Perante uma plateia composta por socialistas, a deputada bloquista Mariana Mortágua defendeu o novo imposto para imóveis de luxo. "Não podemos ter vergonha de ir buscar a quem está a acumular dinheiro", disse. E foi aplaudida
"Não podemos ter vergonha de ir buscar a quem está a acumular dinheiro. Cabe ao PS, se quer pensar as desigualdades, dizer o que é que pensa do sistema económico, do capitalismo 'financeirizado'", disse a bloquista Mariana Mortágua, durante a rentrée do PS, em Coimbra, arrancando aplausos de uma plateia socialista. Estas declarações, inseridas durante uma discussão sobre "as esquerdas e a desigualdade", surgem após a bloquista defender um novo imposto sobre imóveis de luxo.
"Quando estamos a apresentar taxas sobre grandes patrimónios ou grandes rendimentos, estamos a fazê-lo porque queremos diminuir a desigualdade", apontou. Mariana Mortágua disse que, para "pensar as desigualdades", o PS tem que pensar o "sistema económico" e o "capitalismo financeiro". "Uma sociedade estável é uma sociedade que não permite uma acumulação brutal aos 1% do topo", concluiu.
Uma alternativa ao capitalismo
De acordo com a deputada do Bloco de Esquerda, em toda a Europa os sociais-democratas da família do PS "deixaram de discutir o modelo económico. "Assinaram por baixo a concepção da liberalização dos mercados financeiros e da flexibilização do mercado de trabalho", apontou.
Em termos globais, a dirigente do Bloco de Esquerda defendeu a tese de que as desigualdades sociais provocam invariavelmente crises económicas, situou na década de 80 do século passado "a entrada em força do neoliberalismo", período em que se começou a desregulamentar as políticas públicas e em que continuou a crescer a taxação dos rendimentos do trabalho em contraponto à taxação dos rendimentos do capital.
Ainda em relação às últimas décadas, Mariana Mortágua identificou uma estagnação económica, que apenas terá sido "escondida" pela crescente acção dos mercados financeiros, permitindo que "a perda salarial da generalidade das famílias fosse compensada por um maior endividamento".
Nesta análise, a dirigente do Bloco de Esquerda atacou ainda um fenómeno que caracterizou como "neomercantilismo", pelo qual países como a Alemanha ou a China, através das exportações, usam (e agravam) a dívida de países como Portugal ou a Grécia.
Já o economista Eugénio Rosa, antigo deputado do PCP e ligado à CGTP-IN, estimou em 563 mil os postos de trabalho directos perdidos em Portugal em consequência da crise financeira e económica registada a partir de 2007.
No entanto, em relação aos marginalizados do mercado de trabalho na última década, Eugénio Rosa falou em 1,4 milhões de pessoas. "Fala-se muito do desemprego jovem, mas o mais grave pode estar na faixa dos seniores sem qualquer hipótese de acesso ao trabalho. Este desemprego não aparece nas estatísticas", advogou.
Eugénio Rosa sustentou ainda que as principais vítimas da última crise financeira foram trabalhadores com qualificações ao nível do Ensino Básico. "Foram em alguns casos substituídos por trabalhadores com qualificações médias e altas, mas o rendimento médio dos trabalhadores em Portugal não aumentou. Isto quer dizer que o aumento de qualificações nem sequer correspondeu a um aumento do nível salarial", acrescentou.
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