Na sombra do chumbo, PSD refina linha de sucessão e não destrói pontes no Parlamento
No 43.º Congresso do PSD, Luís Montenegro promoveu o seu "bando dos quatro" para vices. Não guardou rancores contra o Chega pelo pacote laboral, mas quis mostrar a Ventura e a Passos quem é o reformista na sala.
O PSD chegou ao 43.º Congresso do PSD, em Anadia, distrito de Aveiro, sob a sombra do chumbo do pacote laboral na Assembleia da República, provocado pelo voto contra do Chega, de quem se esperava viabilização. Quase não se falou sobre isso – e quando o assunto surgiu, não se destruiu nenhuma ponte. "Eu quero dizer ao congresso e ao país: se o Chega e o PS desistiram do país, nós não vamos desistir de os chamar à razão, nós temos de governar e continuar com o dialogo na Assembleia da República", afirmou Hugo Soares, líder parlamentar. A ideia repetida pela cúpula do partido é simples: o PSD quer reformar o País, mas o PS e Chega não deixam.
No púlpito, o
primeiro-ministro, Luís Montenegro, na qualidade de líder do PSD,
apontou para a mesma ideia, sem referir abertamente os adversários
políticos. “Sempre que surge uma reforma para responder aos
desafios do futuro, logo aparecem forças políticas disponíveis
para travar, por vezes até obstinadas em fazer com que tudo fique na
mesma”, afirma Montenegro, sem atacar nenhum dos partidos de
oposição”, afirmou no seu discurso de encerramento. E sobre o
pacote laboral, apenas referiu a medida exigida pelo Chega: baixar a
idade das reformas.
“Queremos um país
com solidariedade entre gerações, cuidando do bem-estar dos que
aqui estão, mas também cuidando dos vindouros. É um princípio
que, do nosso ponto de vista, é inegociável. Para mim, as pensões
são sagradas. Não aceito — e não deixo a troco de nada — que
se ponha em causa o pagamento das pensões hoje e no futuro. A esse
propósito, quero também dizer aos portugueses que não se deixem
enganar. Baixar a idade das reformas hoje significa cortar pensões
amanhã.”
Nova direção, novas medidas
No congresso de 2021
do PS, o assunto dominante foi a sucessão de António Costa. No fim,
o primeiro-ministro juntou os seus possíveis sucessores num só
órgão interno relevante: Fernando Medina, Mariana Vieira da Silva,
Pedro Nuno Santos e Ana Catarina Mendes integraram a Comissão
Política nacional. Eram conhecidos pela imprensa como o “bando dos
quatro”, possíveis sucessores de Costa no Rato. Neste congresso,
Luís Montenegro promoveu o seu “bando dos quatro” a vices do
partido: o líder parlamentar Hugo Soares, os presidentes da Câmara
do Porto e Lisboa, Pedro Duarte e Carlos Moedas e o eurodeputado
Sebastião Bugalho (eleito porta-voz).
Há quem rejeite ver
estas trocas como sinais de sucessão. É o caso de Pedro Duarte, que
diz não ter ambições de liderança, e Sebastião Bugalho, que
afirmou à Rádio Observador “ser muito irrequieto para ser montra”
e que os novos vices vieram para trazer “novas perspetivas” ao
líder. Uma coisa é certa: a sucessão foi tema no congresso, nem
que seja pela ausência de Pedro Passos Coelho, antigo
primeiro-ministro e ex-líder, que tem endurecido o tom contra o
atual Governo – e cujas ambições se especulam.
E se Passos Coelho acusa o atual Executivo de falta de veia reformista, Montenegro respondeu no discurso de encerramento com medidas novas. A criação de “um Fundo Soberano de Portugal”: “um instrumento de autonomia e intervenção do Estado em sectores estratégicos”, junto da Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP). A intenção, descreve o primeiro-ministro, é a de o Estado ter “participações acionistas relevantes em empresas estratégicas para o desenvolvimento do país e para a sua resiliência”. Pormenor: Pedro Nuno Santos, enquanto secretário-geral do PS, tinha uma visão semelhante para a estratégia de reindustrialização equilibrada. Outra medidas, já havia sido anunciadas: A execução do fundo de catástrofes, subconcessão da linha de Cascais a privados, além de novos regimes jurídicos para o arrendamento e incentivos ao desempenho na função pública.
O primeiro-ministro explicou também que não pretende baixar a idade das reformas, como pretendia o Chega no âmbito das negociações do pacote laboral, porque isso significaria "cortar pensões amanhã". E apontou a mira a Passos Coelho: “no dia em que, por absurdo, tivesse de cortar pensões, demitir-me-ia. Reassumo aqui e agora este compromisso de honra”, disse Luís Montenegro, piscando o olho ao que ex-primeiro-ministro fez aos pensionistas durante os tempos da Troika.