Ventura acusa Governo de "encomendar" estudo sobre Segurança Social "com um propósito": "cortar nas pensões"
Líder do Chega afirmou na rentrée do partido que o estudo divulgado na terça-feira foi pedido porque defendeu a descida da idade da reforma.
O presidente do Chega, André Ventura, acusou o Governo de ter encomendado o estudo sobre a Segurança Social, divulgado na terça-feira, com vista ao corte das pensões, dentro de alguns meses. Durante o discurso de rentreé do partido, que decorreu esta quarta-feira em Santarém, o líder prometeu "colocar a descida da idade da reforma no Orçamento de Estado de 2027". Passou ainda pelos temas da imigração e justiça, além de criticar os discursos dos adversários do PS e PSD, nas respetivas rentrées políticas.
"Durante anos enganaram-nos" ao dizer que os imigrantes tinham contribuído para o excedente da Segurança Social. "Depois o Chega propôs a descida da idade da reforma, então encomendaram um estudo para dizer que, afinal, a Segurança Social não está com excedente, está com défice", atirou André Ventura. "Quando se começa a pôr estes estudos cá fora, é porque daqui as uns meses vão começar a dizer que tem de se cortar nas pensões." Fica a promessa de voltar ao tema durante o debate do Orçamento de Estado para 2027, agendado para outubro.
Num discurso muito marcado pela crítica à corrupção, André Ventura atirou ao ministro da Administração Interna: “Não é nenhum Luís Neves que nos vai impedir de limpar Portugal da corrupção instalada há 50 anos.” Estendeu a crítica “àqueles que se apressam para falar do Chega”, mas no caso de Luís Neves “ficaram em silêncio”: “Um silêncio sufocante durante dias. O PS só passado 30 vezes de eu perguntar onde ele estava é que veio falar disso. Não vi Bloco de Esquerda, Livre, PCP.”
"Alguns dirão «mas vocês também têm aqui A, B, C ou D». Com certeza, todos têm. Mas com uma diferença: Sabemos distingui-los daquilo que queremos para o país, que é uma cultura de limpeza e transparência", afirmou. E reiterou: "o País vai ter uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar Luís Neves."
"Chegamos com um propósito: Reformar a justiça, garantir que os portugueses viviam melhor, garantir que o país entrava na ordem, garantir que a segurança era levada a todos, dar um futuro aos jovens e garantir que a corrupção dos últimos 50 anos acabava", frisou.
Sobre os discursos das rentrées do PSD e do PS, considera ter sido "penoso" ouvi-los. "Quem ouvir o discurso do primeiro-ministro pensa que vivemos num mundo cor de rosa, num país extraordinariamente rico onde toda a gente vive bem", criticou. Tocou em alguns dos temas que Luís Montenegro abordou, como quando que disse que "hoje o mundo inteiro, e a Europa em particular, está com os olhos em Portugal" - citação que provocou risos da plateia. "Quem ouvisse isto diria «é para ali que eu quero ir»", continuou André Ventura. "Claro que quando chegasse ia ver que temos uma economia a cair há meses, carregada de impostos e os empresários não sabem mais o que fazer e tomado de assalto pela corrupção."
Luís Montenegro também disse que Portugal tem das energias mais baratas da Europa, afirmação que o líder do Chega refuta: "Temos a segunda eletricidade mais cara da Europa e quase 35% do que pagamos são impostos." Quanto aos impostos sobre os combustíveis, André Ventura repudia o valor "absolutamente imoral" do IVA a 23%.
O líder do Chega relembrou a reforma laboral do Governo, que o Chega votou contra, resultando no chumbo da proposta. "Só ia prejudicar quem trabalha e os empresários que precisam de mão de obra. Fizemos o que o povo português nos mandatou. O Governo não esteve sequer disposto a olhar para as condições que podia fazê-la aprovar. Só demonstra teimosia, unilateralismo e arrogância."
O discurso foi também muito marcado pela imigração, com repetições dos chavões que já são habituais no partido. "Não podemos ter imigrantes que vêm para cá sem saber onde vão viver. Se não há para quem cá está não faz sentido chamar outros. Se queremos pessoas a viver dignamente, não podemos dizer «venham» para depois dormir na rua. Não podem vir e viver à custa da Segurança Social. O País não pode ser pobre para os de cá e rico para os imigrantes."
Associou, mais uma vez, a imigração à criminalidade: "Não percebo que quem vem de outro país e comete um crime não possa ser expulso. A pessoa tem um benefício porque acolhemo-la – e poucos países devem acolher tão bem como o nosso –, comete um crime, mata, rouba e não pode ser expulso. É uma estupidez."
Passou ainda pela crise migratória em Ceuta, onde entraram 72 mil migrantes vindos de Marrocos há cerca de três semanas. "É um abre olhos para nós. Se não travarmos a imigração ilegal na Europa, em breve não teremos uma Europa. Teremos um conjunto de países islamizados, uma inversão geográfica", sublinhou.
André Ventura também abordou a lei das burcas, promulgada na terça-feira pelo Presidente da República. "Fizemos aprovar a lei das burcas, para uma sociedade com igualdade de direitos. É intolerável ter um país em que há alguém que por qualquer motivo, religioso ou não, diz que uma mulher tem que se anular, andar coberta com uma burca ou ser um objeto."
Quantos aos emigrantes, referiu brevemente que estão a ser "retirados das listas e já não têm médico de família". Em causa, está a atualização do Registo Nacional de Utentes, que prevê a perda do médico de família caso o utente não tenha contacto com o Serviço Nacional de Saúde durante cinco anos.
O líder do Chega lembrou ainda o social-democrata Francisco Sá Carneiro: "É aquele em que eu consigo vislumbrar algumas das características que eu gostaria de ter enquanto político. Uma das coisas que sempre me impressionou nele, além do carisma e do discurso, foi a coragem - às vezes de ir contra o seu próprio partido, contra o seu grupo parlamentar, os seus autarcas, a sociedade civil por uma mudança que sabia que tinha de acontecer."
Deixou ainda a mensagem de que o "Chega não quer uma crise política, o País não precisa de andar em eleições atrás de eleições". Ainda assim, reiterou: "Nós estamos preparados para governar."