Marcelo tem um caso com o país?

Marcelo tem um caso com o país?
Maria Henrique Espada 01 de maio de 2017

Faz ele as malas, compra frangos em Cascais e vai ao fim-de-semana à faculdade. Selfie-man Marcelo, há um ano a exercer a presidência perto de si

Quarta-feira, dia 22, Póvoa de Varzim. No porto, as mulheres penduram-se nele, agarram-lhe as faces, abraçam-no, espremem-lhe o corpo para caber melhor no enquadramento da selfie. Até tira uma foto com um cão ao colo do seu dono, os três muito apertados. Há beijos, abraços, fotos, gente quase emocionada, um ambiente de festa de casamento – e ele é o noivo. Os comentários em volta são de fãs a suspirar pela estrela: "Ai, que já tenho, já tenho, já tirei"; "É que não saio daqui sem dois beijinhos"; "Queria tanto, mas não sei se vá, achas que vá?, vou, vou"; "Assim fica cansadinho, coitadinho". Uma comenta-lhe os olhos, ele "são verdes, perigosos", ela não se fica, "os meus são castanhos, de encantos tamanhos", e ele ri-se. Um casal vai-se embora feliz, selfie tirada, "ainda bem que viemos, eu não te disse?". Marcelo retribui sempre: trata velhotas com um "oooh, minha filha" carinhoso, distribui, "ooohh minha querida" com abundância. Faz selfies triplas e quádruplas, todos juntinhos, agarra a mão de quem está ao lado, abre os braços para incluir tanta gente quanto possível, ajuda quando o/a fotógrafo/a não sabe nem inverter a câmara do telemóvel.

Os homens são mais contidos nos comentários, mas não se ficam ("O homem é mesmo acessível", "É um senhor, isto é que é um senhor"), e menos ternurentos nos gestos, mas também não guardam distância protocolar: o mestre José Festas, presidente da Associação Pró -Maior, motivo da visita, percorreu feliz umas centenas de metros com a mão sempre a envolver com toda a convicção os rins do senhor Presidente da República.

Marcelo é um Presidente em flirt com o País, apesar de o período oficial de namoro, ou campanha, ter terminado há um ano. Já tem confessado que chega às vezes à noite com o corpo desfeito, moído de tanto aperto. Não o incomoda. Tem plena consciência de que já não vai, não pode, mudar de estilo algures a meio do mandato, mesmo que eventualmente o desejasse: uma vez selfie-man, sempre selfie -man. É isso que as pessoas esperam dele quando lhe fazem esperas à porta dos sítios por onde vai entrar – e se a agenda for pública, é garantido que há gente à espera. É um percurso sem recuo. Felizmente para o próprio, sente-se confortável com ele. Pelo contrário, mostra às vezes menos compreensão para com alguns amigos e conhecidos mais queques – é preciso não esquecer que mora e faz vida em Cascais – que lhe dizem "Mas como é que aguentas? Estragaste a tua vida!". Diz-lhes: "Não sou capaz de fazer de outra maneira." E que corre por gosto, há quase um ano. Tomou posse a 9 de Março de 2016.

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