Soares na clandestinidade, nunca: “Queria ter gajas, ir ao cinema, viajar”

Pedro Jorge Castro 10 de janeiro de 2017

Os bastidores da primeira campanha, em 1949, como infiltrado comunista e secretário do candidato presidencial Norton de Matos - a quem deu um desgosto no final

Aos 24 anos, o então militante comunista Mário Soares tornou-se uma espécie de infiltrado do PCP na candidatura presidencial do general Norton de Matos, que tinha então 81 anos – a mesma idade de Soares na sua última candidatura presidencial.

Em 1949, as sessões de propaganda deviam acabar antes da meia-noite, mas houve um comício no Teatro Avenida, em Coimbra, em que ainda faltava falar tanta gente que Mário Soares, que estava a presidir à sessão, pediu autorização para prolongar mais meia hora.

"A multidão ululante calou-se, dando lugar a um silêncio espesso, impressionante. O representante da autoridade, sentindo o peso desse silêncio, levantou-se e disse: 'Está concedida!'. E eu, do palco, retorqui: 'Uma salva de palmas para o representante da autoridade!'" O funcionário era o tenente da GNR José Sacchetti, que viria a ser subdirector da PIDE, numa das vezes em que Soares voltou a ser preso, recordou o ex-presidente no "Portugal Amordaçado", o seu livro sobre os anos da ditadura.

Os serviços da candidatura, com dactilógrafos e tarefeiros voluntários do MUD (Movimento de Unidade Democrática) juvenil, na maioria comunistas, ficaram instalados no primeiro andar de um prédio junto à Rua do Quelhas, por baixo do apartamento onde residia Norton de Matos. O jovem secretário, Mário Soares, despachava directamente com o candidato. Sem saber que ele era militante do PCP, recebia-o de manhã, ainda na cama, depois de dormir até tarde e ler o The Times, um hábito adquirido quando foi embaixador em Londres.

Soares descreveu-o a Maria João Avillez, para o livro "Ditadura e Revolução", como "um ancião venerável, bem-disposto, de carácter firme e imperioso, com uns olhos, por detrás dos óculos, lucidíssimos e divertidos, que denotavam uma imensa experiência de vida. Era um contador de histórias fabuloso, apreciador da boa mesa. Baixo, forte, sem ser gordo, tinha um rosto redondo e o andar difícil. Trajava sempre de negro."

Um retrato de Pomar para financiar a campanha
Uma das primeiras tarefas atribuídas a Soares foi a preparação de um cartaz com o rosto de Norton de Matos, para ser exposto em todo o país. "Levei lá o meu amigo Júlio Pomar, que Norton de Matos não conhecia. O Pomar era, na altura, um jovem muito magro, feio, com imensas borbulhas, usava aqueles óculos que ainda hoje usa. O Norton, quando o viu, ficou perplexo: ‘É este o pintor?’ O Pomar nem lhe pediu que posasse, não demorou meia hora a fazer o desenho: em três traços estava ali o Norton, em corpo e alma."


O retrato foi editado aos milhares e vendido por todo o país, para ajudar a financiar a campanha, uma vez que uma circular aos homens ricos da oposição não tinha surtido grande efeito. Outra fonte de receitas foram os donativos dos anónimos que iam às sessões de campanha, e que contribuíam, respondendo ao slogan "um escudo para a candidatura".

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