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Gonçalo Levy Cordeiro
Gonçalo Levy Cordeiro Dirigente da IL
21 de agosto de 2026 às 12:25

Rentrée: três partidos, zero país

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Três partidos diferentes, unidos por uma característica cada vez mais evidente: nenhum parece ter uma ideia particularmente séria sobre o país que quer construir

A rentrée política portuguesa serve, em teoria, para os partidos regressarem das férias com ideias novas. Este ano regressaram apenas com bronzeado. O PSD trouxe o mesmo catálogo do ano passado, o PS trouxe a esperança de que o Governo caia antes de cair a paciência do próprio partido com José Luís Carneiro, e o Chega trouxe André Ventura, que é simultaneamente líder, programa, estratégia, mensagem e, se for preciso, cenário de palco. Três partidos diferentes, unidos por uma característica cada vez mais evidente: nenhum parece ter uma ideia particularmente séria sobre o país que quer construir.

Luís Montenegro foi ao Pontal anunciar Fórmula 1, MotoGP, Hospital Central do Algarve e duas barragens. Detalhe: tudo já tinha sido anunciado no ano anterior. Montenegro começa a parecer um cantor em fim de carreira: já não tem músicas novas, por isso só canta os clássicos. “Fórmula 1. MotoGP. Hospital Central. Barragens. Obrigado, Algarve, vocês foram fantásticos!” A diferença entre uma estratégia e um alinhamento de concerto é que, normalmente, a estratégia inclui alguma coisa que ainda não ouvimos.

A grande novidade foi a compra de 13,7% da REN pelo Estado. Também aqui é difícil perceber o entusiasmo. A REN gere uma infraestrutura concessionada e fortemente regulada. O Estado já legisla, regula, fiscaliza, planeia e condiciona o investimento. Comprar uma participação minoritária para “ganhar influência” numa empresa sobre a qual o Estado já dispõe de enormes poderes públicos é como um árbitro comprar parte da bola para aumentar a sua autoridade no jogo. 13,7% não dão controlo (controlo obtém-se com mais de 50%, Luís), não baixam tarifas por magia e não transformam dividendos em eletricidade barata. Se os dividendos servem para remunerar o investimento do Estado, não podem simultaneamente ser apresentados como dinheiro destinado a aliviar a fatura dos consumidores. E comparar dividend yield com o custo da dívida pública, ignorando risco acionista, volatilidade e custo de oportunidade, é uma análise de investimentos digna da iliteracia financeira nacional.

Há ainda uma ironia particularmente curiosa. Se a preocupação é soberania energética, talvez fosse útil reparar que 25% da REN pertencem à State Grid, controlada pelo Estado chinês, esse, sim, o grande erro da privatização da altura da Troika: é que não foi uma privatização, foi uma nacionalização para o Estado chinês. Se já não sou apologista da venda de concessionárias de monopólios naturais, ainda menos o sou quando do outro lado está o governo comunista chinês. Se Montenegro está preocupado com o “controlo estratégico”, por que motivo decidiu, portanto, gastar centenas de milhões a comprar uma participação a um investidor espanhol enquanto deixa intacta a participação chinesa? Pergunta que, pelos vistos, ninguém lhe fez.

Montenegro também encontrou tempo para ignorar dois assuntos menos confortáveis: o desastre dos exames nacionais e Luís Neves. Quando se tratou de repetir promessas algarvias, houve memória de elefante. Já sobre o que se passou neste verão, não tinha recordação. A TAP, pelo contrário, voltou a merecer entusiasmo. Agora Montenegro garante que a venda permitirá recuperar dinheiro para os contribuintes. Um raciocínio vindo directamente da Pedro Nuno Santos Business School. As voltas que a vida dá.

Do lado do PS, José Luís Carneiro enfrenta um problema diferente: consegue falar durante bastante tempo sobre Portugal, mas sem dizer nada. Quer melhores salários, melhor educação, mais inovação, mais habitação, mais coesão territorial e um Estado melhor. Excelente. Falta apenas aquele pequeno incómodo chamado escolha política. A política começa precisamente quando é preciso explicar o que se faz, o que se deixa de fazer, e como se paga.

Carneiro parece convencido de que uma alternativa nasce por geração espontânea enquanto o Governo se desgasta. A sua prioridade é sobreviver tempo suficiente para que Montenegro caia antes de os barões socialistas concluírem que quem deve cair é ele. É uma corrida entre a legislatura e o aparelho do PS. Carneiro atacou duramente o ministro da Educação pela gestão dos exames, mas no discurso da rentrée não encontrou a mesma energia nominal para Luís Neves. É legítimo perguntar porquê. Talvez seja apenas memória institucional. Mas é curioso como a exigência de responsabilidades políticas perca alguns decibéis quando o visado é alguém que o PS escolheu, reconduziu e elogiou.

E depois há o Chega, onde o problema da visão de país é mais simples: ela nunca existiu verdadeiramente. André Ventura tem uma visão muito clara, mas é uma visão sobre André Ventura: chegar ao poder. Tudo o resto é instrumental: deputados, dirigentes, candidatos, temas, inimigos, indignações e promessas. O Chega não é tanto um projecto político como uma escada, e todos à volta de Ventura parecem existir sobretudo para segurar os degraus. Pelo caminho, claro, esperam comer alguma coisa que o “benevolente líder” lhes dê dos despojos.

Na rentrée insistiu na descida da idade da reforma. Esta última proposta resume bem a sua política: comprar os votos dos mais velhos à custa dos mais novos e daqueles que ainda não nasceram. Num país envelhecido, com cada vez menos trabalhadores por pensionista, baixar a idade da reforma sem uma reforma estrutural séria do sistema é vender o futuro dos jovens para adquirir os votos de quem está mais perto da reforma. Ventura percebe perfeitamente a aritmética eleitoral. A demográfica e económica interessam-lhe menos. Quem tem hoje 20 ou 30 anos pagará mais, durante mais tempo, por um sistema que lhe dará cada vez menos. Mas esses votos contam menos para a eleição seguinte. É esta a versão Chega da solidariedade entre gerações: uma geração recebe o benefício e a outra recebe a referência Multibanco.

O PSD administra o presente e chama-lhe futuro. O PS espera pelo futuro e chama-lhe alternativa. O Chega sacrifica o futuro e chama-lhe coragem. Nenhum responde seriamente às perguntas que importam: como aumentar a produtividade? Como reformar o Estado, financiar pensões, tornar a habitação acessível, atrair investimento e corrigir a carga fiscal sobre o trabalho? Como preparar a escola para a transformação tecnológica? Como garantir segurança energética sem converter o Estado numa sociedade gestora de participações?

Montenegro repete anúncios. Carneiro espera pela sua vez. Ventura espera pelo poder. Cada um tem uma estratégia para si próprio e para o respectivo partido. O que lhes falta é uma estratégia para Portugal.

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