo Barriga 20 de dezembro de 2021

Uma herdade histórica no coração do Alentejo. Enoturismo e tradição a curta distância do Alqueva para aproveitar durante todo o ano.

Desde abril que as principais quintas da região começaram a desconfinar, trazendo novidades no bico e uma vontade enorme de proporcionar aos seus visitantes passeios e provas.
É a montanha. Melhor dizendo: é da montanha. Daquela cordilheira de geologia quase tão antiga e remota quanto os grandes continentes, tal como hoje os reconhecemos nos mapas do mundo. Uma serrania acanhada – tudo por aqui é horizontal – que se estende desde o mar Atlântico até às terras de Espanha. É a montanha, esta montanha, que separa administrativamente o Alto do Baixo Alentejo. E também é da montanha, desta que leva o nome de Mendro, que irrompe uma ecologia singular nos territórios do Sul. Fialho de Almeida chamou-lhe "O País das Uvas". Mas há por aqui muito mais parra para além da própria uva. Que o diga quem algum dia se deixou aventurar pelos 1.600 hectares que perfazem a Herdade do Sobroso.


Sim, é verdade: no princípio era o vinho. E no fim o vinho será. Como o evitar numa microrregião, a de Vidigueira, que não apenas concentra todos os tipos de solos vinificáveis, um corredor que sopra, a espaços, ventos marítimos (cá está, outra vez, a montanha) e o refresco das águas do Guadiana? Os vinhos da Herdade do Sobroso sofrem de todos estes favores e de mais um: as vinhas, 60 hectares postos com castas tradicionais e estrangeiras, "crescem no antigo leito do rio e é certamente isso que faz com que os nossos vinhos sejam diferentes, surpreendentes...", diz em causa própria o enólogo Filipe Teixeira Pinto, um dos mentores do projeto Herdade do Sobroso.

O outro é a sua mulher, Sofia Machado. Ela, engenheira zoológica. Não será de estranhar que a imagem de marca do Sobroso seja uma ave. Um pato-real. O povo chama-lhe pato-bravo, por oposição à criação própria, de capoeira. E porque era o "pássaro" mais abundante no vale do Guadiana. "Por detrás de um vinho há sempre uma história", sugere Sofia Machado. Esta tem a ver com um rio que é três vezes rio e que a Herdade do Sobroso bordeja ao longo de quatro quilómetros de margem. Tal como hoje se escreve, Guadiana leva o prefixo árabe wadi (rio) e o sufixo das línguas ibéricas ana (rio): Rio-rio-rio. Mas já antes os romanos lhe davam o nome de Anas: o rio dos patos.

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